{"id":2955,"date":"2009-10-04T00:05:43","date_gmt":"2009-10-04T03:05:43","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=2955"},"modified":"2009-10-04T00:05:43","modified_gmt":"2009-10-04T03:05:43","slug":"no-tempo-de-lampiao-o-principe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/10\/04\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/","title":{"rendered":"No Tempo de Lampi\u00e3o: &#8220;O pr\u00edncipe&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2953\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/No-tempo-de-Lampi\u00e3o-225x300.jpg\" alt=\"No tempo de Lampi\u00e3o\" width=\"225\" height=\"300\" \/>O cearense <strong>Leonardo Mota<\/strong> (1891-1948) foi jornalista e um dos maiores pesquisadores das coisas do Nordeste. N\u00e3o o encantava nem ouro e nem prata &#8211; abriu\u00a0m\u00e3o de uma vida tranquila de dono de cart\u00f3rio -;\u00a0dedicou-se a\u00a0percorrer os sert\u00f5es colhendo palavras e hist\u00f3rias\u00a0diretamente da boca do povo, registrando-as em\u00a0em seus livros.<\/p>\n<p>Em &#8220;Nos tempos de Lampi\u00e3o&#8221; [1930] ele escreveu, na primeira parte do livro, hist\u00f3rias sobre o mais famoso cangaceiro que percorreu os sert\u00f5es nordestinos.<\/p>\n<p>S\u00e3o estas hist\u00f3rias, 11 no total, que vou reproduzi-las neste blog, j\u00e1 que a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do livro [a que voc\u00eas veem ao lado] \u00e9 de 1967 &#8211; e n\u00e3o foi mais republicado.<\/p>\n<p>O t\u00edtulo desta primeira hist\u00f3ria \u00e9 &#8220;O pr\u00edncipe&#8221;, refer\u00eancia a Lampi\u00e3o. Observem &#8211; principalmente os estudantes de jornalismo &#8211; que a descri\u00e7\u00e3o inicial que o mestre Leonardo Mota faz, tem 224 palavras, antes que ele pingue o ponto final.<\/p>\n<p>Qualquer manual de reda\u00e7\u00e3o condenaria uma exorbit\u00e2ncia dessas. Mas\u00a0vejam o ritmo, o encadeamento das palavras, que n\u00e3o deixam o leitor se perder, algo que inevitavelmente aconteceria com algu\u00e9m menos h\u00e1bil para manejar o vern\u00e1culo.<\/p>\n<p><span style=\"color: #808080\">[Os textos foram digitados por Gutemberg Figueiredo, do O POVO, a quem agrade\u00e7o.]<\/span><\/p>\n<p>Fiquem com Leonardo Mota.<\/p>\n<p><strong>O pr\u00edncipe<\/strong><\/p>\n<p>AMULATADO e de estatura me\u00e3; magro e semicorcunda; barba e nuca ordinariamente raspada; cabelos compridos e, sempre que \u00e9 poss\u00edvel, perfumados; na perna esquerda, encravada, uma bala, com que o alvejou o sargento Quel\u00e9, da pol\u00edcia, paraibana; o olho direito, branco e cego, escondido pelos \u00f3culos pardacentos, de aros dourados; m\u00e3os compridas, que semelham garras; os dedos cheios de an\u00e9is de brilhantes, falsos e verdadeiros; ao pesco\u00e7o, vasto e vistoso len\u00e7o de cores berrantes, preso no alto por valioso anel de Doutor em Direito; sobre o peito, medalhas do Padre C\u00edcero, escapul\u00e1rios e saquilhos de rezas fortes; chap\u00e9u de cangaceiro, tipicamente adornado de correias e metal branco; ensimesmado toda vez que defronta uma turba de curiosos, folgaz\u00e3o quando entre poucos estranhos ou no meio de seus comparsas; n\u00e3o se esquecendo