{"id":3722,"date":"2009-11-21T22:39:16","date_gmt":"2009-11-22T01:39:16","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3722"},"modified":"2009-11-21T22:39:16","modified_gmt":"2009-11-22T01:39:16","slug":"a-prisao-da-antonio-silvino-em-no-tempo-de-lampiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/11\/21\/a-prisao-da-antonio-silvino-em-no-tempo-de-lampiao\/","title":{"rendered":"A pris\u00e3o da Ant\u00f4nio Silvino, em &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-3647\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/Leonardo-Mota-livro-225x300.jpg\" alt=\"Leonardo Mota - livro - 3\u00aa Edi\u00e7\u00e3o - ABC Editora - 2002\" width=\"225\" height=\"300\" \/>Esta \u00e9 a oitava hist\u00f3ria do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota [1891-1948], o cearense de Pedra Branca que dedicou-se a estudar as coisas do sert\u00e3o nordestino, publicando seu trabalho em\u00a0v\u00e1rios livros.<\/p>\n<p>&#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221; foi escrito em 1930, os contos que eu reproduzo aqui s\u00e3o da segunda\u00a0edi\u00e7\u00e3o, de 1967, que eu pensava ter sido a \u00faltima.<\/p>\n<p>Mas a professora Elo\u00edsa Vidal, leitora deste blog &#8211; e que n\u00e3o perde o h\u00e1bito de puxar a orelha de seus alunos &#8211; me mostrou uma edi\u00e7\u00e3o de 2002, da ABC Editora, cuja imagem pode-se ver ao lado.<\/p>\n<p><strong>Os textos j\u00e1 publicados:<\/strong><\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\" target=\"_blank\">Para tirar a ra\u00e7a<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-castical-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O casti\u00e7al<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/quem-escreveu-a-patente-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/a-morte-do-jararaca\/\" target=\"_blank\">A morte do Jararaca<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-trofeu-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O trof\u00e9u<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/brincadeira-de-homem\/\" target=\"_blank\">Brincadeira de Homem<\/a><\/p>\n<p>Fique agora com:<\/p>\n<p><strong>A pris\u00e3o de Ant\u00f4nio Silvio<\/strong><\/p>\n<p>O aprisionamento de Lampi\u00e3o n\u00e3o se me afigura imposs\u00edvel. Nada importa diga ele que prefere a morte. Ant\u00f4nio Silvino tamb\u00e9m o dizia, mas, apenas se viu baleado, foi o primeiro em fazer quest\u00e3o de mansamente se entregar \u00e0 justi\u00e7a. Restabelecido ulteriormente, voltaram-lhe no pres\u00eddio os \u00edmpetos brutais, como na manh\u00e3 em que, entre descomposturas do cal\u00e3o mais vil, sacudiu um p\u00e3o na cara de um desembargador.<\/p>\n<p>Quando a captura de Lampi\u00e3o parece a tanta gente sonho irrealiz\u00e1vel, vem a prop\u00f3sito recordar como se deu a de seu terr\u00edvel predecessor.<\/p>\n<p>O que desgra\u00e7ou Ant\u00f4nio Silvino foi a persegui\u00e7\u00e3o sem tr\u00e9guas que lhe moveu uma de suas v\u00edtimas mais humildes. Bem diz o povo que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 inimigo pequeno&#8221; e que &#8220;mutuca \u00e9 que tira boi do mato&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Alvino Correia de Queiroz era obscuro comerciante no sert\u00e3o de Pernambuco, quando Ant\u00f4nio Silvino lhe saqueou o pequeno estabelecimento. Reduzido \u00e0 mis\u00e9ria, jurou vingar-se e entrou a pol\u00edcia daquele Estado. Acreditaram nos seus prop\u00f3sitos e fizeram-no sargento.