{"id":3964,"date":"2009-12-05T22:21:33","date_gmt":"2009-12-06T01:21:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=3964"},"modified":"2009-12-05T22:21:33","modified_gmt":"2009-12-06T01:21:33","slug":"lampiao-e-seus-perseguidores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/12\/05\/lampiao-e-seus-perseguidores\/","title":{"rendered":"Lampi\u00e3o e seus perseguidores"},"content":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a 10\u00aa hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota, no pr\u00f3ximo domingo, conclui-se a s\u00e9rie.<\/p>\n<p>Saiba mais sobre Leonardo Mota e as his\u00f3rias que venho publicando:<\/p>\n<p><a href=\"..\/no-tempo-de-lampiao-o-principe\/\" target=\"_blank\">O pr\u00edncipe<\/a>; <a href=\"..\/leonardo-mota-para-tirar-a-raca\/\" target=\"_blank\">Para tirar a ra\u00e7a<\/a>; <a href=\"..\/o-castical-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O casti\u00e7al<\/a>; <a href=\"..\/quem-escreveu-a-patente-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">Quem escreveu a patente de Lampi\u00e3o<\/a>;<br \/>\n<a href=\"..\/a-morte-do-jararaca\/\" target=\"_blank\">A morte do Jararaca<\/a>; <a href=\"..\/o-trofeu-de-leonardo-mota\/\" target=\"_blank\">O trof\u00e9u<\/a>; <a href=\"..\/brincadeira-de-homem\/\" target=\"_blank\">Brincadeira de Homem<\/a>;<br \/>\n<a href=\"..\/a-prisao-da-antonio-silvino-em-no-tempo-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">A pris\u00e3o de Ant\u00f4nio Silvino<\/a>; <a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/um-precursor-de-lampiao\/\" target=\"_blank\">Um precursor de Lampi\u00e3o<\/a>.<\/p>\n<p>O texto que se segue mostra que mestre Leota, mesmo considerando Lampi\u00e3o um bandoleiros &#8211; n\u00e3o um &#8220;bandido social&#8221; &#8211; n\u00e3o compactuava com as arbitrariedade da pol\u00edcia que lhe dava persegui\u00e7\u00e3o e nem lhe aliviava c\u00edticas aos agentes do governo.<\/p>\n<p>Fique com:<\/p>\n<p><strong>Lampi\u00e3o e seus perseguidores<\/strong><\/p>\n<p>Enrolei o meu cigarro de palha e pedi ao fazendeiro em cuja casa me hospedara me dissesse o que pensava das pol\u00edcias que d\u00e3o  combate aos cangaceiros. Ele entupiu as ventas com uma pitada de &#8220;torrado&#8221; rescendente a cumaru, limpou o bigod\u00e3o com a manga da camisa, aprumou-se na tripe\u00e7a e n\u00e3o tardou em me dizer:<\/p>\n<p>&#8211; Quero mais ante me ver neste \u00f4co de mundo, \u00e0s volta com bandido que com soldado de poli\u00e7a. Me creia que os mata-cachorro, quando sai da capital, vem com o pensamento fixe em que todo matuto protege cangaceiro. Querem, por fina for\u00e7a, que a gente descubra o roteiro dos criminosos. Se o fregu\u00eas diz que ignora, apanha pra descobrir; se descobre, tamb\u00e9m apanha, porque \u00e9 sinal que, conhecendo, protege quem eles ca\u00e7am. N\u00e3o tem pronde correr: ningu\u00e9m escapa&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E os bandoleiros?<\/p>\n<p>&#8211; Ab\u00e9m, esses est\u00e3o no seu papel. Assim mesmo, tem vez que a quest\u00e3o \u00e9 se saber tirar eles com jeito. A n\u00e3o ser um ou outro cabra desalmado, eles s\u00f3 fazem mal a n\u00f3s quando andam aperreados pela poli\u00e7a, quando desconfiam que se deu noti\u00e7a deles \u00e0 tropa do Governo, ou quando, precisando de dinheiro, sabem que o sabagante tem em casa, mas n\u00e3o d\u00e1 porque n\u00e3o quer.