{"id":3108,"date":"2009-10-12T22:52:39","date_gmt":"2009-10-13T01:52:39","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3108"},"modified":"2009-10-12T22:52:39","modified_gmt":"2009-10-13T01:52:39","slug":"david-sedaris-engolido-pelas-labaredas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/10\/12\/david-sedaris-engolido-pelas-labaredas\/","title":{"rendered":"David Sedaris engolido pelas labaredas"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3109\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/10\/Sedaris.jpg\" alt=\"Engolido pelas labaredas - David Sedaris\" width=\"200\" height=\"298\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/10\/Sedaris.jpg 200w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/10\/Sedaris-120x179.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>Em uma dessas bancas de livraria, que eles usam para fisgar clientes<span style=\"color: #ff0000\">\u00b9<\/span>, abri um livro e li o seguinte: [veja abaixo]. Era \u201cEngolido pelas labaredas\u201d, do americano David Sedaris.<\/p>\n<p>Me chamou aten\u00e7\u00e3o e prosa ligeira e esperta e comprei por impulso<span style=\"color: #ff0000\">\u00b2<\/span>, sem saber quem era o sujeito.<\/p>\n<p>O que consegui descobrir, momento da compra, era aquilo que estava nas orelhas: que ele j\u00e1 havia escrito outros livros e era uma esp\u00e9cie de queridinho das plat\u00e9ias \u201ccults\u201d, que lotam suas \u201cconcorrid\u00edssimas leituras ao vivo\u201d, de \u201cseus pr\u00f3prios textos\u201d, como ressalva a dita orelha, para deixar bem claro que Sedaris n\u00e3o \u00e9, assim, uma esp\u00e9cie de Cid Moreira.<\/p>\n<p>De fato, um bom livro para quem gosta de humor, que alguns classificariam de \u201crefinado\u201d, mas eu prefiro cham\u00e1-lo de humor\u00a0n\u00e3o-truculento.<\/p>\n<p>Aviso que n\u00e3o sou um cara indicado para fazer cr\u00edticas de livros de humor [e de nenhum outro tipo, eu acho]: sou capaz de passar um show inteiro do Chico An\u00edsio &amp; Tom Cavalcante, sem dar nenhuma risada, como j\u00e1 passei, quando ganhei umas entradas e achei que era um desperd\u00edcio n\u00e3o cumprir a obriga\u00e7\u00e3o de comparecer. [J\u00e1 com o \u201cMister Bean\u201d e \u201cOs monstros\u201d eu consigo sorrir com o non-sense das situa\u00e7\u00f5es.]\n<p>Mas o caso aqui \u00e9 David Sedaris, que escreve de modo vivaz e cortante. Ele pr\u00f3prio \u00e9 a principal v\u00edtima de sua ironia impiedosa, que vira os personagens pelo avesso, mesmo quando o di\u00e1logo se d\u00e1 em uma r\u00e1pida corrida de t\u00e1xi.<\/p>\n<p>Obviamente, voc\u00ea n\u00e3o deve esperar um livro de piadas, que voc\u00ea vai decorar e contar em uma roda de amigos, que v\u00e3o rir para n\u00e3o perder o fregu\u00eas. Para fazer algum sentido, ser\u00e1 preciso ler suas cr\u00f4nicas &#8211; com cerca de 20 p\u00e1ginas cada uma \u2013 do come\u00e7o ao fim. [Obs: N\u00e3o \u00e9 obrigat\u00f3rio ler todas. O que eu quero dizer \u00e9 que para compreender o sentido da coisa, voc\u00ea precisar ler aquele conto que voc\u00ea estiver lendo do come\u00e7o ao fim.]\n<p>Nos tempos que correm, quando se considera o CQC \u201chumor inteligente\u201d, <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-3110\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/2009\/10\/Imagem0156-225x300.jpg\" alt=\"Groucho &amp; eu - Groucho Marx\" width=\"225\" height=\"300\" \/>mesmo que sua especialidade seja aplicar golpes abaixo da linha da cintura, ler Sedaris pode ter o efeito de voc\u00ea encontrar uma coca-cola no deserto, a \u00faltima [a piada \u00e9 velha, mas foi a \u00fanica que me ocorreu: contentem-se com ela].<\/p>\n<p>Sedaris tamb\u00e9m se revela um \u00f3timo suced\u00e2neo para as velhas revistas que habitam os consult\u00f3rios de m\u00e9dicos e dentistas. Voc\u00ea sabe, a principal especialidade de m\u00e9dicos e dentistas \u00e9 fazer voc\u00ea esperar. Assim se voc\u00ea for arrancar um dente ou visitar um proctologista, recomendo a voc\u00ea levar \u201cEngolido pelas labaredas\u201d.