{"id":4388,"date":"2010-01-01T22:00:15","date_gmt":"2010-01-02T01:00:15","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=4388"},"modified":"2010-01-01T22:00:15","modified_gmt":"2010-01-02T01:00:15","slug":"o-padeiro-e-o-jornalista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2010\/01\/01\/o-padeiro-e-o-jornalista\/","title":{"rendered":"O padeiro e o jornalista"},"content":{"rendered":"<p>Neste primeiro dia do Novo Ano, deixo aos meus colegas jornalistas uma homenagem: <strong>O padeiro<\/strong>, cr\u00f4nica de <strong>Rubem Braga<\/strong>. O texto foi escrito quando se punha chaleira no fogo para fazer caf\u00e9, o p\u00e3o era deixado \u00e0 soleira da porta e casa era chamada de &#8220;lar&#8221;.<\/p>\n<p>O cronista nos d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o de humildade e, ao contr\u00e1rio de Gilmar Mendes comparando jornalistas e cozinheiros\u00a0 grosseiramente, de modo a diminuir as duas profiss\u00f5es, Braga eleva a ambas no seu paralelo.<\/p>\n<p>Vamos deixar Rubem Braga falar:<\/p>\n<p><strong>O padeiro<\/strong><br \/>\nRubem Braga<\/p>\n<p>Levanto cedo, fa\u00e7o minhas ablu\u00e7\u00f5es, ponho a chaleira no fogo para fazer caf\u00e9 e abro a porta do apartamento \u2013 mas n\u00e3o encontro o p\u00e3o costumeiro. No mesmo instante me lembro de ter lido alguma coisa nos jornais da v\u00e9spera sobre a \u201cgreve do p\u00e3o dormido\u201d. De resto n\u00e3o \u00e9 bem uma greve, \u00e9 um <em>lock-out<\/em>, greve dos patr\u00f5es, que suspenderam o trabalho noturno; acham que obrigando o povo a tomar seu caf\u00e9 da manh\u00e3 com p\u00e3o dormido conseguir\u00e3o n\u00e3o sei bem o que do governo.<\/p>\n<p>Est\u00e1 bem. Tomo o meu caf\u00e9 com p\u00e3o dormido, que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o ruim assim. E enquanto tomo caf\u00e9 vou me lembrando de um homem modesto que conheci antigamente. Quanto vinha deixar o p\u00e3o \u00e0 porta do apartamento ele apertava a campainha, mas para n\u00e3o incomodar os moradores, avisava gritando:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, \u00e9 o padeiro!<\/p>\n<p>Interroguei-o uma vez: como tivera a id\u00e9ia de gritar aquilo?<\/p>\n<p>\u201cEnt\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m?\u201d<\/p>\n<p>Ele abriu um sorriso largo. Explicou que aprendera aquilo de ouvido. Muitas vezes acontecera bater a campainha de uma cada e ser atendido por uma empregada ou outra pessoa qualquer, e ouvir uma voz que vinha l\u00e1 de dentro perguntando quem era; e ouvir a pessoa que o atendera dizer para dentro: \u201cn\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, n\u00e3o senhora, \u00e9 o padeiro\u201d. Assim ficara sabendo que n\u00e3o era ningu\u00e9m&#8230;<\/p>\n<p>Ele me contou isso sem m\u00e1goa nenhuma, e se despediu ainda sorrindo. Eu n\u00e3o quis det\u00ea-lo para explicara que estava falando com um colega, ainda que menos importante. Naquele tempo eu tamb\u00e9m, como os padeiros, fazia o trabalho noturno. Era pela madrugada que deixava a reda\u00e7\u00e3o de jornal, quase sempre depois de uma passagem pela oficina \u2013 e muitas vezes sa\u00eda j\u00e1 levando na m\u00e3o um dos primeiros exemplares rodados, o jornal ainda quentinho da m\u00e1quina, como o p\u00e3o saindo do forno.<\/p>\n<p>Ah, eu era rapaz, eu era rapaz naquele tempo! E \u00e0s vezes me julgava importante porque o jornal que levava para casa, al\u00e9m de reportagens ou notas que eu escrevera sem assinar, ia uma cr\u00f4nica ou artigo como o meu nome. O jornal e o p\u00e3o estariam bem cedinho na porta de cada lar; e dentro do meu cora\u00e7\u00e3o eu recebi a li\u00e7\u00e3o de humildade daquele homem entre todos \u00fatil e entre todos alegre; \u201cn\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m, \u00e9 o padeiro!\u201d<\/p>\n<p>Eu assobiava pelas escadas.<\/p>\n[Maio, 1956] do livro &#8220;200 Cr\u00f4nicas escolhidas &#8211; As melhores de Rubem Braga&#8221;, Record, 1984.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste primeiro dia do Novo Ano, deixo aos meus colegas jornalistas uma homenagem: O padeiro, cr\u00f4nica de Rubem Braga. 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