dum guarda-costa vigilante, \u00e0 direita, sempre que desconhecidos o rodeiam; palet\u00f3 e camisa de riscado claro, cal\u00e7as de brim escuro; alpercatas reluzentes de ilhoses amarelos; a tiracolo, dois pesados embornais de balas e bugigangas, protegidos por uma coberta e xale finos; t\u00f3rax guarnecido por tr\u00eas cartucheiras bem providas; \u00e1gil como um felino, mas aparentando constante estropiamento e exaust\u00e3o; \u00e0s m\u00e3os o fuzil e \u00e0 cinta duas pistolas &#8220;Parabelum&#8221; e um punhal de setenta e oito cent\u00edmetros de l\u00e2mina: eis Virgolino Ferreira da Silva &#8211; LAMPI\u00c3O &#8211; duende das estradas, assombra\u00e7\u00e3o das matas e caatingas!<!--more--><\/p>\n<p>Muita inverdade se tem escrito a respeito de Lampi\u00e3o. J\u00e1 o impingiram at\u00e9 por &#8220;almofadinha&#8221;, a fazer quest\u00e3o de se mostrar de meias de seda, como se alpercatas de rabicho e meias finas n\u00e3o fossem coisas que <em>hurlent de se trouver ensemble<\/em>&#8230; Tais retratos estramb\u00f3ticos correm mundo, merc\u00ea da facilidade de escritores e jornalistas em aceitarem, sem exame, esquip\u00e1ticas informa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>O Sr. Gustavo Barroso, \u00e0 pag. 94 do seu &#8220;Almas de Lama e de A\u00e7o&#8221;, sustenta que o pai de Lampi\u00e3o foi morto &#8220;pela pol\u00edcia pernambucana&#8221;. N\u00e3o \u00e9 exato. O velho Jos\u00e9 Ferreira tombou, sem vida, quando uma volante alagoana encontrou resist\u00eancia ao lhe cercar a casa, \u00e0 procura de Virgolino e seus manos, que j\u00e1 eram criminosos. Por sinal que a referida for\u00e7a era comandada pelo ent\u00e3o Alferes Jos\u00e9 Lucena e a esse tempo Lampi\u00e3o deixara de ser tropeiro do Cel. Delmiro Gouveia.<\/p>\n<p>O Sr. Vergne de Abreu, \u00e0 p\u00e1g. 10 do livro &#8220;Os Dramas Dolorosos do Nordeste&#8221; chama a Virgolino de &#8220;covard\u00edssimo cearense&#8221;. N\u00e3o \u00e9 verdade. Lampi\u00e3o n\u00e3o deixou o umbigo no Cear\u00e1, mas em Pernambuco. Aconteceu tal &#8220;desgra\u00e7a&#8221; aos 12 de fevereiro de 190. J\u00e1 o disse em versos o poeta popular Jos\u00e9 Cordeiro:<\/p>\n<p>No centro de Pernambuco,<br \/>\nNo Nordeste Brasileiro,<br \/>\nNo ano de novecentos,<br \/>\nA 12 de Fevereiro,<br \/>\nNo termo de Vila Bela<br \/>\nNasceu esse cangaceiro.<\/p>\n<p>Virgolino tinha quatro irm\u00e3os: dos tr\u00eas que com ele se acumpliciaram, resta somente Ezequiel. Ant\u00f4nio Ferreira morreu de sucesso, digo, vitimou-o um acidente. Livino&#8230; este tem a caveira espetada numa estaca, entre Tacaratu e Jericat\u00f3, no sert\u00e3o de Pernambuco. Jo\u00e3o, d\u00e9bil mental, jamais acompanhou a irmandade delinquente.<\/p>\n<p>Uma das maiores ojerizas de Virgolino \u00e9 contra as sertanejas que, influenciadas pela moda, cortam o cabelo \u00e0 la gar\u00e7onne: estas s\u00e3o infelicitadas, n\u00e3o por ele que as detesta, mas a mando seu, pelos cabras que o acompanham. Os sacerdotes que pregam contra a depila\u00e7\u00e3o das mulheres n\u00e3o se esquecem de lembrar \u00e0s fi\u00e9is que a devasta\u00e7\u00e3o das tran\u00e7as, afora as penas do inferno, pode importar os rigores da puni\u00e7\u00e3o terrena de Virgolino.