{"id":3409,"date":"2009-10-25T21:17:39","date_gmt":"2009-10-26T00:17:39","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3409"},"modified":"2009-10-25T21:17:39","modified_gmt":"2009-10-26T00:17:39","slug":"quem-escreveu-a-patente-de-lampiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/10\/25\/quem-escreveu-a-patente-de-lampiao\/","title":{"rendered":"Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><strong><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-3413\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/10\/Leonardo-Mota-e-Anselmo-Vieira.JPG\" alt=\"Leonardo Mota e Anselmo Vieira\" width=\"286\" height=\"400\" \/>&#8220;N\u00e3o mexe em nada do que o teu pai escreveu. Orlando, Orlando&#8230; O que o Leota fez est\u00e1 feito e \u00e9 sagrado&#8221;<\/strong>, de Lu\u00eds C\u00e2mara Cascudo, a Orlando Mota, filho de Leonardo Mota, que organizava um livro do pai a partir das anota\u00e7\u00f5es que ele deixara. Orlando perguntou a C\u00e2mara Cascudo se devia fazer algum tipo de altera\u00e7\u00e3o e recebeu essa suave admoesta\u00e7\u00e3o de Cascudo.<\/p>\n<p>Os que acompanham este blog j\u00e1 sabem que venho publicando, a cada domingo, as 11 primeiras hist\u00f3rias de \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, de Leonardo Mota, livro escrito em 1930 pelo mestre das pesquisas do folclores e das coisas nordestinas.<\/p>\n<p>Na foto, Leonardo Mota com o cantador Anselmo Vieira, em data n\u00e3o especificada, do blog <a href=\"http:\/\/cantinhodadalinha.blogspot.com\/search?q=leonardo+mota\" target=\"_blank\">Cantinho da Dalinha<\/a>.<\/p>\n<p>J\u00e1 publiquei:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\" target=\"_blank\">Para tirar a ra\u00e7a<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-castical-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\"> O casti\u00e7al<\/a><\/p>\n<p>Leia agora:<\/p>\n<p><strong>Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Foi nos primeiros dias do ano passado e quando me internei nos sert\u00f5es de Pernambuco.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei como, naquela cal\u00e7ada de hotel, em Caruaru a palestra come\u00e7ou a girar em torno do Padre C\u00edcero, de Juazeiro. Falou-se na extrema capacidade de sedu\u00e7\u00e3o do quase nonagen\u00e1rio reverendo. Na ignor\u00e2ncia eterna em que ele finge estar de ofensas jornal\u00edstyicas que lhe s\u00e3o irrogadas. No empenho de obsequiar a todo h\u00f3spede ilustre de sua terra. Nos seus recursos de conversador matreiro, n\u00e3o abordando pol\u00edtica com advers\u00e1rios, nem religi\u00e3o com incr\u00e9us. Na sua elei\u00e7\u00e3o de Deputado Federal, sem dar \u00e0 C\u00e2mara a confian\u00e7a de tomar posse da cadeira para que f\u00f4ra colhido. No seu culto pela virtude da Castidade, contra o que inimigos ac\u00e9rrimos jamais articularam qualquer imputa\u00e7\u00e3o. Na sua megalomania, crendo-se autorizado a escrever cartas ao Kaiser, sugerindo-lhe a rendi\u00e7\u00e3o da Alemanha, ou a dar conselhos a presidentes do Brasil, quanto ao modo por que se devem conduzir no governo&#8230; \u00c9ramos poucos, mas tudo gente esfarinhada no &#8220;caso&#8221; de Juazeiro.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m lembrou que, de uma feita, ouvira um romeiro falar ao taumaturgo juazeirense: &#8211; Meu Padrim, eu queria que o Sr. me dissesse se, este ano, o sol incriza. Lhe pergunto porque eu estou com uma filha pra casar, mas ela diz que, se o sol incrizar este ano, ela n\u00e3o se casa&#8230; O Padre, que j\u00e1 havia lido as folhinhas do ano, disse que a mo\u00e7a podia se casar, pois naquele ano n\u00e3o haveria eclipse do sol&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Certos milagres que o Padre C\u00edcero faz eu tamb\u00e9m fa\u00e7o! ajuntou outro da roda. E exemplificou:<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>&#8211; Chega um romeiro e lhe diz: &#8211; Meu Padrim, vim tomar sua ben\u00e7a e lhe pe\u00e7o tamb\u00e9m que me diga onde \u00e9 que eu posso encontrar um burro meu que se sumiu.<\/p>\n<p>&#8211; Donde voc\u00ea \u00e9? indaga o Padre.<br \/>\n&#8211; Eu sou de Barbalha.<br \/>\n&#8211; E o seu burro donde era?