{"id":19949,"date":"2019-05-02T15:09:45","date_gmt":"2019-05-02T18:09:45","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=19949"},"modified":"2019-05-02T15:09:45","modified_gmt":"2019-05-02T18:09:45","slug":"a-liberdade-em-risco-e-o-dialogo-necessario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2019\/05\/02\/a-liberdade-em-risco-e-o-dialogo-necessario\/","title":{"rendered":"A liberdade em risco e o di\u00e1logo necess\u00e1rio"},"content":{"rendered":"<p>O jornal<em> Folha de S. Paulo<\/em> entrevistou recentemente o cientista pol\u00edtico americano Yascha Mounk, devido lan\u00e7amento de seu livro <strong>O povo contra a democracia<\/strong>\u00a0(Companhia das Letras). O t\u00edtulo provocativo explica-se pela onda reacion\u00e1ria que est\u00e1 levando liberticidas ao poder em v\u00e1rios pa\u00edses, por meio de <strong>elei\u00e7\u00f5es livres<\/strong>. S\u00e3o casos como a elei\u00e7\u00e3o nos Estados Unidos (Donald Trump), na Turquia (Recep Erdogan), Hungria (Viktor Orb\u00e1n) e Brasil (Jair Bolsonaro).<\/p>\n<p>A surpresa \u00e9 que esses movimentos surgiram quando parecia &#8211; ap\u00f3s o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica &#8211; que a <strong>democracia liberal<\/strong> havia triunfado definitivamente. A expectativa era t\u00e3o grande ao ponto de um dos livros ic\u00f4nicos da \u00e9poca ter sido \u201cO fim da hist\u00f3ria\u201d, de Francis Fukuyama, como se nenhuma outra <strong>possibilidade pol\u00edtica<\/strong> fosse poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Mounk apontou duas raz\u00f5es pela <strong>contrariedade<\/strong> de tantas pessoas pelo mundo que elevaram os populistas ao poder: <strong>1)<\/strong> Em muitos pa\u00edses, mesmo nos mais ricos, o padr\u00e3o de vida est\u00e1 estagnado, em n\u00edvel abaixo do esperado pelas pessoas; <strong>2)<\/strong> o medo que a democracia <strong>multi\u00e9tnica<\/strong> (imigra\u00e7\u00e3o) desperta em grande parcela da popula\u00e7\u00e3o. (Em alguns casos cria-se um \u201cinimigo\u201d interno, como a corrup\u00e7\u00e3o, por exemplo, como no caso do Brasil).<\/p>\n<p>Para o cientista social, \u201ca democracia enfrenta agora seu maior desafio. As pessoas est\u00e3o perdendo a f\u00e9 no sistema. Passaram a eleger l\u00edderes autorit\u00e1rios, que atacam a ordem institucional, com a desculpa de que representam a vontade popular. Ent\u00e3o o risco \u00e9 muito mais complexo e sutil, pois resulta de demandas da sociedade\u201d.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o, diz Mounk, apresenta o seguinte <strong>dilema<\/strong>: a estabilidade da democracia foi determinada por condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e culturais que n\u00e3o existem mais? A resposta talvez seja sim, diz ele. Ele afirma que os pol\u00edticos nunca tiveram muito <strong>prest\u00edgio<\/strong> com a popula\u00e7\u00e3o, mas acreditavam no sistema quando havia melhora constante da renda.<\/p>\n<p>Mas o cientista social ressalva que a hist\u00f3ria dessa estabilidade, democr\u00e1tica sempre esteve vinculada a um alto grau de <strong>homogeneidade racial<\/strong>, religiosa e cultural. Os brancos quase sempre desfrutaram de incont\u00e1veis privil\u00e9gios, enquanto imigrantes n\u00e3o eram reconhecidos como cidad\u00e3os verdadeiros em in\u00fameros pa\u00edses do <strong>Ocidente<\/strong>.<\/p>\n<p>De minha parte, tenho pouca d\u00favida de que se vive em uma <strong>encruzilhada<\/strong> hist\u00f3rica, na qual est\u00e1 se jogando o futuro da democracia. Por isso, talvez seja a hora de todos os que amam a liberdade come\u00e7arem a fazer alguma coisa. Uma delas \u00e9 <strong>reconhecer<\/strong> os limites da democracia em que vivemos, bastante excludente, comprometendo-nos com a sua <strong>amplia\u00e7\u00e3o<\/strong>; depois \u00e9 buscar incluir nessa luta todos aqueles que tenham o mesmo esp\u00edrito democr\u00e1tico, secundarizando outras poss\u00edveis diferen\u00e7as pol\u00edticas.<\/p>\n<p>Assim eu chego a outro texto publicado na <em>Folha de S. Paulo<\/em>, um artigo do escritor Jo\u00e3o Pereira Coutinho, comentando o debate entre o fil\u00f3sofo esloveno <strong>Slavoj Zizek<\/strong> e o psic\u00f3logo canadense <strong>Jordan Peterson<\/strong>, ocorrido em 19 de abril, em Toronto (Canad\u00e1). Noticiado pelos jornais como o \u201ccombate do s\u00e9culo\u201d, pois Zizek seria o \u201ccampe\u00e3o dos esquerdistas\u201d e Peterson o \u201cpeso-pesado dos direitistas\u201d, esperava-se uma <strong>carnificina<\/strong>. Por\u00e9m , \u201csobressaiu uma mensagem a favor do di\u00e1logo e contr\u00e1ria ao ref\u00fagio nas trincheiras mentecaptas\u201d (os \u201ctorcedores\u201d, de ambos os lados que esperavam \u201csangue no ringue\u201d).