<\/p>\n<p>Inteirado de que Silvino transitaria por certa faixa do munic\u00edpio de Taquaretinga, o Sargento Alvino buscou informa\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Vicente e Joaquim Pedro, moradores naquelas paragens. Ambos negaram a p\u00e9s juntos ter qualquer conhecimento a respeito. Mas, t\u00e3o jeitosamente o miliciano conduziu as investiga\u00e7\u00f5es, que a esposa de Jo\u00e3o Vicente o orientou:<\/p>\n<p>&#8211; Quando o Sr. chegar \u00e0 casa de nosso vizinho, o Joaquim Pedro, e encontrar as mulheres torrando galinhas ou fazendo comedoria de sobra, pode apertar o pessoal que o &#8220;capit\u00e3o&#8221; Ant\u00f4nio Silvino est\u00e1 escondido perto, no mato&#8230;<\/p>\n<p>No dia esperado, 27 de novembro de 1914, os policiais, sob o comando do Alferes Te\u00f3fanes Torres e do Sargento Jos\u00e9 Alvino, estavam no local referido, de nome Lagoa Laje.<\/p>\n<p>Assim que penetrou na resid\u00eancia de Joaquim Pedro, o Sargento Alvino se encaminhou diretamente para a cozinha, atr\u00e1s de cuja porta se lhe deparou pendurada uma banda de ovelha. E viu chegar desconfiado, pelo quintal, um rapazola com um tabuleiro \u00e0 cabe\u00e7a, cheio de tigelas, colheres e pratos. Interrogado, o rec\u00e9m-vindo explicou, titubeante, que havia ido deixar comida a uns &#8220;trabalhadores&#8221;, num ro\u00e7ado.<\/p>\n<p>Concomitantemente, o Alferes Te\u00f3fanes submetia Joaquim Pedro a interrogat\u00f3rio, e este negava que soubesse do paradeiro de Silvino.<\/p>\n<p>Aparece o sargento e, depois de falar na ovelha morta e de mostrar o tabuleiro com os restos de comida, pede permiss\u00e3o para for\u00e7ar o velho sertanejo a n\u00e3o continuar mentindo. Ato cont\u00ednuo, tranca-lhe, numa alcova, a mulher e os filhos e ordena que os soldados desembainhem os sabres.<\/p>\n<p>Nesse momento, mais nervosa, uma filha do amea\u00e7ado pede, da alcova:<\/p>\n<p>&#8211; Meu pai, por caridade, descubra logo!<!--more--><\/p>\n<p>Joaquim Pedro roga que n\u00e3o lhe batam e justifica-se, alegando que logo n\u00e3o disse a verdade por temer a vingan\u00e7a de Silvino, no caso de a pol\u00edcia o n\u00e3o prender ou matar. E confessa que o celerado est\u00e1 escondido n\u00e3o longe dali.<\/p>\n<p>Eram cinco horas da tarde e urgia assaltar os cangaceiros, antes que a noite sobreviesse.<\/p>\n<p>Sob as amea\u00e7as de ser liquidado, se desse o menor sinal aos bandidos, Joaquim Pedro vai mostrar o esconderijo deles. Com todas as precau\u00e7\u00f5es imagin\u00e1veis, a tropa se aproxima da malta criminosa.<\/p>\n<p>Ant\u00f4nio Silvino estava deitado numa pedra, sobre a qual se debru\u00e7ava copada oiticica. Perto, divertiam-se alguns de seus cabras, a jogar um sete-e-meio. Ao ouvir a primeira descarga, Silvino gritou, motejante:<\/p>\n<p>&#8211; Espera a\u00ed, rapaziada! Deixem, ao menos, os menino acabar esta m\u00e3o!<\/p>\n<p>Mas o fogo irrompeu violento e sem intermit\u00eancias, dos dois lados.<\/p>\n<p>Com o cair da noite, o tiroteio deixou de ser correspondido. O Alferes Te\u00f3fanes e o Sargento Alvino acreditaram que Silvino tivesse fugido. Suspeitando, todavia, que ele se quisesse vingar de Joaquim Pedro, foram entrincheirar-se na casa deste.<\/p>\n<p>Coisa bem diversa se passava. Silvino f\u00f4ra atingido por uma bala nas esp\u00e1duas e o seu companheiro Joaquim Moura tivera quebrada uma perna. Os demais cangaceiros se embrenharam, desorientados, na caatinga, favorecidos pelo negrume da noite.<\/p>\n<p>Estando a perder muito sangue, Silvino convidou Joaquim Moura a se entregarem, mas este repelira o convite e, depois de dizer que macaco do Governo n\u00e3o tinha o gosto de botar-lhe as m\u00e3os em riba, ele vivo, suicidou-se com um tiro na cabe\u00e7a.<\/p>\n<p>Impressionado ainda mais com o tr\u00e1gico fim do \u00faltimo assecla que lhe restava, Silvino despojou-se das armas e arrastou-se para a casa da mulher que ele ignorava tivesse sido quem o denunciara. O marido dela, Jo\u00e3o Vicente, a estava censurando por sua leviandade, persuadido de que Silvino, sabedor da den\u00fancia, lhes n\u00e3o perdoaria.