{"id":3083,"date":"2009-10-11T05:13:04","date_gmt":"2009-10-11T08:13:04","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3083"},"modified":"2009-10-11T05:13:04","modified_gmt":"2009-10-11T08:13:04","slug":"leonardo-mota-para-tirar-a-raca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/10\/11\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/","title":{"rendered":"Leonardo Mota: &#8220;Para tirar a ra\u00e7a&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-2953\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/No-tempo-de-Lampi\u00e3o-225x300.jpg\" alt=\"No tempo de Lampi\u00e3o\" width=\"225\" height=\"300\" \/>Como anotei em post anterior, estou publicando as 11 primeiras hist\u00f3rias do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a segunda da s\u00e9rie:\u00a0 &#8220;Para tirar a ra\u00e7a&#8221;, sobre Sabino Gomes, um dos lugares-tenentes de Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221; teve apenas duas edi\u00e7\u00f5es, em 1930 e 1967 [editora UFC], a que ilustra a postagem.<\/p>\n<p>O cearense Leonardo Mota [1891-1948] escreveu v\u00e1rias obras sobre as coisas do Nordeste, regi\u00e3o que ele percorria para coletar as hist\u00f3rias que escreveu.<\/p>\n<p>Veja aqui o conto anterior: <a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><\/p>\n<p>Fique agora com:<!--more--><\/p>\n<p><strong>Para tirar a ra\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p>Sempre que o cora\u00e7\u00e3o cruel de Lampi\u00e3o se abrandava num gesto compassivo, Sabino Gomes, seu lugar-tenente, resmungava, contrariado. Quando foi, por exemplo, da ocupa\u00e7\u00e3o da cidade cearense Limoeiro, Lampi\u00e3o rendeu-se \u00e0s s\u00faplicas do Vig\u00e1rio local para n\u00e3o saquear as casas de com\u00e9rcio. Sabino, visivelmente irritado, mandava o Padre rezar e cuidar da sua igreja, n\u00e3o se metendo em coisas que n\u00e3o s\u00e3o da conta de quem veste batina.<\/p>\n<p>Sabino foi morto pelo pr\u00f3prio Lampi\u00e3o, que sempre o temeu, se arreceou do seu crescente prest\u00edgio no bando e se tornou cobi\u00e7ado dos cinquenta e tantos pacotes que Sabino trazia sob a cartucheira.<\/p>\n<p>&#8211; Antes que ele me queira jantar, eu o almo\u00e7o! decidiu Lampi\u00e3o, suspeitoso de que Sabino, mais hoje, mais amanh\u00e3, o abatesse com um tiro, para se apoderar da centena de contos de r\u00e9is que tamb\u00e9m ele, Virgolino, acarinhava de encontro \u00e0 cinta.<\/p>\n<p>Uma das preocupa\u00e7\u00f5es de Sabino na vida de crimes a que se entregou era vingar a morte dum seu irm\u00e3o, o Greg\u00f3rio, rapaz pacato e benquisto, eliminado numa emboscada pelo Z\u00e9 Favela. Nunca se p\u00f4de saber a causa desse assass\u00ednio.<\/p>\n<p>Um dia, casualmente chegando a uma fazenda, Sabino e seus cabras encontraram o Z\u00e9 Favela desarmado. Reconhec\u00ea-lo e arrast\u00e1-lo para o terreiro, a fim de ser sangrado, foram coisas simult\u00e2neas. Antes, por\u00e9m, que a vingan\u00e7a se consumasse, a dona da casa, com um crucifixo \u00e0 m\u00e3o, implorou do sic\u00e1rio, aos gritos:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Sabino, lhe pe\u00e7o por esta image: n\u00e3o mate o home! \u00c9 o prem\u00earo pedido que lhe fa\u00e7o e se alembre que o Sr. nunca chegou nesta casa que n\u00e3o tivesse comidoria e arrancho e a gente n\u00e3o lhe botasse no piso da poli\u00e7a! Me fa\u00e7a isso, seu Sabino, n\u00e3o mate o home!