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/p>\n<p><span style=\"color: #ff0000\"><strong>1.<\/strong><\/span> N\u00e3o sei se todo mundo sabe, mas a distribui\u00e7\u00e3o de livros nas vitrinas e bancas das grandes livrarias, n\u00e3o acontece aleatoriamente e nem segue um prop\u00f3sito elevado de lhe mostrar os lan\u00e7amentos mais importantes. As editoras mais bem providas de recursos pagam pelo espa\u00e7o que ocupam nas bancas. Quanto mais destacado o espa\u00e7o, mas caro elas pagam.<\/p>\n<p><strong><span style=\"color: #ff0000\">2.<\/span><\/strong> Depois de ter comprado o livro [R$ 49,00] fiquei pensando: \u00e9 o tipo de livro que eu n\u00e3o preciso guardar [Pois apesar de bom, n\u00e3o \u00e9 nenhum \u201cGroucho &amp; eu\u201d, de Groucho Marx: este sim, faz voc\u00ea rir.] Ent\u00e3o, se houvesse uma vers\u00e3o eletr\u00f4nica, digamos, por R$ 5,00, eu teria feito uma boa economia. Mas voltei atr\u00e1s depois de ter pensado no consult\u00f3rio m\u00e9dico e de ter lido boa parte do livro na <a href=\"http:\/\/www.prainhadocantoverde.org\/\" target=\"_blank\">Prainha do Canto Verde<\/a>, olhando o mar da casa onde eu estava. Percebi, ent\u00e3o, que o papel ainda n\u00e3o pode ser substitu\u00eddo pelo livro eletr\u00f4nico, pelo menos enquanto este n\u00e3o se popularizar, e depois de acharem um aparelho que seja imune \u00e0 maresia e \u00e0 areia.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Cidade e campo<\/strong> [trecho]\nDavid Sedaris<\/p>\n<p>Era final de tarde quando chegamos ao LaGuardia. Peguei um t\u00e1xi perto da esteira de bagagem e entrei em algo que cheirava como um coquetel tropical de mau gosto, resultado de um odorizador de ambiente sabor coco pendurado no espelho retrovisor. \u00c9 odioso ser infantil nesse tipo de situa\u00e7\u00e3o, por isso abri um pouco a janela e dei o endere\u00e7o da minha irm\u00e3 em West Village.<\/p>\n<p>\u201cSim, senhor.\u201d<\/p>\n<p>O homem era estrangeiro, por\u00e9m n\u00e3o tenho id\u00e9ia de que pa\u00eds. De um desses pa\u00edses tr\u00e1gicos, imaginei, alguma terra assolada por serpentes e tuf\u00f5es. Mas na verdade metade do mundo \u00e9 assim. Tinha a pele escura, mais para o marrom que para o verde-oliva, e cabelos pretos e espessos tratados com alguma lo\u00e7\u00e3o oleosa o pente tinha deixado sulcos profundos que corriam pela nuca e desapareciam embaixo do colarinho pu\u00eddo da camisa.<\/p>\n<p>O t\u00e1xi saiu do meio-fio, e quando nos misturamos ao tr\u00e1fego o motorista abriu a janela que separa o banco da frente dos de tr\u00e1s e perguntou o meu nome. Eu disse meu nome e ele olhou para mim pelo espelho retrovisor, dizendo: \u201cVoc\u00ea \u00e9 um homem bom, David, n\u00e3o \u00e9? Voc\u00ea \u00e9 bom?\u201d<\/p>\n<p>Eu disse que era um cara legal, e ele continuou.<\/p>\n<p>\u201cDavid \u00e9 um bom nome, e Nova York \u00e9 uma boa cidade. Voc\u00ea n\u00e3o acha?\u201d<\/p>\n<p>\u201cAcho que sim\u201d, respondi.<\/p>\n<p>O motorista sorriu timidamente, como se eu tivesse feito um elogio, e fiquei imaginando como seria a vida dele. As pessoas leem coisas, artigos de jornal e coisas do g\u00eanero, e criam uma imagem dos incans\u00e1veis trabalhadores imigrantes que andam por aqui \u2013 ou dirigem por aqui, com mais frequ\u00eancia. O homem n\u00e3o devia ter mais de 35 anos, e depois do trabalho imaginei que iria a uma escola e estudaria at\u00e9 n\u00e3o conseguir mais manter os olhos abertos. Algumas poucas horas em casa com a mulher e os filhos e ei-lo de volta ao banco do motorista, e assim por diante, at\u00e9 conseguir um diploma e retomar a vida como radiologista. A \u00fanica coisa que o limitava era o sotaque, mas isso provavelmente desapareceria com tempo e esfor\u00e7o.