{"id":19473,"date":"2018-06-10T23:52:37","date_gmt":"2018-06-11T02:52:37","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=19473"},"modified":"2018-06-11T09:27:37","modified_gmt":"2018-06-11T12:27:37","slug":"pior-que-fake-news-e-a-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2018\/06\/10\/pior-que-fake-news-e-a-censura\/","title":{"rendered":"Pior que &#8220;fake news&#8221; \u00e9 a censura"},"content":{"rendered":"<p>O termo \u201cfake news\u201d banalizou-se de tal modo ao ponto de perder completamente o sentido. \u201cFake news\u201d virou uma <strong>esp\u00e9cie de curinga<\/strong>, que pode ser utilizado para caracterizar uma not\u00edcia falsa, como tamb\u00e9m para ser reverberada por qualquer pessoa que se sinta atingida por uma <strong>informa\u00e7\u00e3o verdadeira<\/strong> da qual ele n\u00e3o goste.<\/p>\n<p>O presidente dos Estados Unidos, <strong>Donald Trump<\/strong>, \u00e9 mestre em aplicar a tacha de \u201cfake news\u201d a qualquer not\u00edcia que o desagrade. Assim, ele arrebanhou adeptos em todo em todo o mundo, incluindo o Cear\u00e1. Frente ao memorando da CIA (ag\u00eancia de espionagem americana) revelando que o general <strong>Ernesto Geisel<\/strong>, ditador do Brasil entre 1974 e 1979, n\u00e3o s\u00f3 sabia como autorizou o exterm\u00ednio de advers\u00e1rios do regime, o general <strong>Guilherme The\u00f3philo, candidato do PSDB<\/strong> ao governo do Estado, nem piscou ao dar o veredito: \u201cFake news\u201d, exclamou. A hipocrisia desses senhores \u00e9 herdeira direta do <em>duplipensar<\/em>, definido por George Orwell no livro <strong>\u201c1984\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>Devido a isso, melhor utilizar a terminologia recomendada pelo jornalista e professor <strong>Carlos Eduardo Lins da Silva<\/strong>, que prefere a express\u00e3o <strong>\u201cnot\u00edcia fraudulenta\u201d<\/strong>, criada com o objetivo deliberado de enganar, de confundir, de espalhar mentiras &#8211; de prejudicar uma pessoa ou grupo.<\/p>\n<p>Se a prolifera\u00e7\u00e3o de <strong>not\u00edcias falsas<\/strong> \u00e9 perigosa, mais ainda o \u00e9 deixar na m\u00e3o do Judici\u00e1rio ou do governo o <strong>carimbo<\/strong> para atestar o que \u00e9 fake news. A tarefa a que se prop\u00f5e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de combater as not\u00edcias falsas durante o per\u00edodo eleitoral, <strong>pode levar \u00e0 censura<\/strong> pura e simples. O acordo firmado entre o TSE e dez partidos pol\u00edticos para \u201cmanter o ambiente eleitoral imune \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o de not\u00edcias falsas\u201d, como escreveu o presidente da Corte, <strong>Luiz Fux<\/strong> em artigo no O POVO (10\/6\/2018), \u00e9 miss\u00e3o imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Boa parte das not\u00edcias fraudulentas tem um <strong>gr\u00e3o de verdade<\/strong>, a partir do qual se produzem manchetes sensacionalistas (ou mesmo mentirosas), com um texto recheado de opini\u00f5es do redator (nunca identificado). Em artigo para a Folha de S. Paulo (9\/6\/2018) Ricardo Balthazar mostra a dificuldade que a Justi\u00e7a ter\u00e1 para classificar a not\u00edcia falsa. Ele comenta o pedido da ex-senadora <strong>Marina Silva<\/strong> (Rede) para que cinco posts relativos a ela fossem retiradas de uma p\u00e1gina do Facebook, tendo sido atendida pelo <strong>ministro do TSE S\u00e9rgio Banhos<\/strong>.<\/p>\n<p>As postagens consideradas <strong>mentirosas<\/strong> pelo TSE foram baseadas em not\u00edcias reais, publicados por v\u00e1rios jornais de refer\u00eancia. Trata-se de depoimento de <strong>L\u00e9o Pinheiro<\/strong>, em 2016, na \u00e9poca negociando acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada com a Procuradoria-Geral da Rep\u00fablica, quando afirmou ter a ex-senadora recebido contribui\u00e7\u00e3o ilegal da OAS.<\/p>\n<p>Basta escrever no Google \u201cMarina citada na Lava Jato\u201d para surgirem v\u00e1rios <strong>fatos reais<\/strong> sobre o assunto. A <strong>empreiteira<\/strong>, de fato, fez contribui\u00e7\u00e3o ao PV (ent\u00e3o partido de Marina) na elei\u00e7\u00e3o de 2010, por\u00e9m, devidamente registrado na presta\u00e7\u00e3o de contas da campanha. Mas, at\u00e9 hoje, L\u00e9o Pinheiro n\u00e3o concluiu o seu acordo com a <strong>Lava jato<\/strong>, portanto o assunto permanece suspenso. Assim: <strong>1)<\/strong> \u00c9 verdade que Pinheiro fez o depoimento e que Marina recebeu recursos da OAS para sua campanha; <strong>2)<\/strong> N\u00e3o existem provas, at\u00e9 agora, que a doa\u00e7\u00e3o tenha sido ilegal.