<\/p>\n<p>Singular \u00e9 que o bandido, abominando a moda feminina, n\u00e3o tenha, por seu turno, o tradicional respeito sertanejo pela barba e procure viver de rosto glabro, sem o prec\u00e1rio ornamento capilar dos fios do ralo bigode.<\/p>\n<p>Na minha \u00faltima visita \u00e0 Penitenci\u00e1ria de Racife, perguntei a Ant\u00f4nio Silvino, a on\u00e7a ali enjaulada, desde novembro de 1914:<\/p>\n<p>&#8211; Silvino, que \u00e9 que voc\u00ea me diz de Lampi\u00e3o?<br \/>\n&#8211; Ah, seu Dr. Lampi\u00e3o \u00e9 um Prinspe!<br \/>\n&#8211; Pr\u00edncipe por qu\u00ea?<\/p>\n<p>&#8211; Veio depois de mim. Os tempos s\u00e3o outros. As arma est\u00e3o mais aperfei\u00e7oada. N\u00e3o falta quem lhe d\u00ea tudo. Caixeiro viajante n\u00e3o \u00e9 besta pra se esquecer de levar presente de bala pra ele. A poli\u00e7a quer \u00e9 s\u00f3 se encher de dinheiro no sert\u00e3o. O mundo todo virou revoltoso. Os Governo deixam de m\u00e3o os cangaceiros porque n\u00e3o tem tempo nem de cuidar dos revoltoso. N\u00e3o tenha d\u00favida: Lampi\u00e3o \u00e9 um Prinspe!<\/p>\n<p>&#8211; Mas, Silvino, Lampi\u00e3o est\u00e1 praticando horrores no sert\u00e3o. Voc\u00ea, n\u00e3o! Voc\u00ea era um cangaceiro simp\u00e1tico, que respeitava as fam\u00edlias e defendia os pobres. Diga-me uma coisa: homem que tem experi\u00eancia das lutas, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea um meio de a humanidade se ver livre de Virgolino?<\/p>\n<p>Lisonjeado, o velho cangaceiro passou a m\u00e3o pelo cabelo aparado rente ao cr\u00e2nio e insinuou, sorridente:<\/p>\n<p>&#8211; Home, s\u00f3 se a gente fizesse com ele o que fizeram com o Pitigu\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o atinei prontamente com o sentido da resposta, mas quando depois Silvino aduzia que bomba de dinamite n\u00e3o faz gra\u00e7a pra ningu\u00e9m se rir, compreendi que ele lembrava o atentado contra o General Potiguara e sugeria o recurso duma bomba trai\u00e7oeira, disfar\u00e7adamente enviada ao Prinspe&#8230;<\/p>\n<p>Nessa minha visita \u00e0 Casa de Corre\u00e7\u00e3o da capital pernambucana, conversei \u00e0 vontade com v\u00e1rios comparsas de Lampi\u00e3o, j\u00e1 felizmente ca\u00eddos nas malhas da Justi\u00e7a. Entre eles, os que mais davam \u00e0 l\u00edngua eram Serra Um\u00e3, Bra\u00fana, P\u00e1ssaro Preto, Zabel\u00ea, Canc\u00e3o e Guar\u00e1.<\/p>\n<p>Bra\u00fana aludiu \u00e0 religiosidade de Lampi\u00e3o. Alma atufada de crendices, pesco\u00e7o a vergar sob o peso de patu\u00e1s, Virgolino tem como sua mais eficiente mandinga a ora\u00e7\u00e3o do meio-dia. Se a cavalo perlustra erma estrada, quando o seu rel\u00f3gio marca as doze horas, ele se apeia e, genuflexo na areia quente do caminho, curva a cabe\u00e7a a comunicar-se com as for\u00e7as misteriosas do Al\u00e9m. Mesmo no mais renhido tiroteio, abandona o fuzil e suplica a n\u00e3o sei que santos ou diabos lhe continuem a conservar o corpo fechado.