<\/p>\n<p>&#8211; Admiro-me de o Sr. falar assim: tenho sabido e apurado tanta crueldade de Lampi\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Sim, me entenda: eu falo do tempo de Ant\u00f4nio Silvino, Lu\u00eds Padre, Sebasti\u00e3o Pereira e outros, pois esse tal de Virgolino, com a gra\u00e7a de Maria Sant\u00edssima, nunca me apareceu aqui, n\u00e3o. Vejo se dizer que esse Lampi\u00e3o \u00e9 um satan\u00e1s de perverso&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Mas, se os policiais cometem absurdos, por que os senhores n\u00e3o os denunciam \u00e0s autoridades?<\/p>\n<p>&#8211; S\u00f3 se se fosse maluco! Ter quest\u00e3o com soldado \u00e9 ter quest\u00e3o co Gunverno e ter quest\u00e3o co Gunverno \u00e9 n\u00e3o ter amor \u00e0 vida. Um Tenente no sert\u00e3o manda mais que um Juiz de Direito. Se dependesse de mim, o Gunverno n\u00e3o mandava for\u00e7a pro interior. A gente ficava s\u00f3 com os cangacero, era s\u00f3 uma desgra\u00e7a, em vez de duas. Quer que lhe seja franco? Muito desprep\u00f3sto, muito abissurdo que se cuida, por a\u00ed afora, que foi feito por cangac\u00earo, uma \u00f3va: foi, mas foi pela poli\u00e7a!<\/p>\n<p>&#8211; Por que, neste caso, os senhores n\u00e3o tratam de restabelecer a verdade?<!--more--><\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 doido? A gente se cala, porque n\u00e3o v\u00ea que \u00e9 muito mais fative a poli\u00e7a se vingar que os bandidos? Cangac\u00earo n\u00e3o l\u00ea jornal e, quando enfia o p\u00e9 na apragata e bota a espingarda na cacunda n\u00e3o \u00e9 pra dar satisfa\u00e7\u00e3o de seus ato a ningu\u00e9m. Com a gente do Gunverno j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 assim, o neg\u00f3cio fia mais fino. Me lembro como se fosse hoje: Lu\u00eds Padre e Z\u00e9 Danta se danavam toda vez que sabiam que estavam botando pra eles safadeza de soldado. Se danavam e tratavam de n\u00e3o gozar fama sem proveito. Meu senhor, escreva o que lhe digo: s\u00f3 depois que essa hist\u00f3ria de perseguir criminoso se tornou uma pechincha, um nego\u00e7\u00e3o da China, foi que os cangac\u00earo deram pra pegar no al\u00eaio. Eles s\u00f3 r\u00f3bam porque se n\u00e3o robarem, a poli\u00e7a r\u00f3ba e diz que foi eles.<\/p>\n<p>&#8211; De fato. O povo aponta a dedo oficiais de pol\u00edcia que est\u00e3o ricos e cuja fortuna n\u00e3o pode ter sido feita pelo magro soldo.<\/p>\n<p>&#8211; E apois? Viver destacado no sert\u00e3o pra eles \u00e9 um p\u00e3o com dois peda\u00e7os. Andam eguando por aqui e voltam pra beira do mar com os bolsos recheados. Mas isso \u00e9 uma coisa que at\u00e9 est\u00e1 entrando pelos olhos da humanidade: ningu\u00e9m \u00e9 besta pra negar comida, roupa, cigarro ou cacha\u00e7a a cangac\u00earo. Pra que diabo, ent\u00e3o, \u00e9 que bandido quer dinheiro? S\u00f3 pode ser para comprar a poli\u00e7a que lhe arranja muni\u00e7\u00e3o, ou o chefe que lhe d\u00e1 coito. J\u00e1 se deu o caso de um capit\u00e3o e um tenente desenterrarem um cabra que tinha sido sacudido na cova com dezesseis contos de r\u00e9is amarrados na barriga, por baixo da celoura. Pouco se embara\u00e7aram com a fedentina, queriam era o cobre, pra desmanchar em cerveja&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Em que consistem os abusos cometidos pela pol\u00edcia, aos quais o Sr. se referiu, ainda h\u00e1 pouco?