<\/p>\n<p>Coutinho mostra como os dois contendores, aparentemente opostos, mostraram <strong>pontos de concord\u00e2ncia<\/strong> em v\u00e1rias ocasi\u00f5es. Zizek come\u00e7ou por dizer que a palavra \u201ccomunismo\u201d s\u00f3 pode ser usada como \u201cprovoca\u00e7\u00e3o\u201d, depois dos desastres do s\u00e9culo XX. Ele <strong>reproduziu<\/strong>, na vis\u00e3o de Coutinho, a \u201cvelha cantiga social-democrata\u201d de que \u00e9 preciso \u201cregular\u201d e \u201climitar\u201d o capitalismo, n\u00e3o subvert\u00ea-lo ou destru\u00ed-lo. \u201cQuem esperava um Zizek bolchevique apanhou pela frente um Woodrow Wilson para o s\u00e9culo 21.\u201d<\/p>\n<p>Por sua vez, Peterson, que estava ali para <strong>defender o capitalismo<\/strong> \u201ccom unhas e dentes\u201d, admitiu que alguns aspectos do sistema s\u00e3o danosos para as virtudes sociais. E que a vida n\u00e3o poderia ser \u201ccomodificada\u201d, sujeita \u00e0s leis da <strong>oferta e da procura<\/strong>.<\/p>\n<p>Para Coutinho, \u201cno fundo\u201d Peterson teria se limitado a \u201ca repetir o velho credo conservador que sempre olhou para a \u2018sociedade comercial\u2019 com ambiguidade\u201d. Evocando o dito de <strong>Winston Churchil<\/strong> sobre a democracia, Peterson disse que o capitalismo \u00e9 o pior sistema econ\u00f4mico que existe, com a exce\u00e7\u00e3o de todos os outros. Como anotou Coutinho, para Peterson, o capitalismo produz <strong>riqueza<\/strong> e diminui a pobreza; mas n\u00e3o \u00e9 incompat\u00edvel com a luta pela igualdade de oportunidades ou com uma eficaz redistribui\u00e7\u00e3o de renda. \u201cJordan Peterson virou escandinavo e Zizek gostou.\u201d<\/p>\n<p>Assim, resumiu Coutinho, ambos parecem defender, em maior ou menor grau, uma <strong>mistura de Estado com mercado<\/strong>. Acrescento eu, seria uma esp\u00e9cie de fus\u00e3o com o que h\u00e1 de melhor nos dois sistemas, pois \u201ca maioria dos capitalistas n\u00e3o sabe dividir o bolo da economia e a maioria dos socialistas n\u00e3o sabe bem como faz\u00ea-lo crescer\u201d, conforme afirma o bilion\u00e1rio <a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2019\/04\/29\/bilionario-diz-que-capitalismo-falhou\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Ray Dalio<\/a>.<\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a parte que Coutinho considerou mais interessante: uma \u201cmensagem de desprezo e alguma exaspera\u00e7\u00e3o\u201d que ambos os contendores demonstraram para a nova esquerda das <strong>causas identit\u00e1rias<\/strong>. \u201cNo passado, a ideia era mudar o mundo. Agora, o desejo revolucion\u00e1rio \u00e9 mudar as palavras, os pronomes, os g\u00eaneros, os banheiros.\u201d<\/p>\n<p>Mas o que interesse nessas mal tra\u00e7adas, as poucas palavras que restaram de minha lavra, \u00e9 <strong>chamar a aten\u00e7\u00e3o<\/strong> para o ponto em que os debatedores concordam que nem tudo pode ficar nas \u201cm\u00e3os invis\u00edveis do mercado\u201d e nem nas m\u00e3os de um Estado totalit\u00e1rio. Assim, \u00e9 preciso <strong>controlar<\/strong> o capitalismo e combater o totalitarismo.<\/p>\n<p>O que eu quero dizer \u00e9 o <strong>seguinte<\/strong>: \u00e9 plenamente poss\u00edvel abrir um di\u00e1logo entre a direita democr\u00e1tica e a esquerda democr\u00e1tica, de modo a se ter um mundo mais justo e <strong>igualit\u00e1rio<\/strong>, preservando a liberdade.<br \/>\n* * *<\/p>\n<p>Escrevi o texto com base em reportagem da Folha de S. Paulo: <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/04\/democracia-liberal-esta-sendo-corroida-afirma-cientista-politico.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Democracia liberal est\u00e1 sendo corro\u00edda, afirma cientista pol\u00edtico.<\/a><br \/>\nE do artigo de <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/ilustrissima\/2019\/04\/entre-zizek-e-peterson-nao-ha-vencedor-ou-vencido-nem-combate.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Jo\u00e3o Pereira Coutinho<\/a> no mesmo jornal. (As opini\u00f5es que emiti, por \u00f3bvio, s\u00e3o de minha responsabilidade). Tamb\u00e9m pode ser interessante ver<a href=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2019\/04\/29\/bilionario-diz-que-capitalismo-falhou\/\"> Bilion\u00e1rio diz que capitalismo falhou<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal Folha de S. 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