{"id":3302,"date":"2009-10-17T23:03:05","date_gmt":"2009-10-18T02:03:05","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3302"},"modified":"2009-10-17T23:03:05","modified_gmt":"2009-10-18T02:03:05","slug":"o-castical-de-leonardo-mota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/10\/17\/o-castical-de-leonardo-mota\/","title":{"rendered":"&#8220;O casti\u00e7al&#8221;, de Leonardo Mota"},"content":{"rendered":"<p>Venho publicando, a cada domingo, as 11 primeiras hist\u00f3rias do livro \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, de Leonardo Mota.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 a terceira da s\u00e9rie, &#8220;O casti\u00e7al&#8221;.<\/p>\n<p>\u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d foi publicado origalmente em 1930, por Leonardo Mota, um cearense que dedicou a vida a pesquisar as coisas do Nordeste.<\/p>\n<p>O cearense Leonardo Mota [1891-1948], nascido em Pedra Branca,\u00a0 escreveu v\u00e1rias obras sobre as coisas do Nordeste, regi\u00e3o que ele percorria para coletar as hist\u00f3rias que escreveu.<\/p>\n<p>Textos anteriores j\u00e1 publicados:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\" target=\"_blank\">Para tirar\u00a0 a ra\u00e7a<\/a><\/p>\n<p><strong>O casti\u00e7al<\/strong><\/p>\n<p>Quando Lampi\u00e3o ocupou a povoa\u00e7\u00e3o baiana de Ab\u00f3boras teve a fantasia de exigir que lhe trouxessem e a seus cabras onze mulheres amigadas. A localidade n\u00e3o contava com tal n\u00famero de concubinas, pois gra\u00e7as \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos padres no confession\u00e1rio e no p\u00falpito, v\u00e3o rareando os amancebados.<\/p>\n<p>Ele satisfez-se com as tr\u00eas ou quatro que lhe foram levadas e condescendeu em deixar em paz as matronas e donzelas. Formou, em seguida, um samba org\u00edaco, todos os figurantes em trajes paradis\u00edacos, como \u00e9 de seu gosto.<br \/>\nOs bandidos, sem exce\u00e7\u00e3o de um s\u00f3, ficaram completamente b\u00eabados. A povoa\u00e7\u00e3o possui algumas dezenas de homens v\u00e1lidos, vigorosos. Se oito ou dez desses homens se dispusessem, j\u00e1 n\u00e3o digo a matar os onze cangaceiros, mas a amarr\u00e1-los e prend\u00ea-los, isso teria sido conseguido, pois no estado de embriaguez em que os criminosos se encontravam, quase nula rea\u00e7\u00e3o haveriam de opor. Mas, este nome Lampi\u00e3o \u00e9 o espantalho de milh\u00f5es de almas no sert\u00e3o nortista!<\/p>\n<p>Pouparam-no em Ab\u00f3boras. Dias depois, no lugar &#8220;Carro Quebrado&#8221;, ele praticava  inf\u00e2mia de fuzilar nove homens indefesos que trabalhavam numa estrada de rodagem. E liquidava, a faca, os sete soldados do destacamento de Queimadas, de cujo com\u00e9rcio extorquiu vinte e quatro contos de r\u00e9is.<\/p>\n<p>Nessa \u00faltima fa\u00e7anha ign\u00f3bil, culminou a sua perversidade. Apanhados de surpresa, os soldados se lhe haviam rendido, sem resist\u00eancia. Lampi\u00e3o meteu-os num cub\u00edculo e, ao escurecer, de um em um, os fez retirar para o oit\u00e3o da cadeia.<\/p>\n<p>&#8211; Sabe que vai morrer? perguntava ao que chegava.<\/p>\n<p>O infeliz pedia-lhe compaix\u00e3o, em s\u00faplicas da maior humildade, em rogos da maior ang\u00fastia. Fingindo-se apiedado, ele ordenava:<\/p>\n<p>&#8211; Pois, ent\u00e3o, tire as suas perneiras, que eu preciso delas.<\/p>\n<p>Quando o desgra\u00e7ado se curvava para as desabotoar, trai\u00e7oeira punhalada pelas costas o prostrava. E Volta Seca ia sangrando na garganta os apunhalados. (Um par\u00eantese. Volta Seca \u00e9 o benjamim da horda, quase uma crian\u00e7a. N\u00e3o tem dezoito anos. Verdadeiro criminoso nato, vive carrancudo, alegrando-se apenas quando d\u00e1 expans\u00e3o aos instintos sanguin\u00e1rios. Chama a Lampi\u00e3o de &#8220;padrinho&#8221; e este o considera o seu &#8220;menino de confian\u00e7a&#8221;.)