<\/p>\n<p>Sabino quedou um instante e falou pro Z\u00e9 Favela:<\/p>\n<p>&#8211; Cabra, tu vai me dizer uma coisa: por que foi que tu matou meu irm\u00e3o?<\/p>\n<p>Z\u00e9 Favela, sobranceiro como um nobre condenado, que altivamente aguardasse a morte, redarguiu, sem pestanejar:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Sabino, eu matei seu irm\u00e3o, enganado.<\/p>\n<p>&#8211; Enganado como, cabra mentiroso?<\/p>\n<p>&#8211; Cabra mentiroso, n\u00e3o seu Sabino! Eu matei seu irm\u00e3o enganado! Matei ele, enganado, porque eu ia matar era o senhor!<\/p>\n<p>A confus\u00e3o era verdadeira, mas brutal! Os companheiros de Sabino sentiram que o Favela n\u00e3o seria poupado. Mas o interrogat\u00f3rio prosseguia:<\/p>\n<p>&#8211; Me matar por qu\u00ea, cabra, se eu nunca te fiz mal?<\/p>\n<p>&#8211; Eu ia matar o Sr., pra ganhar 50$000 do Joaquim Manduca, da \u201cBoa Esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>&#8211; Bem! deliberou Sabino. Voc\u00ea agora vai nos mostrar o caminho daqui pra \u201cBoa Esperan\u00e7a\u201d.<\/p>\n<p>De novo, a mulher choramingou:<!--more--><\/p>\n<p>&#8211; Seu Sabino, lhe vem uma raiva em caminho e o Sr. acaba \u00e9 matando este home numa volta da estrada! Seu Sabino, me atenda! Seu Sabino&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Ora, larguemo de mam\u00e3ezada! aborreceu-se o pr\u00f3prio Z\u00e9 Favela, em favor de quem eram os rogos da dona da casa. O home s\u00f3 morre que a hora \u00e9 chegada! Quem morre na v\u00e9spera \u00e9 porco ou piru. Vambora, seu Sabino!<\/p>\n<p>&#8211; E saiu, resoluto, a guiar o grupo de cangaceiros. Quando avistaram a \u201cBoa Esperan\u00e7a\u201d, Z\u00e9 Favela pediu:<\/p>\n<p>&#8211; Seu Sabino, me d\u00ea um rife que o \u201cservi\u00e7o\u201d no Joaquim Manduca quem faz sou eu. Se o Sr. me aceita, eu caio na vida da espingarda, debaixo de suas orde. Lhe prometo n\u00e3o lhe fazer vergonha, porque eu c\u00e1 sou um cabra ditriminado e tanto me faz morrer hoje como na sumana que vem!<\/p>\n<p>Sabino esteve a refletir e, logo com firmeza:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o! eu n\u00e3o posso me esquecer nunca de que foi voc\u00ea que matou meu irm\u00e3o&#8230; Agora, puxe por ali! Depressa, se n\u00e3o quer que eu fa\u00e7a com voc\u00ea o que voc\u00ea fez com o Greg\u00f3rio&#8230;<\/p>\n<p>Z\u00e9 Favela rodou nos calcanhares.<\/p>\n<p>Aos seus cabras, estupefatos ante aquele gesto de clem\u00eancia, Sabino explicou, acendendo um cigarro:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o perdoei este peste, devido a diabo de rogativa de mulher, n\u00e3o! Perdoei porque ele teve a coragem de me dizer a verdade. Cabra macho de todos os seiscentos: tudo quanto era de faca fora das bainha, ele me disse, de cara e sem tremer o bei\u00e7o, que matou meu irm\u00e3o, enganado: &#8211; ia matar era a mim! Numa apertada hora daquelas, pra um home me dizer o que este cabra me disse, precisa n\u00e3o saber o que diabo \u00e9 medo!<\/p>\n<p>Fez uma pausa e, depois, soltando com for\u00e7a uma baforada de cigarro:<\/p>\n<p>&#8211; Um cabra destes n\u00e3o se mata! Deixa isso viver pra tirar ra\u00e7a!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como anotei em post anterior, estou publicando as 11 primeiras hist\u00f3rias do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota. 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