{"id":3840,"date":"2009-11-29T00:05:09","date_gmt":"2009-11-29T03:05:09","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3840"},"modified":"2009-11-29T00:05:09","modified_gmt":"2009-11-29T03:05:09","slug":"um-precursor-de-lampiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/11\/29\/um-precursor-de-lampiao\/","title":{"rendered":"Um precursor de Lampi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>A nona hist\u00f3ria, \u00a0das\u00a0onze inclu\u00eddas no\u00a0livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota [1891-1948], o cearense de Pedra Branca que dedicou sua vida a registrar o romanceiro popular.<\/p>\n<p>J\u00e1 publicadas:<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\" target=\"_blank\">Para tirar a ra\u00e7a<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-castical-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O casti\u00e7al<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/quem-escreveu-a-patente-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/a-morte-do-jararaca\/\" target=\"_blank\">A morte do Jararaca<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/o-trofeu-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O trof\u00e9u<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/brincadeira-de-homem\/\" target=\"_blank\">Brincadeira de Homem<\/a><br \/>\n<a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/a-prisao-da-antonio-silvino-em-no-tempo-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">A pris\u00e3o de Ant\u00f4nio Silvino<\/a><\/p>\n<p>Veja agora<\/p>\n<p><strong>Um precursor de Lampi\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Na primeira metade do s\u00e9culo passado [sec. XIX], um negro foi o terror do sert\u00e3o baiano. Era o Lucas da Feira, assim chamado por ter sido o munic\u00edpio de Feira de Santana teatro de toda a sua atua\u00e7\u00e3o delituosa.<\/p>\n<p>Durante vinte anos, Lucas foi o assombro, o pesadelo dos sertanejos. Contaram-se por centenas as suas v\u00edtimas. O negro salteador, ladr\u00e3o e assassino, raptou e violentou in\u00fameras donzelas, matando-lhes os pais e irm\u00e3os, se estes ofereciam resist\u00eancia \u00e0 sua lubricidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 uma lenda, segundo a qual Lucas come\u00e7ou a esmorecer no seu fad\u00e1rio repelente, depois que, ao passar pela sepultura duma virgem que assassinara e enterrara no mato, sentiu um perfume delicioso e viu de cima da cova levantarem o v\u00f4o um bando g\u00e1rrulo de pombas brancas. Isso lhe teria, desde ent\u00e3o, irremediavelmente quebrantado o \u00e2nimo feroz.<\/p>\n<p>As fa\u00e7anhas desse precursor de Lampi\u00e3o perduram na tradi\u00e7\u00e3o oral dos feirenses. Quando entre eles estive, n\u00e3o me foi dif\u00edcil reunir as notas que est\u00e3o propiciando o tracejamento destas linhas.<\/p>\n<p>O velho tabar\u00e9u a quem perguntei se Lucas era valente deu um mux\u00f4xo e contestou:<\/p>\n<p>&#8211; O que ele era, era um grandiss\u00edssimo desalmado. Era perverso, era levado do n\u00e3o-sei-que-diga, mas era frouxo: mijou-se todo na hora da morte&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o lhe quis obtemperar que a mic\u00e7\u00e3o e natural nas mortes por enforcamento. Preferi deix\u00e1-lo desatar a l\u00edngua, a seu modo:<\/p>\n<p>&#8211; Lucas foi o diabo em figura de crist\u00e3o, Deus o perd\u00f4e! Aquilo n\u00e3o era gente. Uma vez ele agarrou num negro bei\u00e7udo na estrada e sabe que \u00e9 que fez com ele? Prendeu com prego caibral o bei\u00e7o do infeliz numa \u00e1rvore. Quando acabou, disse ao suplicante que ia n\u00e3o sei aonde e mais tarde voltaria para o capar. Foi ele se afastar, o negro fez fincap\u00e9, raspou o bei\u00e7o e ganhou o mundo na carreira, porque s\u00f3 assim se livraria