<\/p>\n<p>Marina ainda conseguiu que fossem removidas p\u00e1ginas sobre doa\u00e7\u00f5es recebida da <strong>Odebrecht<\/strong> na campanha de 2014, no valor de R$ 1,2 milh\u00e3o. O <strong>dinheiro<\/strong> tamb\u00e9m foi doado legalmente e devidamente registrado pela campanha.<\/p>\n<p>\u201cEmbora os t\u00edtulos das <strong>publica\u00e7\u00f5es<\/strong> possam ser considerados enganosos, por tratar doa\u00e7\u00f5es como propina e Marina como delatada, o conte\u00fado das not\u00edcias pouco se afasta do que os jornais publicaram\u201d, escreveu Balthazar. Portanto, o TSE pode esperar uma <strong>enxurrada de a\u00e7\u00f5es<\/strong> de candidatos que v\u00e3o trombetear \u201cfake news\u201d a qualquer men\u00e7\u00e3o ao seu nome relacionado algum <strong>poss\u00edvel malfeito<\/strong>.<\/p>\n<p>\u00c9 claro que os <strong>jornais de refer\u00eancia<\/strong> t\u00eam mais rigor com a apura\u00e7\u00e3o, ouvem os diversos personagens envolvidos em determinado fato e procuram <strong>separar not\u00edcia de opini\u00e3o<\/strong>. Nada disso \u00e9 observado pelos portais especializados em not\u00edcias falsas, que vivem de reproduzir, de maneira espetaculosa e distorcida, o material recolhido dos mais diversos <strong>meios de comunica\u00e7\u00e3o<\/strong>. Fora as invencionices, tamb\u00e9m comuns.<\/p>\n<p>Dois dos t\u00edtulos publicados e que levaram o TSE <strong>a mandar suprimir<\/strong> as postagens \u201cMarina se financia com caixa dois\u201d e \u201cMarina Silva tamb\u00e9m se beneficiou de propinas da Odebrecht e ainda fica aborrecida quando a chamam de ex-petista\u201d.<\/p>\n<p>Em um trecho de sua senten\u00e7a o ministro S\u00e9rgio Banhos aponta o que, na vis\u00e3o dele <strong>caracteriza uma not\u00edcia falsa<\/strong>: \u201cA manchete sensacionalista, a preval\u00eancia da primeira pessoa no texto, erros de gram\u00e1tica e coes\u00e3o e o uso de palavras de julgamento e extremismo\u201d. Balthazar <strong>comenta<\/strong>: \u201cSe a r\u00e9gua for essa, ser\u00e1 dif\u00edcil separar verdades e mentiras na elei\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>As not\u00edcias falsas tem o poder real de provocar o <strong>caos informativo<\/strong>, com efeitos delet\u00e9rios, como j\u00e1 se viu mundo afora. Elas estimulam o <strong>preconceito e o \u00f3dio<\/strong>, podem trazer danos \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica (campanhas contra a vacina\u00e7\u00e3o, por exemplo) e s\u00e3o capazes de <strong>influenciar o voto popular<\/strong> (elei\u00e7\u00e3o de Trump, Brexit). S\u00e3o, enfim, um <strong>atentado contra a democracia<\/strong>. Mas combat\u00ea-las de modo equivocado pode ser t\u00e3o ruim ou pior que o mal que elas provocam.<br \/>\n*<br \/>\nFolha de S. Paulo: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2018\/06\/tse-falha-ao-tentar-separar-verdade-e-mentira.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">TSE falha ao tentar separar verdade e mentira<\/a> (Ricardo Balthazar)\u00a0e <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2018\/06\/decisao-sobre-fake-news-se-baseou-em-frases-que-tratavam-suspeitas-como-fato.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Decis\u00e3o sobre fake news se baseou em frases que tratavam suspeitas como fato<\/a>;\u00a0O POVO: <a href=\"https:\/\/www.opovo.com.br\/jornal\/dom\/2018\/06\/contra-noticia-falsa-mais-jornalismo.html\">Contra a not\u00edcia falsa, mais jornalismo<\/a> (Luiz Fux).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O termo \u201cfake news\u201d banalizou-se de tal modo ao ponto de perder completamente o sentido. \u201cFake news\u201d virou uma esp\u00e9cie de curinga, que pode ser&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[362,2508],"class_list":["post-19473","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","tag-blog","tag-fake-news"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19473","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19473"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19473\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19476,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19473\/revisions\/19476"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19473"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19473"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19473"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}