{"id":19927,"date":"2019-04-26T00:01:43","date_gmt":"2019-04-26T03:01:43","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=19927"},"modified":"2019-04-24T18:32:41","modified_gmt":"2019-04-24T21:32:41","slug":"netflix-estamos-vencendo-a-luta-contra-o-sono","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2019\/04\/26\/netflix-estamos-vencendo-a-luta-contra-o-sono\/","title":{"rendered":"Netflix: \u201cEstamos vencendo a luta contra o sono\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Artigo recente publicado no site <a href=\"https:\/\/mondaynote.com\/mapping-the-brutal-subscription-battlefield-ba8cc8a242eb\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Monday Note<\/a> aborda a dificuldade que os meios de comunica\u00e7\u00e3o de not\u00edcias t\u00eam hoje para conseguir <strong>assinaturas digitais<\/strong>, tendo de concorrer com uma infinidade de neg\u00f3cios eletr\u00f4nicos, que se valem do mesmo sistema para conseguir clientes. Na disputa <strong>brutal<\/strong> pela aten\u00e7\u00e3o do leitor\/ouvinte\/espectador, os concorrente esbarram em um obst\u00e1culo insuper\u00e1vel: o tempo que cada indiv\u00edduo <strong>disp\u00f5e<\/strong> em um ciclo inel\u00e1stico de 24 horas.<\/p>\n<p><strong>Chamou-me, portanto a aten\u00e7\u00e3o este trecho da reportagem:<\/strong><\/p>\n<p>&#8211; Ao contr\u00e1rio da aloca\u00e7\u00e3o de dinheiro, o tempo n\u00e3o pode ser expandido. Exceto considerando competir com o sono, como o CEO (executivo principal) da Netflix, Reed Hastings, se orgulha: \u201cVoc\u00ea come\u00e7a a ver um programa ou um filme que voc\u00ea est\u00e1 realmente morrendo de vontade de assistir e acaba ficando acordado tarde da noite, ent\u00e3o estamos competindo com o sono. E estamos vencendo!\u201d<\/p>\n<p>Ou seja, a <strong>Netflix<\/strong> (e similares) est\u00e1 <strong>roubando<\/strong> o seu (nosso) sono e ganhando dinheiro com isso.<\/p>\n<p>Lembrei, ent\u00e3o, de dois textos que escrevera sobre o assunto \u201c<strong>sono<\/strong>\u201d e tamb\u00e9m de um artigo do soci\u00f3logo Robert Kurz tratando do tema. O primeiro que publiquei foi <a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2014\/12\/06\/dormir-e-para-os-fracos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Dormir \u00e9 para os fracos<\/a>, no qual manifestei surpresa depois de ler reportagem na revista <em>piau\u00ed, <\/em><a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/materia\/o-sono-acabou\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O sono acabou<\/a>, comentando estudo do Departamento de Defesa americano, que <strong>pesquisava<\/strong> como deixar uma pessoa v\u00e1rios dias desperta, de maneira produtiva e eficiente. O estudo tem o objetivo de criar um <strong>soldado<\/strong> \u201csem sono\u201d, apto a participar de miss\u00f5es que exijam grande esfor\u00e7o e vig\u00edlia permanentes. Inicialmente, esse per\u00edodo seria de <strong>sete dias<\/strong>; no longo prazo a finalidade \u00e9 duplicar o per\u00edodo, preservando altos n\u00edveis de desempenho <strong>mental<\/strong> e f\u00edsico.<\/p>\n<p>No artigo, assinado por Jonathan Crary, professor na Universidade Columbia (EUA), ele diz que as <strong>inova\u00e7\u00f5es militares<\/strong> s\u00e3o rapidamente absorvidas pela vida civil, e que o \u201csoldado sem sono\u201d seria o precursor do <strong>trabalhador<\/strong> ou do consumidor em permanente vig\u00edlia. \u201cProdutos contra o sono, ap\u00f3s agressiva campanha de marketing das empresas farmac\u00eauticas, iriam se tornar uma op\u00e7\u00e3o de estilo de vida e depois, para muitos, uma necessidade.\u201d<\/p>\n<p>Crary atribui ao <strong>mercado<\/strong> a \u00e2nsia por suprimir o sono, pois esse per\u00edodo improdutivo subsiste \u201ccomo uma das grandes afrontas humanas \u00e0 voracidade do capitalismo contempor\u00e2neo\u201d. Para ele, o sono \u00e9 a das \u00faltimas <strong>necessidades<\/strong> \u201caparentemente irredut\u00edveis da vida humana\u201d, que ainda n\u00e3o se transformaram em mercadoria ou <strong>investimento<\/strong>, como j\u00e1 acontece com a \u201cfome, a sede, e o desejo sexual\u201d.