<\/p>\n[&#8230;]\n<p>Em seguida ele falou alguma coisa que n\u00e3o entendi direito, e quando pedi para repetir ele ficou agitado e virou-se no assento, dizendo: \u201cQual \u00e9 o problema David? Voc\u00ea n\u00e3o escuta quando as pessoas falar?\u201d<\/p>\n<p>Falei que meus ouvidos estavam tampados por causa do avi\u00e3o, embora n\u00e3o fosse verdade. Eu podia ouvi-lo muito bem. S\u00f3 n\u00e3o conseguia entender o que dizia.<\/p>\n<p>\u201cEu perguntei o que faz como profiss\u00e3o\u201d, ele repetiu. \u201cVoc\u00ea ganha muito dinheiro? Vejo pelo seu palet\u00f3 que sim, David. Sei que voc\u00ea \u00e9 rico.\u201d<\/p>\n<p>De repente meu palet\u00f3 esporte pareceu bem melhor. \u201cEu me viro\u201d, respondi. \u201cIsso quer dizer que consigo me manter, o que n\u00e3o \u00e9 o mesmo que ser rico.\u201d<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele perguntou se eu tinha uma namorada, e quando respondi que n\u00e3o, ele juntou as sobrancelhas espessas e fez um som como tsc. \u201cAh, David, voc\u00ea precisa de uma mulher. N\u00e3o pelo amor, mas pela xoxota, que \u00e9 uma coisa necess\u00e1ria prum homem. Como eu, por exemplo. Eu trepo todo dia.<\/p>\n<p>\u201cAh\u201d, falei. \u201cE hoje \u00e9&#8230; ter\u00e7a-feira, certo?\u201d Eu tinha a esperan\u00e7a de fazer mud\u00e1-lo de assunto \u2013 talvez para os dias da semana \u2013, mas ele devia estar cansado das li\u00e7\u00f5es de ingl\u00eas.<\/p>\n<p>\u201cComo \u00e9 que \u00e9 essa hist\u00f3ria de que voc\u00ea n\u00e3o precisa de xoxota?\u201d, perguntou. \u201cO seu pau n\u00e3o fica duro?\u201d<\/p>\n<p>\u201cComo?\u201d<\/p>\n<p>\u201cSexo\u201d, ele disse. \u201cNingu\u00e9m nunca falou com voc\u00ea sobre isso?\u201d<\/p>\n<p>Peguei o New York Times da sacola e fingi estar lendo, um ato que parece ter esclarecido tudo.<\/p>\n<p>\u201cAaah\u201d, disse o motorista. \u201cJ\u00e1 entendi. Voc\u00ea n\u00e3o gosta de xoxota. Voc\u00ea gosta de pinto. \u00c9 isso?\u201d Aproximei mais o jornal do rosto, mas ele enfiou o bra\u00e7o pela janelinha e deu um tapa nas costas do banco. \u201cDavid\u201d, falou. \u201cDavid, escute quando estou falando com voc\u00ea. Eu perguntei se voc\u00ea gosta de pinto.\u201d<\/p>\n<p>\u201cEu s\u00f3 trabalho\u201d, respondi. \u201cTrabalho, depois vou para casa, e depois trabalho um pouco mais.\u201d Eu estava querendo dar um bom exemplo, tentando ser a pessoa que tinha imaginado que seria, por\u00e9m era uma causa perdida.<\/p>\n<p>\u201cEu trepo todo dia\u201d, ele se gabou. \u201cDuas mulheres. Tenho uma esposa e outra mulher pro fim de semana. Duas xoxotas. Tem certeza de que n\u00e3o gosta de trepa-trapa?\u201d<\/p>\n<p>Se me for\u00e7arem, eu consigo conviver com a palavra \u201cxoxota\u201d, mas \u201ctrepa-trepa\u201d estava me deixando enjoado. \u201cEssa palavra n\u00e3o existe\u201d, disse a ele. \u201cVoc\u00ea pode dizer que trepa, s\u00f3 que trepa-trepa n\u00e3o faz sentido. Ningu\u00e9m fala desse jeito. Voc\u00ea nunca vai progredir com essa linguagem.\u201d<\/p>\n<p>O tr\u00e1fego engrossou por causa de um acidente, e quando reduzimos a velocidade o motorista passou a l\u00edngua nos l\u00e1bios. \u201cTrepa-trepa\u201d, repetiu. \u201cEu trepo-trepo-trepo-trepro.\u201d<\/p>\n<p>Estiv\u00e9ssemos n\u00f3s em Manhatam, eu poderia ter descido e pegado outro t\u00e1xi, contudo ainda est\u00e1vamos na rodovia, ent\u00e3o, que escolha eu tinha a n\u00e3o ser ficar firme e olhar com inveja para os ve\u00edculos de resgate que se aproximavam? Afinal o tr\u00e1fego come\u00e7o a andar, e eu me resignei a ag\u00fcenta mais vinte minutos de tortura.<\/p>\n[&#8230;]\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em uma dessas bancas de livraria, que eles usam para fisgar clientes\u00b9, abri um livro e li o seguinte: [veja abaixo]. 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