da outra amea\u00e7a, a mais perigosa. E sabe? o Lucas estava numa moita escondido e se rindo: ele queria era que o negro mesmo rasgasse o bei\u00e7o&#8230; Doutra feita, batendo palma e cantando, ele fez uma mulher gr\u00e1vida dan\u00e7ar, dando umbigadas nos estrepes dum p\u00e9 de mandacaru! Aquele Lucas foi o c\u00e3o em pintura de gente. Encontrando-se, um dia, com um miser\u00e1vel que vinha aqui pra Feira, trazendo uma carga de chicotes pra vender, ele fez o desgra\u00e7ado botar a carga abaixo e com cada chicote deu-lhe quatro, cinco lambadas de arrancar couro e cabelo. Quando cansou o bra\u00e7o, explicou: &#8211; &#8220;Isso \u00e9 pra, quando voc\u00ea tiver de vender os seus chicotes, poder garantir, de ci\u00eancia pr\u00f3pria, que eles s\u00e3o bons&#8221;&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E foi f\u00e1cil prender o Lucas da Feira?<\/p>\n<p>&#8211; Qual Qual f\u00e1cil! Foi o diabo! O Governo da Prov\u00edncia chegou a prometer um pr\u00eamio de n\u00e3o sei quantos contos de r\u00e9is a quem desse conta dele, vivo ou morto. Mas o negro, pra se esconder, tinha pauta com o capiroto. Quando ele foi preso, houve um fest\u00e3o que durou tr\u00eas dias aqui na Feira. Gente que nunca tinha dan\u00e7ado desenferrujou as canelas! na ocasi\u00e3o em que ele, com as pernas amarradas por baixo da barriga dum cavalo, entrava na cidade, os sinos das igrejas tocavam que parecia chegada de bispo, o foguet\u00f3rio nos ares, n\u00e3o ficou ningu\u00e9m dentro das casas e deu-se, at\u00e9, o milagre de um paral\u00edtico, um entrevado, sair correndo de rua afora, s\u00f3 pra ir ver o Lucas&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E quem foi que o conseguiu prender?<\/p>\n<p>&#8211; Foi o Cazumb\u00e1. Esse Cazumb\u00e1 era um oficial de justi\u00e7a criminoso que, com a promessa de perd\u00e3o do crime e com o olho no dinheiro do pr\u00eamio, perseguiu e prendeu o Lucas. Na hora da pris\u00e3o deu-lhe dois tiros no bra\u00e7o esquerdo. O bra\u00e7o arruinou e os m\u00e9dicos tiveram de o cortar. Dizia o finado meu pai que foi coisa engra\u00e7ada&#8230; Depois da opera\u00e7\u00e3o, um menino pegou o bra\u00e7o do Lucas e saiu correndo pra rua, pra mostrar ele ao povo. Um sapateiro correu em casa, trouxe uma palmat\u00f3ria e esmagou com &#8220;bolos&#8221; de sust\u00e2ncia a m\u00e3o do Lucas, o povo todo achando gra\u00e7a nisso, satisfeito&#8230;<\/p>\n<p>E a sorrir, tamb\u00e9m, e como que a despertar reminisc\u00eancias, o velho feirense concluiu:<\/p>\n<p>&#8211; Sim, eu ia me esquecendo: sabe quem foi o carrasco do Lucas, na hora de ele ser pendurado na for\u00e7a do Campos do Gado? Pro Sr. ver as voltas que o mundo d\u00e1! A justi\u00e7a de Deus tarda, mas n\u00e3o falta. Quem faz neste mundo, aqui mesmo paga. O carrasco do Lucas foi um rapaz cujo pai o Lucas tinha assassinado e cujas tr\u00eas irm\u00e3s o Lucas tinha desonrado, quando esse rapaz inda era meninote&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nona hist\u00f3ria, \u00a0das\u00a0onze inclu\u00eddas no\u00a0livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota [1891-1948], o cearense de Pedra Branca que dedicou sua vida a registrar&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[1383,2380],"class_list":["post-3840","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","tag-leonardo-mota","tag-um-precursor-de-lampiao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3840","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3840"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3840\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3840"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3840"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3840"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}