<br \/>\n&#8211; Comprei ele perto do Crato.<br \/>\n&#8211; Pois, procure de Barbalha para o Crato que voc\u00ea o encontra.<\/p>\n<p>Com efeito, o burro, saudoso dos velhos pastos, para l\u00e1 se escapulira. Isso era de f\u00e1cil previs\u00e3o que pra onde era pasteiro pra a\u00ed \u00e9 que o burro foge. Mas ningu\u00e9m tira da cabe\u00e7a do fan\u00e1tico que o Padre C\u00edcero fez o milagre de advinhar onde o animal estava. Ora, assim tamb\u00e9m, at\u00e9 eu sou milagroso&#8230;<\/p>\n<p>E um terceiro companheiro de prosa rememora:<\/p>\n<p>&#8211; Uma vez, o Padre C\u00edcero estava lendo uns jornais, \u00e0 noite, \u00e0 luz de uma estearina. Come\u00e7ou a cochilar e a chama da vela atingiu-se a manga da batina, queimando-lhe bastante o bra\u00e7o. No outro dia, ao saberem do acidente, os romeiros fizeram s\u00e9rias penit\u00eancias, porque acreditavam que o Padre C\u00edcero, como Jesus Cristo, estava a sofrer pelos pecados da humanidade&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea conhece as perip\u00e9cias da perman\u00eancia de Lampi\u00e3o em Juazeiro, quando foi incorporado \u00e0s tropas legalistas em persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 Coluna Prestes? &#8211; interpelou-me o velho agr\u00f4nomo Pedro de Albuquerque Uchoa que, \u00e0quele tempo, exercia na Meca sertaneja do Cear\u00e1 as fun\u00e7\u00f5es do cargo de Inspetor Agr\u00edcola.<\/p>\n<p>&#8211; Conhe\u00e7o. Tanto que as descrevo em prosa e verso num de meus livros.<\/p>\n<p>&#8211; Mas aposto que n\u00e3o sabe quem escreveu a nomea\u00e7\u00e3o de Virgolino para, no posto de Capit\u00e3o, combater os revoltosos!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, isso n\u00e3o sei. E ignorava at\u00e9 que do fato tivesse havido documento escrito.<\/p>\n<p>&#8211; Pois, foi este seu criado que lhe est\u00e1 falando quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9 poss\u00edvel? Diga, diga, por favor, como foi que isso se deu!<\/p>\n<p>E o agr\u00f4nomo Uchoa n\u00e3o se fez de rogado:<\/p>\n<p>&#8211; Como voc\u00ea sabe, porque v\u00e1rias vezes l\u00e1 me viu, residi oito anos em Juazeiro. Quando o Dr. Floro Bartolomeu  foi incumbido, pelo Governo da Rep\u00fablica, de dar ca\u00e7a aos revoltosos no Nordeste, agravaram-se sobremodo os padecimentos card\u00edacos do referido deputado. Tenho lido que foi no quase del\u00edquio de sua raz\u00e3o que o Dr. Floro se lembrou dos pr\u00e9stimos guerreiros de Lampi\u00e3o e seu bando, atraindo-os ao quartel-general de Juazeiro. De fato, n\u00e3o acredito que Virgolino tivesse o arrojo de ir a uma cidade ent\u00e3o excepcionalmente guarnecida de soldados, sem que um chamamento amistoso a tanto o autorizasse. O que sei tamb\u00e9m, entretanto, \u00e9 que o Dr. Floro j\u00e1 se achava no Rio, onde foi morrer com honras de General, quando o Padre C\u00edcero, uma noite, me mandou chamar \u00e0 sua presen\u00e7a, para eu lavrar a patente de Lampi\u00e3o. Pedi que ele ditasse e pensei que estivesse apenas a servir de secrat\u00e1rio, ou coisa que o valha. Supus que quem assinasse o documento comprometedor fosse ele mesmo, Padre C\u00edcero, mas este, quando acabou de ditar, me disse:<\/p>\n<p>&#8211; Agora, assine! O Floro, que \u00e9 Deputado Federal, n\u00e3o est\u00e1 aqui e eu n\u00e3o exer\u00e7o nenhum cargo. Voc\u00ea, por\u00e9m, como Inspetor Agricola, \u00e9 uma autoridade federal&#8230;<\/p>\n<p>Achei de bem n\u00e3o discutir e n\u00e3o tive d\u00favidas: firmei meu jameg\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Eu estava radiante com a interessant\u00edssima informa\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, assim inesperadamente. O agr\u00f4nomo Pedro Uchoa sempre foi pessoa respeit\u00e1vel, de conceito, e a sua sensacional revela\u00e7\u00e3o se impunha como fidedigna. N\u00e3o se deteve, todavia, o valioso informante e acrescentou:<\/p>\n<p>&#8211; Quem me f\u00f4ra chamar em casa, a mandado do Padre C\u00edcero, f\u00f4ra o c\u00e9lebre bandido Sabino Gomes, acompanhado de Ant\u00f4nio Ferreira, irm\u00e3o e tamb\u00e9m cangaceiro de Lampi\u00e3o. Em presen\u00e7a deles \u00e9 que eu achara prudente n\u00e3o hesitar em assinar a patente.