{"id":3543,"date":"2009-11-08T00:37:14","date_gmt":"2009-11-08T03:37:14","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3543"},"modified":"2009-11-08T00:37:14","modified_gmt":"2009-11-08T03:37:14","slug":"o-trofeu-de-leonardo-mota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/11\/08\/o-trofeu-de-leonardo-mota\/","title":{"rendered":"&#8220;O trof\u00e9u&#8221;, de Leonardo Mota"},"content":{"rendered":"<p>Esta postagem \u00e9 a sexta hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o que reproduzo do livro \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra Branca que dedicou-se a pesquisar as coisas do sert\u00e3o nordestino. S\u00e3o 11 contos no total.<\/p>\n<p>Estou editando as publica\u00e7\u00f5es aos domingos, tendo j\u00e1 publicado:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\" target=\"_blank\">Para tirar a ra\u00e7a<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-castical-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O casti\u00e7al<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/a-morte-do-jararaca\/\" target=\"_blank\">A morte do Jararaca<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/quem-escreveu-a-patente-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o<\/a><\/p>\n<p>\u00a0Fique agora com<\/p>\n<p><strong>O trof\u00e9u<\/strong><\/p>\n<p>Z\u00e9 Pinheiro, o celeb\u00e9rrimo fac\u00ednora que t\u00e3o sinistramente se afamou na sedi\u00e7\u00e3o de Juazeiro contra o Presidente cearense Franco Rabelo, era um cangaceiro pervers\u00edssimo, ajutor de dezenas de homic\u00eddios b\u00e1rbaros. O seu renome se fez no per\u00edodo que mediou entre o alumbramento da estrela de Ant\u00f4nio Silvino e o fulgor infernal da triste gl\u00f3ria de Lampi\u00e3o.<\/p>\n<p>Conheci-o pessoalmente em abril de 1914, quando a jagun\u00e7ada do Padre C\u00edcero passava pela cidade de Quixad\u00e1. Acabou martirizado nos sert\u00f5es alagoanos por uns rapazes, cujo pai fora por ele assassinado. Essa vingan\u00e7a foi terr\u00edvel: convenientemente amarrado, n\u00e3o lhe deram pancadas nem tiros &#8211; esfolaram-no vivo, supl\u00edcio que o bandido suportou, rilhando os dentes e sem a humilha\u00e7\u00e3o de in\u00fatil pedido de miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Quando Z\u00e9 Pinheiro morava nos dom\u00ednios do Padre C\u00edcero, vivia tamb\u00e9m, a esse tempo, em Juazeiro, o Ant\u00f4nio God\u00ea, outro cangaceiro famoso. O God\u00ea era mais valente que o Z\u00e9 Pinheiro; este tinha apenas mais perversidade.<\/p>\n<p>Incomodado com a fama do rival, Z\u00e9 Pinheiro brabateou, um dia, que ainda havia de mostrar ao God\u00ea quem dos dois era o homem mais homem. A amea\u00e7a chegou aos ouvidos do Ant\u00f4nio God\u00ea que, sem dizer palavra, saiu ao encontro daquele que assim jurara despach\u00e1-lo, antes de tempo, deste para o outro mundo. Encontrou-o a beber cacha\u00e7a e contar proezas, num quarto de feira. Aproximou-se, bateu-lhe levemente no ombro e pediu em tom camaradesco:<\/p>\n<p>&#8211; Z\u00e9 Pinheiro, meu cab\u00f4co, deixa eu ver a\u00ed a fralda de tua camisa!<\/p>\n<p>&#8211; Que neg\u00f3cio \u00e9 este, Ant\u00f4nio God\u00ea<\/p>\n<p>&#8211; Nada. \u00c9 uma brincadeira, \u00e9 uma ca\u00e7oada que eu quero te ensinar&#8230;<\/p>\n<p>E, dando o exemplo, p\u00f4s para fora das cal\u00e7as a camisa. Z\u00e9 Pinheiro fez o mesmo e o God\u00ea, dando forte n\u00f3 com ambas as pe\u00e7as de roupa, falou, noutro tom:<\/p>\n<p>&#8211; Agora que n\u00f3s estamos amarrados um no outro e nenhum de n\u00f3s pode correr, bata m\u00e3o \u00e0 sua faca, cabra severgonho, que chegou a hora de se decidir quem de n\u00f3s dois \u00e9 home mais home!<\/p>\n<p>E j\u00e1 empunhando a sua pajeuzeira, deu v\u00e1rios panos no peito e no rosto do bandido acovardado, que n\u00e3o teve coragem de sacar o punhal e se desmanchou em desculpas e protestos de amizade. Cansado de o provocar, Ant\u00f4nio God\u00ea falou, com desprezo:<\/p>\n<p>&#8211; Eu n\u00e3o te mato, mundi\u00e7a, porque cabra frouxo como tu, um home como eu inzempla \u00e9 assim como eu fiz agora. Mas, olha: tu larga meu nome de m\u00e3o, deixa de paleio com minha vida, sen\u00e3o eu te arranco o cora\u00e7\u00e3o pelas costas! Tu cuida que eu sou o negro Quintino, que se o Padre Ci\u00e7o n\u00e3o chega t\u00e3o depressa, tu tinha comido a l\u00edngua do cad\u00e1ver dele crua e com cacha\u00e7a?<\/p>\n<p>E p\u00f4r termo \u00e0 estranha xifopagia, cortando com certeiro golpe de faca a uni\u00e3o que ardilosamente conseguira para o duelo mortal. Mas, cortando como? Por derradeiro esc\u00e1rnio, cortando do lado da camisa do Z\u00e9 Pinheiro e pondo para dentro das cal\u00e7as, como trof\u00e9u, o n\u00f3 cego que fizera&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta postagem \u00e9 a sexta hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o que reproduzo do livro \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, de Leonardo Mota [1891-1948 ], cearense de Pedra&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[1383,1610,1665],"class_list":["post-3543","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","tag-leonardo-mota","tag-no-tempo-de-lampiao","tag-o-trofeu"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3543","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3543"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3543\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3543"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3543"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3543"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}