{"id":3868,"date":"2009-11-30T11:30:44","date_gmt":"2009-11-30T14:30:44","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3868"},"modified":"2009-11-30T11:30:44","modified_gmt":"2009-11-30T14:30:44","slug":"lula-benjamin-e-o-jornalismo-do-velho-oeste-atira-se-primeiro-pegunta-se-depois","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/11\/30\/lula-benjamin-e-o-jornalismo-do-velho-oeste-atira-se-primeiro-pegunta-se-depois\/","title":{"rendered":"Lula, Benjamin e o jornalismo do Velho Oeste: atira-se primeiro, pegunta-se depois"},"content":{"rendered":"<p>O ombusdsman da Folha de S. Paulo, Carlos Eduardo Lins da Silva, comentou na coluna de domingo [29\/11\/2009] o artigo de Cesar Benjamin [trecho reproduzido abaixo], que acusa o presidente  de ter tentando &#8220;subjugar&#8221; sexualmente um colega de cela quando Lula esteve preso na d\u00e9cada de 1980.<\/p>\n<p>Benjamin n\u00e3o viu a suposta cena. Segundo ele, o pr\u00f3prio Lula teria lhe contado o epis\u00f3dio, em 1994.<\/p>\n<p>Pois bem, o ombudsman Lins da Silva diz que &#8220;n\u00e3o faz parte do escopo de trabalho do ombudsman emitir ju\u00edzo de valor sobre textos opinativos&#8221;, mas diz concordar &#8220;inteiramente&#8221; com um dos leitores que lhe escreveu fazendo a seguinte observa\u00e7\u00e3o: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 outra op\u00e7\u00e3o para ao jornal que publica artigo t\u00e3o impactante quanto o de C\u00e9sar Benjamin que a de, com suas equipes, tentar reconstituir os fatos narrados pelo autor&#8221;.<\/p>\n<p>E, pelas palavras do pr\u00f3prio ombudsman, &#8220;\u00e9 indispens\u00e1vel oferecer ao outro lado espa\u00e7o e destaque similares para defender pontos de vista opostos ao do artigo de sexta feira&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Coment\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p><strong>1.<\/strong> De fato, n\u00e3o cabe a um ombudsman julgar opini\u00e3o manifestada em artigos. Mas, para acusa\u00e7\u00e3o de tamanha gravidade, que atinge n\u00e3o apenas o presidente, mas ter\u00e1 repercuss\u00e3o em toda a sua fam\u00edlia, era preciso que o editor exigisse mais do que a simples declara\u00e7\u00e3o de um ex-militante do PT para publicar o texto. Benjamin n\u00e3o manifesta uma opini\u00e3o, relata um suposto fato, o que \u00e9 <strong>verific\u00e1vel<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>1.1.<\/strong> Portanto, no que se refere \u00e0 quest\u00e3o factual, o ombudsman pode e dever opinar. Observem que n\u00e3o se trata de uma &#8220;opini\u00e3o&#8221; de C\u00e9sar Benjamin.\u00a0 Ele n\u00e3o disse que Lula \u00e9 feio ou bonito; que seu governo \u00e9 bom ou ruim: isso \u00e9 opini\u00e3o. Ele ralata um fato que teria acontecido. Afirmou que o agora presidente tentou estuprar um colega de cela. <strong>Isso \u00e9 verific\u00e1vel<\/strong> e parece muito pouco jornal\u00edstico que isso tenha sido publicado sem a m\u00ednima checagem [pra usar o jarg\u00e3o das reda\u00e7\u00f5es].<\/p>\n<p><strong>2.<\/strong> O ombudsman apela agora para que se &#8220;reconstitua o fato narrado&#8221;. Isso era <strong>condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via<\/strong> para a publica\u00e7\u00e3o do artigo. Confirmado, publica-se. N\u00e3o se conseguiu provar ou h\u00e1 d\u00favida razo\u00e1vel, ponha-se no lixo. Uma afirmativa dessas, pode levar consequ\u00eancias grav\u00edssimas do ponto de vista pessoal a Lula e sua fam\u00edlia. [N\u00e3o falo aqui nem do preju\u00edzo pol\u00edtico, que \u00e9 super\u00e1vel, mas a marca de &#8220;estuprador&#8221;, mesmo falsa, pode ser indel\u00e9vel.] Isso n\u00e3o se faz, \u00e9 o antijornalismo: atira-se primeiro e pergunta-se depois.<\/p>\n<p><strong>3.<\/strong> Depois o ombudsman afirma que \u00e9 &#8220;indispens\u00e1vel&#8221; oferecer ao &#8220;outro lado&#8221; espa\u00e7o e destaque similares para defender &#8220;pontos de vista opostos aos do artigo&#8221; de C\u00e9sar Benjamin. Aqui o neg\u00f3cio j\u00e1 se torna ris\u00edvel, pois n\u00e3o se trata de &#8220;ponto de vista&#8221;, mas repito, de um fato que, como diz o ombudsman, pode ser reconstitu\u00eddo, <strong>verificado<\/strong>. Agora o neg\u00f3cio est\u00e1 neste p\u00e9: um diz: &#8220;Voc\u00ea \u00e9 estuprador&#8221;; o outro: &#8220;N\u00e3o sou&#8221;. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 batedor de carteira&#8221;; o outro: &#8220;N\u00e3o, n\u00e3o sou&#8221;. &#8220;Voc\u00ea bate na sua m\u00e3e&#8221;; o outro: &#8220;\u00c9 mentira&#8221;. &#8220;Voc\u00ea \u00e9 ped\u00f3filo&#8221;, o outro: &#8220;Nunca fui&#8221;. Estamos falando de jornalismo ou de briga de rua?<\/p>\n<p><strong>Ora, fa\u00e7am-me o favor.