<\/p>\n<p>A uma indaga\u00e7\u00e3o minha sobre se Lampi\u00e3o \u00e9 corajoso, Zabel\u00ea atendeu:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, e tem uma coisa: pra prender ele inda n\u00e3o nasceu home. Pode nascer ou j\u00e1 nasceu pra juntar os peda\u00e7os dele, porque ele se esbaga\u00e7a, mas n\u00e3o vai preso. Virgolino \u00e9 home pra se acabar nas m\u00e3os doutro home, a qualquer hora do dia ou da noite. O cabra que cair na besteira de se botar a ele segure o pulo porque, se errar o salto, ele o lambisca depressinha, t\u00e3o certo como dois e dois ser quatro. Tem uma coisa: brigar a toa, pra perder ou s\u00f3 pra esperdi\u00e7ar muni\u00e7\u00e3o, ele n\u00e3o briga&#8230;<\/p>\n<p>Guar\u00e1 ponderou, numa compara\u00e7\u00e3o de disc\u00edpulo aprendido:<\/p>\n<p>&#8211; Espie s\u00f3 se os revoltoso andavam brigando a torto e a direito! A gente neste mundo s\u00f3 vadeia quando pode&#8230;<\/p>\n<p>Serra Um\u00e3, com ar respeitoso, aparteou com uma informa\u00e7\u00e3o preciosa:<\/p>\n<p>&#8211; O \u00fanico home que, se Lampi\u00e3o botar-lhe os olhos em riba, vai a ele, nem que saiba que os dois se desgra\u00e7am, \u00e9 o capit\u00e3o Z\u00e9 Lucena, da pol\u00edcia de Alagoas. Esse oficial era quem comandava a for\u00e7a que matou o pai dele, Virgolino. Lampi\u00e3o, quando fala nele, bate os queixo de raiva que nem caititu acuado, ou que nem paroara com sez\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>P\u00e1ssaro Preto procurou fazer a apologia do chefe:<\/p>\n<p>&#8211; Dizem que Lampi\u00e3o s\u00f3 tem \u00e9 perversidade, mas ele, \u00e0s vez, int\u00e9 mostra que tem bom cora\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>E com um exemplo ilustrou o que dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Logo que um garrancho de jurema fez aquele estrago no olho direito dele, ele um dia topou na estrada com um rapaz que disse que era m\u00e9dico. Era um doutorzim que acabava de chegar dos estudos no Rio, e vinha ganhar a vida aqui, no sert\u00e3o de Pernambuco. Mais ele vinha um cabra frouxo, que andava de rife no cabe\u00e7ote da cangalha, mas na &#8220;hora do pega pra capar&#8221;, n\u00e3o fez a menor a\u00e7\u00e3o. Ficou foi amarelo que nem uma ful\u00f4 de algod\u00e3o. Quando o mo\u00e7o falou quem era, Lampi\u00e3o disse, satisfeito: Com um Dout\u00f4 mesmo \u00e9 que eu andava com vontade de me encontrar&#8221;. O mo\u00e7o cuidou que Lampi\u00e3o estava dizendo que queria ter o gosto de matar um home formado e pediu por tudo quanto era sagrado que n\u00e3o lhe fizesse mal, pois n\u00e3o tinha mais pai e era quem sustentava uma m\u00e3e velha com um bocado de irm\u00e3os. Lampi\u00e3o sossegou ele:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;N\u00e3o tenha susto, o Dout\u00f4 est\u00e1 garantido! Agora o que vai lhe acontecer \u00e9 que o Sr. vai se despedir do mundo durante uma semana. Eu preciso que o Sr. vigie se d\u00e1 um jeito neste meu olho encrencado. Pra isso n\u00f3s vamos passar uns dias naquele saco de serra, onde eu conhe\u00e7o umas furna que \u00e9 direito uma casa&#8221;.