{"id":3539,"date":"2009-11-15T00:01:18","date_gmt":"2009-11-15T03:01:18","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3539"},"modified":"2009-11-15T00:01:18","modified_gmt":"2009-11-15T03:01:18","slug":"brincadeira-de-homem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/11\/15\/brincadeira-de-homem\/","title":{"rendered":"&#8220;Brincadeira de homem&#8221;"},"content":{"rendered":"<p>Publico a s\u00e9tima hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o,\u00a0reproduzida do livro \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a pesquisar as coisas do sert\u00e3o nordestino.<\/p>\n<p>Estou editando as publica\u00e7\u00f5es aos domingos, tendo j\u00e1 publicado:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\">Para tirar a ra\u00e7a<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-castical-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O casti\u00e7al<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/quem-escreveu-a-patente-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/a-morte-do-jararaca\/\" target=\"_blank\">A morte do Jararaca<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-trofeu-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O trof\u00e9u<\/a><\/p>\n<p>Fique agora com:<\/p>\n<p><strong>&#8220;Brincadeira de homem&#8221;<\/strong><\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Silvino fazia-se respeitado de seus sat\u00e9lites. Disciplinava-os. Sabia assegurar a conveniente dist\u00e2ncia que deve existir entre comandante e comandados. Jamais permitiu atrocidades que n\u00e3o houvesse, em pessoa, determinado.<\/p>\n<p>Chegara ele com a sua r\u00e9cua a uma fazenda. \u00c0 hora do improvisado almo\u00e7o, um cabra, o Tempestade, deu-se ao luxo de reclamar:<\/p>\n<p>&#8211; \u00d4 arroz insosso de todos os diabos!<\/p>\n<p>Um rel\u00e2mpago de c\u00f3lera fulgiu nos olhos de Silvino, que, findo o repasto, foi falar \u00e0 mulher do fazendeiro:<\/p>\n<p>&#8211; Dona, a senhora tem sal em casa?<\/p>\n<p>&#8211; Tenho, seu Capit\u00e3o. Eu vi aquele homem n\u00e3o gostar&#8230; Vossenhoria me discurpe, me perdoe o arroz sair insosso: foi coisa do avexame, do aperreio do perparo&#8230;<\/p>\n<p>&#8230; &#8211; Nh\u00f3ra n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 por isso, n\u00e3o: eu quero saber se a senhora me pode vender meio litro de seu sal.<\/p>\n<p>&#8211; Posso lhe ceder; vender n\u00e3o. O Capit\u00e3o leve o sal, que n\u00e3o lhe custa nada e \u00e9 dado de gosto!<\/p>\n<p>&#8211; Nh\u00f3ra n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 pra carregar, n\u00e3o. \u00c9 um ensinamento que eu quero dar naquele cabrocha, que falou do arroz. Me v\u00e1 ver meio litro, por bondade!<\/p>\n<p>Atendido, Silvino pediu uma bacia, derramou dentro o sal, dissolveu com uma por\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e, voltando ao terreiro, onde o Tempestade esgravatava a dentu\u00e7a, obrigou-o, de punhal \u00e0 m\u00e3o, a beber toda aquela \u00e1gua, horrivelmente salgada:<\/p>\n<p>&#8211; Isso \u00e9 pra voc\u00ea, seu bruto, perder o costume de botar defeito no que lhe d\u00e3o, de gra\u00e7a! Engula! Ou engole, ou morre! Comeu insosso, beba salgado, que \u00e9 pra carga n\u00e3o ficar torta&#8230; Cabra sem cria\u00e7\u00e3o!<\/p>\n<p>Da\u00ed a pouco o Tempestade padecia sob a a\u00e7\u00e3o do purgante mais que en\u00e9rgico&#8230;<!--more--><\/p>\n<p>Lampi\u00e3o aparceira-se com os miser\u00e1veis a quem capitaneia. Troca insultos e gra\u00e7olas com eles. Falta-lhe o esp\u00edrito autorit\u00e1rio de Silvino. Apenas na hora dos combates, \u00e9 cegamente obedecido: todos cr\u00eaem na sua invicta estrat\u00e9gia de guerreiro caboclo.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Ferreira, irm\u00e3o de Virgolino, tamb\u00e9m se acamaradava em excesso com os restantes componentes do bando. Um dia, Lampi\u00e3o mandou que o mano e mais quatro homens fossem \u00e0 casa dum seu protetor e esperou no mato que regressassem. No alpendre da casa em quest\u00e3o, havia uma rede armada. Os cinco bandidos, empurrando-se violentamente, disputavam o gozo de alguns momentos na tip\u00f3ia. Nesse ruge-ruge de encontr\u00f5es, um fuzil cai ao solo e dispara, prostrando morto Ant\u00f4nio Ferreira, atingido pelo tiro no mamilo esquerdo.<\/p>\n<p>Compungidos, os quatro criminosos voltaram imediatamente \u00e0 presen\u00e7a de Virgolino. Conduziram o cad\u00e1ver e narraram a casualidade da fatal ocorr\u00eancia. Lampi\u00e3o ouviu-os, silencioso. A cabroeira, solid\u00e1ria com o chefe, censura os rec\u00e9m-vindos, lembrando que por via duma dessas \u00e9 que o povo diz que brincadeira de home cheira a defunto&#8230; Sabino Gomes, mais perverso, insinua que a hist\u00f3ria est\u00e1 mal contada&#8230;<\/p>\n<p>Lampi\u00e3o decide: n\u00e3o quer mais a companhia dos autores da vadia\u00e7\u00e3o em que morreu o Ant\u00f4nho. Expulsa-os do bando. O armamento, por\u00e9m, era seu, dele. Exige imediata restitui\u00e7\u00e3o. E apenas os quatro se haviam despojado das armas, Lampi\u00e3o, auxiliado por Sabino, os liquida a tiros e facadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publico a s\u00e9tima hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o,\u00a0reproduzida do livro \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26,1],"tags":[394,1383,1610],"class_list":["post-3539","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","category-sem-categoria","tag-brincadeira-de-home","tag-leonardo-mota","tag-no-tempo-de-lampiao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3539","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3539"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3539\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}