<\/p>\n<p>&#8211; Em toda versidade de endimunhamento. Come\u00e7a porque, ou porque o Guverno n\u00e3o despacha eles com dinheiro pra se mexerem dum logar pra outro, ou porque preferem papar o dinheiro que trouxeram, s\u00e3o uns ciganos, meu Sr.!, s\u00e3o uns ciganos pra se apossarem de cavalo e burro al\u00eaio. E n\u00e3o fica s\u00f3 nisso: a\u00e7oitam, prendem, judiam, desonram, matam, tocam fogo, r\u00f3bam, fazem tudo quanto \u00e9 esprita\u00e7\u00e3o do dem\u00f4nio. Imitam os bandidos desde o procedimento at\u00e9 os traje, e o modo presepeiro de se armarem. Viu um soldado em diligen\u00e7a, d\u00ea por visto um cangac\u00earo: chapeuz\u00e3o quebrado na testa, len\u00e7o encarnado no pesco\u00e7o, n\u00e3o sei quantas cartucheira, punhalz\u00e3o \u00e0 vista de quem n\u00e3o for cego dos olho. Inda t\u00eam um respeitozinho andando de farda e de perneira, quando moram em beira de estrada de ferro. Sairam de l\u00e1, j\u00e1 sabe pra que \u00e9&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. acha que as pol\u00edcias t\u00eam mesmo vontade de extinguir o banditismo?<\/p>\n<p>&#8211; Conversa! Isso \u00e9 hist\u00f3ria pra menino dormir sem ceia. Ent\u00e3o, eles h\u00e3o de querer acabar com o meio de vida deles? \u00c9 exato que eu conhe\u00e7o oficiais que me parece que s\u00f3 n\u00e3o brigam porque n\u00e3o acham com quem. Mas a maioria querem \u00e9 que fuzu\u00ea continue, pr\u00eales poderem levar a vidoca de que gostam. No tempo de Ant\u00f4nio Silvio, eu achava at\u00e9 gra\u00e7a. Estava-se aqui em casa na santa paz de Deus quando, de repente, a meia-l\u00e9gua de dist\u00e2ncia, se escutava o estralo da corneta. Ora, o que era isso sen\u00e3o um aviso pros bandidos se aquetarem nas moitas e deixarem os paric\u00earos deles passar em paz? S\u00e3o assim covardes, n\u00e3o querem topar com quem perseguem, mas fazem o justo pagar pelo pecador. O que mais raiva me faz \u00e9 saber que s\u00f3 os pobres sem defesa \u00e9 que padece. Duvido que eles v\u00e3o tirar paluxio em Juazeiro ou em Princesa, fazendo com o Major Z\u00e9 Pereira ou com o Padre Ci\u00e7o aquilo que fazem com n\u00f3s!<\/p>\n<p>Fez uma pausa o sertanejo, cujo nome e resid\u00eancia n\u00e3o cometo a imprud\u00eancia de declinar, poupando-o destarte a vinditas seguras. Voltou a &#8220;tabaquear o caso&#8221; e estrondou os ares com forte espirro. Recompus a conversa\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; O Sr. acredita que Lampi\u00e3o, algum dia, seja preso?<\/p>\n<p>&#8211; Homem, do gosto que v\u00e3o as coisas, eu tenho pra mim que vai tudo errado. Fique ciente que duzentos homens n\u00e3o o pegam, nem que&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Duzentos? Ele j\u00e1 rompeu um cerco de quinhentos&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Apois, com mais v\u00e9ra, \u00e9 o que eu digo: duzentos, quinhentos, mil soldado n\u00e3o d\u00e3o sumi\u00e7o a ele, mas um home, um s\u00f3, d\u00e1. A quest\u00e3o \u00e9 o Gunverno prometer um bom pr\u00eamio em dinh\u00earo. Dum dia pra outro, quando ele menos esperar, ele leva um tiro sem saber donde saiu&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; Isso n\u00e3o resolveria o problema. Deve-se extinguir o banditismo e n\u00e3o exterminar Lampi\u00e3o. A morte dele n\u00e3o acabaria com o cangaceirismo. Outros Lampi\u00f5es haveriam de surgir, assim como outros Cabeleiras, outros Silvinos apareceram.