{"id":3491,"date":"2009-10-31T23:58:37","date_gmt":"2009-11-01T02:58:37","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3491"},"modified":"2009-10-31T23:58:37","modified_gmt":"2009-11-01T02:58:37","slug":"a-morte-do-jararaca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/10\/31\/a-morte-do-jararaca\/","title":{"rendered":"A morte do Jararaca"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_3492\" style=\"width: 250px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3492\" class=\"size-full wp-image-3492\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/10\/jararaca.jpg\" alt=\"Jararaca preso em Mossor\u00f3\" width=\"240\" height=\"320\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/10\/jararaca.jpg 240w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/10\/jararaca-120x160.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 240px) 100vw, 240px\" \/><p id=\"caption-attachment-3492\" class=\"wp-caption-text\">Jararaca preso em Mossor\u00f3<\/p><\/div>\n<p>Este \u00e9 a quinta hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o que reproduzo do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a pesquisar as coisas do sert\u00e3o nordestino.<\/p>\n<p>Estou editando as publica\u00e7\u00f5es aos domingos, tendo j\u00e1 publicado:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\" target=\"_blank\">Para tirar a ra\u00e7a<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-castical-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O casti\u00e7al<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/quem-escreveu-a-patente-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>Fique agora com:<\/p>\n<p><strong>A morte do Jararaca<\/strong><\/p>\n<p>Quando Lampi\u00e3o teve a certeza de que atravessaria livremente todo o Cear\u00e1, em cujo territ\u00f3rio j\u00e1 por vezes penetrara, erguendo vivas ao ent\u00e3o Presidente do Estado, decidiu invadir o Rio Grande do Norte, para atacar a cidade de Mossor\u00f3. Seduziam-nos os pingues recursos desse emp\u00f3rio comercial, servido por uma ag\u00eancia do Banco do Brasil.<\/p>\n<p>Saiu-lhe, por\u00e9m, o ano bissexto&#8230; A popula\u00e7\u00e3o de Mossor\u00f3, tendo \u00e0 frente o valoroso Prefeito Cel. Rodolfo Fernandes, reagiu bravamente ao assalto da cabroeira de Virgolino e dois sequazes deste tombaram baleados, sem que os companheiros os pudessem conduzir.<\/p>\n<p>Um dos feridos era o Jararaca. Transportado para a cadeia, solicitamente o medicaram. Era preciso que ele n\u00e3o falecesse sem que as autoridades o ouvissem. De fato, s\u00f3 depois de prensado, interrogado e, at\u00e9, de fotografado, o Jararaca morreu. Mas ningu\u00e9m o viu morto, pois o enterramento foi dado como feito alta noite.<\/p>\n<p>Uns vinte dias depois, dizia-me em Fortaleza um sertanejo da terra potiguar:<\/p>\n<p>&#8211; Jararaca morreu, mas n\u00e3o foi de morte morrida: foi de morte matada&#8230;<\/p>\n<p>E com a desenvoltura de quem n\u00e3o tem papas na l\u00edngua nem \u00e9 jornalista do Governo, descreveu a cena macabra:<\/p>\n<p>&#8211; Uma boca-de-noite, noite de lua, o Jararaca, algemado, foi conduzido da cadeia pro cemit\u00e9rio. Chegando l\u00e1 rodeado de soldados, mostraram-lhe uma cova, aberta l\u00e1 num canto, quase fora do &#8220;sagrado&#8221; e lhe perguntaram se ele sabia pra que era aquilo&#8230; Foi quando o Jararaca falou, frocado e destemido:<\/p>\n<p>&#8211; Saber de certeza n\u00e3o sei, n\u00e3o, mas por\u00e9m estou calculando&#8230; N\u00e3o \u00e9 pra mim? Agora, isso s\u00f3 se faz porque eu me vejo nestas cerconstan\u00e7a, com as m\u00e3os inquirida e desarmado! Um gosto eu n\u00e3o deixo pra voc\u00eas: \u00e9 se gabarem de que eu pedi que n\u00e3o me matassem. Matem! Que matam mas \u00e9 um home! Fiquem sabendo que voc\u00eas v\u00e3o matar o home mais valente que j\u00e1 pisou neste&#8230;<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o teve tempo de acabar de dizer o que queria. Por tr\u00e1s dele, um soldado, naturalmente de combina\u00e7\u00e3o com os outros, deu-lhe um tiro de rev\u00f3lver na cabe\u00e7a. A bala pegou bem no mole do p\u00e9 do ouvido, l\u00e1 nele. O Jararaca amunhecou das pernas e caiu, de olho vidrado. A\u00ed, os soldados o empurraram com os p\u00e9s pra dentro da sepultura. S\u00f3 demoraram enquanto tiravam os ferros das algemas. Quando o cad\u00e1ver rolou pra cova, fizeram luz e espiaram: o finado tinha ca\u00eddo de bru\u00e7os. Mas, ningu\u00e9m se embara\u00e7ou com isso: por cima do corpo inda quente, as p\u00e1s de terra deram servi\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Calou-se o narrador, para dizer, logo mais, entre compadecido e ir\u00f4nico, num misto de piedade e de galhofa:<\/p>\n<p>&#8211; Coitado do Jararaca! T\u00e3o valente na hora da morte, mas foi enterrado dando as costas pra este mundo velho, onde ele fez tanta estrepolia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Este \u00e9 a quinta hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o que reproduzo do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[74,1383,1610],"class_list":["post-3491","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","tag-a-morte-do-jararaca","tag-leonardo-mota","tag-no-tempo-de-lampiao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3491","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3491"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3491\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}