<!--more--><\/p>\n<p>Ainda em Queimadas, ap\u00f3s haver dado liberdade aos presos sentenciados, Lampi\u00e3o insultou estupidamente o Juiz togado, a quem chamou de &#8220;negro&#8221; e obrigou a servir-lhe \u00e1gua e caf\u00e9&#8230;<\/p>\n<p>Virgolino nada p\u00f5e \u00e0 boca, sem que obrigue a pessoa que lhe apresenta a comida ou bebida a servir-se primeiro.<\/p>\n<p>&#8211; Veneno pra eu v\u00e9ve por a\u00ed banzando! Costuma repetir, precavido contra qualquer trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No sert\u00e3o pernambucano, uma mulher pretendeu envenen\u00e1-lo. Lampi\u00e3o convidou-a a beber da cacha\u00e7a em primeiro lugar. Ela desculpou-se, alegando que estava purgada. Virgolino tirou do embornal uma colher de prata e meteu-a no copo. A colher enegrece. Lampi\u00e3o percebe a cilada, agarra pelos cabelos a ousada sertaneja, amarra-a ao tronco de uma \u00e1rvore, embebe-lhe de querosene as vestes e queima-a viva, desfechando-lhe, por fim, um tiro de miseric\u00f3rdia no seio estorricado.<\/p>\n<p>A fruir a sua liberdade, com a sorte inaudita de sempre despistar os que o procuram, gosta ele de fazer picardias aos agentes do Governo. Na noite em que surpreendeu com a sua presen\u00e7a os frequentadores do cinema de Capela, em Sergipe, dirigiu-se, a desoras, ao Posto Telef\u00f4nico e obrigou o respectivo funcion\u00e1rio a chamar, na Capital, o Chefe de Pol\u00edcia do Estado. Informaram de Aracaju que, \u00e0quela hora, quase madrugada, o mencionado auxiliar do Presidente Manuel Dantas estava a dormir em sua resid\u00eancia, sendo imposs\u00edvel a liga\u00e7\u00e3o solicitada. Lampi\u00e3o riu-se e deixou-lhe um recado atrevido e grosseir\u00e3o, atenuado com o reparo trocista de que a pol\u00edcia dormia, enquanto ele velava e fazia ronda&#8230;<\/p>\n<p>S\u00e3o inumer\u00e1veis os fatos em que Virgolino tem patenteado a hediondez da sua alma de monstro. Entre essas pr\u00e1ticas infames se inclui a de cortar os bei\u00e7os dos assassinados, &#8220;pra que os defuntos fiquem se rindo&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>O antigo Deputado Federal, Dr. Vergne de Abreu, que esteve no sert\u00e3o baiano, quando Lampi\u00e3o ali praticava atrocidades inconceb\u00edveis, d\u00e1-nos conta, no livro &#8220;Os Dramas Dolorosos do Nordeste&#8221;, de alguns fatos horripilantes, quais sejam o de Virgolino haver castrado quatro rapazes em Tucano, e o de Lampi\u00e3o e quinze cabras haverem, em Baix\u00e3o do Carolino, cevado sua lubricidade numa virgem, a qual veio a falecer no dia seguinte. O supl\u00edcio dezesseis vezes sofrido pela infeliz donzela foi testemunhado por sua m\u00e3e velhinha, a cujas extor\u00e7\u00f5es de piedade para a filha desditosa foram insens\u00edveis os dezesseis dem\u00f4nios. Outra inf\u00e2mia de Virgolino foi surrar na fazenda &#8220;fund\u00e3o&#8221; o octogen\u00e1rio Joaquim Jos\u00e9 dos Santana, em cujas costas o perverso tatuou uma cruz, a punhal, depois de ter cortado os tend\u00f5es dos pulsos do anci\u00e3o, para que o mesmo ficasse irremediavelmente aleijado.<\/p>\n<p>No sert\u00e3o baiano, mandou Lampi\u00e3o preparar um ferro, uma marca de gado, com as iniciais V L (Virgolino Lampi\u00e3o) entrela\u00e7adas. Quando uma donzela lhe resistia \u00e0 lux\u00faria, ele mandava aquecer o ferro. E quando o ferro estava em brasas, ele ferrava nas coxas e n\u00e1degas, como reses suas, as virgens sacrificadas, &#8220;\u00e9guas brabas&#8221;, no seu repulsivo falar.