<\/strong><\/p>\n[Eu at\u00e9 posso estar enganado, mas o artigo, longu\u00edssimo para os padr\u00f5es da Folha de S. Paulo &#8211; 1.755 palavras, 10.561 caracteres &#8211; n\u00e3o foi publicado assim, digamos, casualmente. O trecho que fala de Lula est\u00e1 ensanduichado entre uma longa introdu\u00e7\u00e3o e outra longa conclus\u00e3o, com C\u00e9sar Benjamin narrando lances de sua milit\u00e2ncia na esquerda e do per\u00edodo que passou na pris\u00e3o,\u00a0 na d\u00e9cada de 1970. Creio que a publica\u00e7\u00e3o deve ter sido precedida de negocia\u00e7\u00e3o com o autor &#8211; e o editor deve ter tido tempo para refletir sobre assunto.]\n<p><span style=\"color: #888888\"><strong>Trecho do artigo de C\u00e9sar Benjamin<!--more--><\/strong><\/span><\/p>\n<p><strong>Os filhos do Brasil<\/strong><br \/>\nC\u00e9sar Benjamin<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo, 1994. Eu estava na casa que servia para a produ\u00e7\u00e3o dos programas de televis\u00e3o da campanha de Lula. Com o Plano Real, Fernando Henrique passara \u00e0 frente, dificultando e confundindo a nossa campanha.<\/p>\n<p>Nesse contexto, deixei trabalho e fam\u00edlia no Rio e me instalei na produtora de TV, dormindo em um sof\u00e1, para tentar ajudar. L\u00e1 pelas tantas, recebi um presente de grego: um grupo de apoiadores trouxe dos Estados Unidos um renomado marqueteiro, cujo nome esqueci. Lula gravava os programas, mais ou menos, duas vezes por semana, de modo que convivi com o americano durante alguns dias sem que ele houvesse ainda visto o candidato.<\/p>\n<p>Dizia-me da import\u00e2ncia do primeiro encontro, em que tentaria formatar a psicologia de Lula, saber o que lhe passava na alma, quem era ele, conhecer suas opini\u00f5es sobre o Brasil e o momento da campanha, para ent\u00e3o propor uma estrat\u00e9gia. Para mim, nada disso fazia sentido, mas eu n\u00e3o queria trat\u00e1-lo mal. O primeiro encontro foi no refeit\u00f3rio, durante um almo\u00e7o.<\/p>\n<p>Na mesa, est\u00e1vamos eu, o americano ao meu lado, Lula e o publicit\u00e1rio Paulo de Tarso em frente e, nas cabeceiras, Espinoza (seguran\u00e7a de Lula) e outro publicit\u00e1rio brasileiro que trabalhava conosco, cujo nome tamb\u00e9m esqueci. Lula puxou conversa: &#8220;Voc\u00ea esteve preso, n\u00e3o \u00e9 Cesinha?&#8221; &#8220;Estive.&#8221; &#8220;Quanto tempo?&#8221; &#8220;Alguns anos&#8230;&#8221;, desconversei (raramente falo nesse assunto). Lula continuou: &#8220;Eu n\u00e3o aguentaria. N\u00e3o vivo sem boceta&#8221;.<\/p>\n<p>Para comprovar essa afirma\u00e7\u00e3o, passou a narrar com flu\u00eancia como havia tentado subjugar outro preso nos 30 dias em que ficara detido. Chamava-o de &#8220;menino do MEP&#8221;, em refer\u00eancia a uma organiza\u00e7\u00e3o de esquerda que j\u00e1 deixou de existir. Ficara surpreso com a resist\u00eancia do &#8220;menino&#8221;, que frustrara a investida com cotoveladas e socos.<\/p>\n<p>Foi um dos momentos mais kafkianos que vivi. Enquanto ouvia a narrativa do nosso candidato, eu relembrava as vezes em que poderia ter sido, digamos assim, o &#8220;menino do MEP&#8221; nas m\u00e3os de criminosos comuns considerados perigosos, condenados a penas longas, que, n\u00e3o obstante essas condi\u00e7\u00f5es, sempre me respeitaram.<\/p>\n<p>O marqueteiro americano me cutucava, impaciente, para que eu traduzisse o que Lula falava, dada a import\u00e2ncia do primeiro encontro. Eu n\u00e3o sabia o que fazer. N\u00e3o podia lhe dizer o que estava ouvindo. Depois do almo\u00e7o, desconversei: Lula s\u00f3 havia dito generalidades sem import\u00e2ncia. O americano achou que eu estava boicotando o seu trabalho. Ficou bravo e, felizmente, desapareceu.<\/p>\n<p>&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>C\u00c9SAR BENJAMIN, 55, militou no movimento estudantil secundarista em 1968 e passou para a clandestinidade depois da decreta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00ba 5, em 13 de dezembro desse ano, juntando-se \u00e0 resist\u00eancia armada ao regime militar. Foi preso em meados de 1971, com 17 anos, e expulso do pa\u00eds no final de 1976. Retornou em 1978. Ajudou a fundar o PT, do qual se desfiliou em 1995. Em 2006 foi candidato a vice-presidente na chapa liderada pela senadora Helo\u00edsa Helena, do PSOL, do qual tamb\u00e9m se desfiliou. Trabalhou na Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, na Sociedade Brasileira para o Progresso da Ci\u00eancia, na Prefeitura do Rio de Janeiro e na Editora Nova Fronteira. \u00c9 editor da Editora Contraponto e colunista da Folha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ombusdsman da Folha de S. 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