<\/p>\n<p>&#8211; Eu bem sei que, Lampi\u00e3o morrendo, s\u00f3 por isso o canga\u00e7o n\u00e3o se acaba. Mas, diminui! A liberdade em que ele vive \u00e9 que n\u00e3o est\u00e1 direito, \u00e9 uma coisa fora do termo e regra. Muito rapazinho ignorante, fogoso e ruim de nascen\u00e7a se mira no exemplo de Virgolino impune e se desencabe\u00e7a, afivelando a cartulheira e se perdendo no canga\u00e7o. Os Guverno, nestes \u00faltimos dez anos, n\u00e3o t\u00eam gasto centenas de contos de r\u00e9is s\u00f3 por causa desse excomungado? Apois prometam uma boa bolada a quem der conta dele, vivo ou morto, e eu mostro se ele est\u00e1 ou n\u00e3o de obras cortadas. Se estivesse nas minhas m\u00e3os, ele era preso e n\u00e3o morto. H\u00e1 quem diga que morrer \u00e9 o que ele quer, tanto assim que n\u00e3o se separa dum frasco de veneno. \u00c9 pena, porque dever\u00e1 tomar era gal\u00e9s perp\u00e9tua, n\u00e3o s\u00f3 pra purgar os crime que tem praticado, mas tamb\u00e9m pra, quando se visse debaixo de chave, perder a cerim\u00f4nia e desmascarar muito oficial e chef\u00e3o a quem deu dinh\u00earo. Mas eu penso que ele \u00e9 passado no fuzil, se for poli\u00e7a que o agarre. \u00c9 preciso ele levar pra sepultura um magote de segredo que s\u00f3 ele e Deus \u00e9 quem sabe&#8230;<\/p>\n<p>&#8211; E por que a pol\u00edcia n\u00e3o matou Ant\u00f4nio Silvino?<\/p>\n<p>&#8211; Bom, o caso a\u00ed \u00e9 diferente. Silvino n\u00e3o morreu, por via de duas coisa: primeiro, porque o ferimento n\u00e3o foi mortal; depois porque andava na tropa um inimigo dele, o Sargento Z\u00e9 Alvino de Queiroz, que queria era que ele tirasse senten\u00e7a e acabasse o resto dos dias na cadeia. Assim mesmo, Silvino quase leva o diabo. Cad\u00ea que deram voz de pris\u00e3o a ele? Foram chegando e metendo a bala com vontade&#8230;<\/p>\n<p>Um menino aparece e adverte:<\/p>\n<p>&#8211; Meu padrim, minha madrinha manda dizer que entre pra dentro mais o home, que a janta est\u00e1 na mesa.<\/p>\n<p>Ergueu-se o fazendeiro e convidou-me:<\/p>\n<p>&#8211; Boas falas! Vamos aos pir\u00f5es!<\/p>\n<p>A caminho do &#8220;escaldado de cap\u00e3o&#8221;, ainda me disse:<\/p>\n<p>&#8211; \u00c9, meu senhor, o que o dinh\u00earo n\u00e3o fizer neste mundo nada mais faz! O Sr. se conven\u00e7a que s\u00f3 o que d\u00e1 certo \u00e9 o neg\u00f3\u00e7o do Gunverno garantir um pr\u00eamio, dando carta branca pra se prender ou matar Lampi\u00e3o. Se pegarem ele vivo, tanto melhor. Se o jeito for liquidar com ele, deixa liquidar! Ent\u00e3o, uma on\u00e7a, me estando dando cabo das cria\u00e7\u00f5es, eu vou deixar de matar ela, porque, se matar, n\u00e3o acabo com a on\u00e7ada toda?<\/p>\n<p>E, afinal, num arranco de despedida, como se antevisse a perda da fala, quando entrasse no mastigo:<\/p>\n<p>&#8211; O canga\u00e7o tem de durar enquanto os Gunverno quiserem amizade com chefe matuto que faz o j\u00fari absolver criminoso&#8230;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Esta \u00e9 a 10\u00aa hist\u00f3ria sobre o canga\u00e7o do livro &#8220;No tempo de Lampi\u00e3o&#8221;, de Leonardo Mota, no pr\u00f3ximo domingo, conclui-se a s\u00e9rie. 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