<\/p>\n<p>De repente, batem \u00e0 porta. Quando, de fora, uma voz anuncia que quem bate \u00e9 Ant\u00f4nio Silvino, Jo\u00e3o Vicente encomenda a alma a Deus, convicto de que vai morrer. \u00c9 sua mulher quem se afoita a atender ao chamamento.<\/p>\n<p>Ao se abrir a porta, aparece, \u00e0 luz da lamparina, o vulto do grande salteador. Quase desfalecido e com as vestes rubras de sangue, Silvino est\u00e1 escorado no portal.<\/p>\n<p>&#8211; Capit\u00e3o, que horror \u00e9 este?<\/p>\n<p>&#8211; Mataram-me&#8230; arqueja aquele que, acovardado, come\u00e7ava a expiar crimes sem conta.<\/p>\n<p>Conduzido a uma rede, ele pede que chamem a pol\u00edcia. Vai algu\u00e9m a Taquaretinga, mas n\u00e3o encontra l\u00e1 os soldados. Na confus\u00e3o em que todos se viam, ningu\u00e9m a princ\u00edpio se apercebeu de que os policiais poderiam estar pernoitando na fazenda de Joaquim Pedro. \u00c0 mulher de Jo\u00e3o Vicente ocorre agora essa possibilidade. Despacham para ali o portador. Quando este bate \u00e0 porta de Joaquim Pedro, os soldados aperram as armas, crentes de que \u00e9 Silvino quem chega. Aberta a muito custo uma janela, o mensageiro d\u00e1 contas de sua incumb\u00eancia: vem avisar que Ant\u00f4nio Silvino, sozinho, desarmado e gravemente ferido, est\u00e1 em casa de Jo\u00e3o Vicente e quer entregar-se \u00e0 pris\u00e3o. O Alferes Te\u00f3fanes suspeita que se trate duma cilada e opina que se aguarde o raiar do dia. Tanto insiste, por\u00e9m, o Sargento Alvino que, afinal, o seu comandante se disp\u00f5e a ir ver Silvino. Ainda assim, o recadista vai seguro pelos c\u00f3s e advertido de que receber\u00e1 uma punhalada, ao primeiro tiro com que a tropa seja surpreendida.<\/p>\n<p>Cercada com cautelas a morada de Jo\u00e3o Vicente, houve grande alegria, quando se patenteou aos olhos de seus perseguidores a m\u00edsera situa\u00e7\u00e3o daquele que se gabava de que, embora sem saber ler, governava todo o sert\u00e3o! O Sargento Alvino parecia o mais contente. Exigiu que se n\u00e3o fizesse o menor mal a Ant\u00f4nio Silvino e saiu, pelos matos, a cortar umas folhas de quixabeira para lhe lavar as feridas.<\/p>\n<p>F\u00f4ra destronado o \u00c1tila bronco que, durante dois dec\u00eanios, apavorara a gente matuta do meio-norte e assoalhava n\u00e3o ser passarinho que morasse entre grades&#8230; Por trinta anos ia se fechar atr\u00e1s dele o port\u00e3o da Penitenci\u00e1ria de Recife!<\/p>\n<p>Foi \u00e0 tenacidade do Sargento Alvino, \u00e0 sua arg\u00facia e vontade firme de vingan\u00e7a que se deveu a pris\u00e3o de Ant\u00f4nio Silvino. For\u00e7oso \u00e9, por\u00e9m, reconhecer que colaborou inestimavelmente nisso a indiscri\u00e7\u00e3o duma mulher.<\/p>\n<p>Acontecer\u00e1 o mesmo, algum dia, a Lampi\u00e3o? At\u00e9 na ru\u00edna dos cangaceiros ter\u00e1 aplicabilidade o <em>cherchez la femme<\/em>?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a oitava hist\u00f3ria do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota [1891-1948], o cearense de Pedra Branca que dedicou-se a estudar as&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[79,1383,1610],"class_list":["post-3722","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","tag-a-prisao-de-antonio-silvino","tag-leonardo-mota","tag-no-tempo-de-lampiao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3722","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3722"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3722\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3722"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3722"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3722"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}