<\/p>\n<p>E com um risonho significado:<\/p>\n<p>&#8211; Naquela hora eu assinava at\u00e9 a demiss\u00e3o do Artur Berbardes, quanto mais a nomea\u00e7\u00e3o de Virgolino&#8230; Cumprida minha miss\u00e3o, os dois bandoleiros, que mehaviam ido buscar, prontificaram-se a fazer-me companhia n regresso \u00e0 minha resid\u00eancia. Eram quase onze horas da noite. Eu tinha na cabe\u00e7a um mundo de apreens\u00f5es a respeito daquilo a que, moralmente constrangido, acabara de emprestar meu nome. A caminho de casa, enchi-me de coragem e fiz ver a Sabino e Ant\u00f4nio Ferreira que aquela nomea\u00e7\u00e3o por mim assinada n\u00e3o tinha valor algum, porquanto eu n\u00e3o passava de simples funcion\u00e1rio subalterno do MInist\u00e9rio da Agricultura. Mas o mano de Lampi\u00e3o resmungou secamente que, se o Padre dissera que era eu quem devia assinar a patente, era porque era eu mesmo. De novo me calei, conformado com os altos poderes de que a sorte naquela noite me investia&#8230; E a patente foi ter ao embornal de Virgolino, que estava pernoitando no sobradinho em que morava seu contraparente, o cantador Jo\u00e3o Mendes de Oliveira.<\/p>\n<p>&#8211; Uchoa, e o Padre C\u00edcero n\u00e3o lhe disse nada a respeito de Lampi\u00e3o?<\/p>\n<p>&#8211; Disse. Ele me disse que Virgolino era um menino bom mas doido, que Virgolino queria brigar ao lado do Governo, que Virgolino jurara por Nossa Senhora das Dores em como daquele dia por diante havia de ser um homem, um cidad\u00e3o e n\u00e3o um cangaceiro, e patati e patat\u00e1&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E que \u00e9 que voc\u00ea dizia na patente?<\/p>\n<p>&#8211; Como j\u00e1 expliquei, o Padre foi quem ditou. N\u00e3o guardei c\u00f3pia, n\u00e3o, mas me lembro de que a nomea\u00e7\u00e3o era feita &#8220;em nome do Governo da Rep\u00fablica dos Estados Unidos do Brasil&#8221; e servia tamb\u00e9m de salvo-conduto, uma vez que reconhecia ao &#8220;Senhor Capit\u00e3o Virgolino Ferreira da Silva&#8221; o direito de se locomover livremente, transpondo as fronteiras de qualquer Estado, com os &#8220;patriotas&#8221; que arregimentasse.<\/p>\n<p>E o Sr. Pedro Uchoa p\u00f4s remate \u00e0s suas declara\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; O Dr. Otac\u00edlio de Macedo, m\u00e9dico no Crato, que f\u00f4ra a Juazeiro especialmente para entrevistar Lampi\u00e3o em nome da &#8220;Gazeta do Cariri&#8221;, perguntou a ele:<\/p>\n<p>&#8211; Capit\u00e3o, o Sr., que j\u00e1 tem tanto dinheiro, por que n\u00e3o abandona essa vida perigosa, por que n\u00e3o vai pros sert\u00f5es de Goi\u00e1s ou Mato Grosso gozar por l\u00e1 a fortuna que arranjou?<\/p>\n<p>Sabem o que ele respondeu?<\/p>\n<p>&#8211; O Sr., estando bem numa vida, o Sr. larga ela? Assim sou eu!<\/p>\n<p>O certo, meus amigos, \u00e9 que Lampi\u00e3o e sua cabroeira passearam \u00e0 vontade pelas ruas de Juazeiro, tiraram retrato, beberam, dan\u00e7aram, foram visitados pelos romeiros do Padre, municiaram-se fartamente e trocaram seus rifles velhos por espl\u00eandidas carabinas e fuzis do Ex\u00e9rcito, \u00faltimo modelo, tudo novinho da silva&#8230; Mas tinha bastado uma palavrinha do Padre e Lampi\u00e3o nunca mais seria gente. N\u00e3o faltou quem se oferecesse para unh\u00e1-lo. O sargento cearense Jos\u00e9 Ant\u00f4nio at\u00e9 chorava, de raiva&#8230;<\/p>\n<p>Houve um sil\u00eancio na roda. N\u00e3o havia em torno quem se n\u00e3o sentisse indignado. Eu dizia mentalmente os versos do poeta popular Jos\u00e9 Ad\u00e3o:<\/p>\n<p>Com o regime atual<br \/>\nCrime \u00e9 s\u00f3 ser revoltoso!<br \/>\nTudo mais \u00e9 tolerado,<br \/>\nHonrado, honesto e honroso&#8230;<br \/>\nDesde o tempo bernardista,<br \/>\nLampi\u00e3o \u00e9 legalista,<br \/>\nDeixou de ser criminoso.<br \/>\nSe o canga\u00e7o n\u00e3o contasse<br \/>\nCom a prote\u00e7\u00e3o de Juazeiro,<br \/>\nQue vale por dez Canudos<br \/>\nDo velho Ant\u00f4nio Conselheiro,<br \/>\nA pol\u00edcia o extinguiria<br \/>\nE em pouco tempo estaria<br \/>\nTranq\u00fcilo o Nordeste inteiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;N\u00e3o mexe em nada do que o teu pai escreveu. 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