<\/p>\n<p>O m\u00e9dico foi e, como na carga trazia umas meizinhas de primeira necessidade, p\u00f4de tratar de Lampi\u00e3o. Ao cabo de cinco dias, Virgolino estava muito melhor da infuleima\u00e7\u00e3o reimosa e resolveu ir botar de novo o Dout\u00f4 na estrada real. No momento de se despedirem, Lampi\u00e3o deu a ele quatro contos de r\u00e9is e, adispois de especular onde \u00e9 que ele ia ganhar a vida, prometeu:<\/p>\n<p>&#8211; V\u00e1, seu Dout\u00f4, pode ir sem susto que eu lhe garanto que t\u00e3o cedo eu n\u00e3o consinto outro Dout\u00f4 tomar chegada no seu neg\u00f3\u00e7o. O Sr. fica sozinho no lugar, que \u00e9 pra assim poder ganhar mais dinheiro&#8230;<\/p>\n<p>Como de fato. Passou-se foi tempo com tudo quanto era de m\u00e9dico medroso de andar por aquela zona. O doutorzim se encheu de dinheiro!<\/p>\n<p>Fiz a todos a pergunta:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00eas n\u00e3o se lembram dalgum caso engra\u00e7ado de matuto medroso, ao se ver \u00e0s voltas com Virgolino?<\/p>\n<p>Serra Um\u00e3 foi o primeiro a manifestar-se:<\/p>\n<p>&#8211; Uma vez, junto de Vila Bela, aqui em Pernambuco, Lampi\u00e3o chegou mais n\u00f3s numa venda e mandou arrear uma dessas garrafas de litro de conhaque. Lampi\u00e3o, com cisma de veneno, fez o bodegueiro beber, na frente, coisa duns dois dedo e, depois, bebeu assim um meio copo. Estava-se nisso, quando um sujeito que n\u00f3s n\u00e3o conhecia pediu a Lampi\u00e3o um golpinho da bebida. Lampi\u00e3o espiou pra ele de cara fechada e disse por aqui assim: &#8211; &#8220;Pra voc\u00ea nunca mais tomar confian\u00e7a com homem que n\u00e3o \u00e9 seu pariceiro, eu hoje lhe mato a vontade! &#8220;E obrigou o camarada pid\u00e3o a beber todo o resto do conhaque! Ou bebia, ou levava faca! O cabra saiu que saiu \u00e0s queda e foi lan\u00e7ar, foi vomitar, agarrado nas estaca dum cercado&#8230;<\/p>\n<p>Riram os bandidos, como se o caso recordado fosse jocoso e n\u00e3o atestasse, acima de tudo, a perversidade de Virgolino. Mas para aquelas almas, embotadas pela torpeza de delitos inenarr\u00e1veis, a brutalidade do gesto infame se afigurava de irresist\u00edvel comicidade.<\/p>\n<p>Zabel\u00ea cochichou qualquer coisa aos ouvidos de Canc\u00e3o e este, num riso de monstro, a mostrar a fileira de dentes pontiagudos, cerrados como caninos, desembuchou, desembara\u00e7ado, aquilo que Zabel\u00ea se acanhava de referir:<\/p>\n<p>&#8211; A coisa mais engra\u00e7ada que eu tive de assistir passou-se numa fazenda do munic\u00edpio de Princesa, na Para\u00edba. O velho dono da casa tremia que era ver vara verde. Lampi\u00e3o o botou debaixo de confiss\u00e3o, riscando-lhe o punhal nas costelas e ele acabou descobrindo o rumo da volante do Tenente Man\u00e9 Binisso. Virgolino queria dar no velho uma surra de relho, mas, era tanto choro de mui\u00e9 e menino, que o jeito foi se perdoar. Mais com pouca, Lampi\u00e3o tirou do bolso um ma\u00e7o de cigarros e ofereceu:<\/p>\n<p>&#8211; Pita?<\/p>\n<p>O velho ficou calado, fez que n\u00e3o tivesse ouvido. Lampi\u00e3o tornou a perguntar, desta vez gritando no p\u00e9 do ouvido dele:<\/p>\n<p>&#8211; Pita?<\/p>\n<p>A\u00ed, todo tremendo, o velho disse:<\/p>\n<p>&#8211; Pito. Mas, Vaminc\u00ea querendo, eu largo o vi\u00e7o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cearense Leonardo Mota (1891-1948) foi jornalista e um dos maiores pesquisadores das coisas do Nordeste. 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