<\/p>\n<p>No interior do munic\u00edpio de Cura\u00e7\u00e1, ele ferrou duas mo\u00e7as que logo lhe n\u00e3o satisfizeram o desejo. Uma delas era noiva e enlouqueceu. Um cabra de Lampi\u00e3o contaminou de mal ven\u00e9reo a vi\u00fava, m\u00e3e de ambas. Dias depois, as tr\u00eas desgra\u00e7adas tabaroas chegavam \u00e0 cidade de Juazeiro. Foi uma cena pungente: a vi\u00fava dizia-se desonrada e pedia um rem\u00e9dio pra&#8230; morrer; a louca proferia coisas desconexas, em que se baralhavam os nomes do noivo e de Lampi\u00e3o; a outra mocinha, debulhada em l\u00e1grimas, chorava o seu infort\u00fanio irrepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Do longo cap\u00edtulo que sobre Lampi\u00e3o escrevi no livro &#8220;Sert\u00e3o Alegre&#8221;, consta a proeza de Virgolino haver assaltado uma casa em que se festejava um casamento, e obrigado os noivos a dan\u00e7arem despidos, completamente despidos, na sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>Houve, no Rio, quem duvidasse da autenticidade de semelhante epis\u00f3dio. Objetou-se que, figura legend\u00e1ria, a Lampi\u00e3o deviam ser atribu\u00eddas muitas fa\u00e7anhas que jamais lhe passaram pela mente. Entretanto, o fato em apre\u00e7o \u00e9 absolutamente verdadeiro. A ele se referiu tamb\u00e9m o poeta popular Jos\u00e9 Cordeiro, pondo esta confiss\u00e3o na boca de Virgolino:<\/p>\n<p>No distrito Cajazeiras,<br \/>\nPerto do lugar Tatus,<br \/>\nEm um casamentos eu fiz<br \/>\nOs noivos dan\u00e7arem nus,<br \/>\nE no meio do pagode<br \/>\nMandei apagar a luz&#8230;<\/p>\n<p>Eu me encontrava, em agosto do ano passado, nos sert\u00f5es da Bahia, quando ao &#8220;Di\u00e1rio de Not\u00edcias&#8221;, de S\u00e3o Salvador, o Cel. Ant\u00f4nio Soares Monte Santo, fazendeiro em Canudos, concedia uma entrevista sobre acontecimentos desenrolados durante a estada de Lampi\u00e3o em terras baianas. Transcrevo-lhe este trecho:<\/p>\n<p>&#8211; &#8220;Foi em Pedra Branca. Ali assaltou ele uma casa de fam\u00edlia. Armou o samba. Fez quatro mocinhas despirem-se. E tocaram a sanfona. Houve bebidas e sacrif\u00edcio das infelizes sertanejas.<\/p>\n<p>&#8211; Horr\u00edvel!-<\/p>\n<p>Mas verdadeiro. E n\u00e3o foi tudo. Uma emboscada atraiu  subdelegado. Este quis manter-se como autoridade. Foi batido, violentado, v\u00edtima de um atentado infame que o levou quase morto ao hospital de Juazeiro&#8221;.<\/p>\n<p>O primeiro t\u00f3pico por mim grifado mostra que Lampi\u00e3o \u00e9 useiro e vezeiro na canalhice de obrigar donzelas a se desnudarem publicamente. O segundo alude a um atentado infame, que certamente o jornalista n\u00e3o se animou a registrar. Fa\u00e7o-o eu, para que se n\u00e3o perca esse documento do esp\u00edrito demon\u00edaco do at\u00e9 hoje impune do flagelador dos sert\u00f5es. Lampi\u00e3o for\u00e7ou o subdelegado de Pedra Branca a ficar nu em pelo, introduziu-lhe uma vela no \u00e2nus, acendeu-a depois e, obrigando a v\u00edtima a passear pela sala, deixou que a vela quase se consumisse, queimando o pobre homem, em meio \u00e0s gargalhadas e chacotas da cabroeira encacha\u00e7ada.<br \/>\nComo n\u00e3o h\u00e1 narrativa tr\u00e1gica que o tabar\u00e9u n\u00e3o sublinhe comicamente, o sertanejo que primeiro me garantiu a veracidade desse fato, cuja confirma\u00e7\u00e3o tive mais tarde, balan\u00e7ava a cabe\u00e7a e me dizia:<\/p>\n<p>&#8211; Patr\u00e3o, vaminc\u00ea vigie s\u00f3 a que \u00e9 que nossos governos deixam sujeito o pobre sertanejo! vigie s\u00f3 de que \u00e9 que Lampi\u00e3o anda fazendo casti\u00e7al&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Venho publicando, a cada domingo, as 11 primeiras hist\u00f3rias do livro \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, de Leonardo Mota. 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