<\/p>\n<p>Voltei ao assunto em <a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2014\/12\/13\/o-capitalismo-contra-o-sono\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">O capitalismo contra o sono<\/a>, depois de um leitor que lera o artigo, me indicar o texto <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/fsp\/1997\/1\/12\/mais!\/7.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Escravos da luz sem miseric\u00f3rdia<\/a>, de Robert Kurz , publicado em 1997.<\/p>\n<p>Para Kurz, \u00e0 medida que a <strong>concorr\u00eancia<\/strong> se faz total, \u201co sono passa a ser um inimigo t\u00e3o s\u00f3rdido quanto a noite\u201d, pois \u201co infatig\u00e1vel ativismo da produ\u00e7\u00e3o capitalista \u00e9 \u2018desmedido\u2019. Contudo esta falta de medida n\u00e3o pode tolerar em princ\u00edpio nenhum tempo que permane\u00e7a \u2018escuro\u2019. Pois o tempo da escurid\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m o tempo do descanso, da passividade, da contempla\u00e7\u00e3o. O capitalismo requer, ao contr\u00e1rio, a amplia\u00e7\u00e3o de sua atividade \u00e0s raias do esfor\u00e7o f\u00edsico e biol\u00f3gico\u201d.<\/p>\n<p>A esfera p\u00fablica do mercado, diz Kurz,\u00a0 n\u00e3o \u00e9 propriamente o <strong>\u00e2mbito da livre<\/strong> comunica\u00e7\u00e3o, \u201cmas uma esfera da observa\u00e7\u00e3o e do controle\u201d. E se esse controle, nas ditaduras totalit\u00e1rias, era exercido externamente pelo <strong>aparato burocr\u00e1tico<\/strong> do Estado e da pol\u00edcia, na democracia tornou-se \u201cautocontrole introjetado, suplementado pela m\u00eddia comercial, na qual os holofotes dos campos de concentra\u00e7\u00e3o transmudaram-se nas lumin\u00e1rias de uma gigantesca feira a varejo. Aqui n\u00e3o se discute livremente, mas se irradia luz sem miseric\u00f3rdia\u201d.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 t\u00e3o <strong>reveladora<\/strong> a frase do diretor da Netflix, Reed Hastings, pois trata-se do executivo de uma importante empresa revelando o que talvez a economia de mercado quisesse manter em segredo. Um <strong>segredo de polichinelo<\/strong> \u00e9 certo, por\u00e9m, como tantos outros, escondidos atr\u00e1s de uma fina cortina, mas, mas que n\u00e3o ousamos transpass\u00e1-la pelo olhar. Ou, talvez, t\u00e3o <strong>iluminado<\/strong> que nos cega.<\/p>\n<p><strong>PS.<\/strong> O artigo de Robert Kurz \u00e9 bem mais complexo do que o resumo que fiz dele. Diz, por exemplo que, at\u00e9 hoje, 200 anos depois, \u201ccontinuamos ofuscados pelo clar\u00e3o do iluminismo burgu\u00eas\u201d, tra\u00e7ado\u00a0 uma esp\u00e9cie de hist\u00f3rico da \u201cclaridade\u201d, com cr\u00edtica, inclusive a Karl Marx. O link est\u00e1 acima.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo recente publicado no site Monday Note aborda a dificuldade que os meios de comunica\u00e7\u00e3o de not\u00edcias t\u00eam hoje para conseguir assinaturas digitais, tendo de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[2585,2586,1437,2587],"class_list":["post-19927","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","tag-iluminismo","tag-kurz","tag-luz","tag-netflix"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19927","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19927"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19927\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":19929,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19927\/revisions\/19929"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19927"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19927"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19927"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}