{"id":467,"date":"2009-05-25T08:15:33","date_gmt":"2009-05-25T13:15:33","guid":{"rendered":"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=467"},"modified":"2009-05-25T08:15:33","modified_gmt":"2009-05-25T13:15:33","slug":"lippmann-e-a-verdade-factual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/05\/25\/lippmann-e-a-verdade-factual\/","title":{"rendered":"Lippmann e a verdade factual"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-470\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/2009\/05\/vozes_op_publica1.jpg\" alt=\"vozes_op_publica1\" width=\"200\" height=\"302\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/05\/vozes_op_publica1.jpg 200w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2009\/05\/vozes_op_publica1-120x181.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/>A primeira coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o no livro <em>Opini\u00e3o P\u00fablica<\/em>, do jornalista americano\u00a0Walter Lippmann, foi a distor\u00e7\u00e3o que fazem de uma de suas assertivas &#8211; &#8220;A fun\u00e7\u00e3o das not\u00edcias \u00e9 sinalizar eventos&#8221; -, repetida para justificar erros e equ\u00edvocos, como se o jornalismo n\u00e3o tivesse compromisso com a verdade.<\/p>\n<p>Muitos blogs que preferem atirar primeiro e perguntar depois, v\u00eam criando uma estranha categoria: a not\u00edcia como &#8220;processo&#8221;. Desse modo, publica-se, por exemplo, um boato e, no &#8220;processo&#8221;, vai se chegando \u00e0 &#8220;verdade&#8221;.<\/p>\n<p>Ainda que o fato final desminta a proposi\u00e7\u00e3o inicial, o &#8220;processo&#8221; \u00e9 considerado bom, pois &#8220;sinalizou-se um evento&#8221;. A rigor, esse pensamento tortuoso quer dizer o seguinte: o importante \u00e9 publicar primeiro, a qualquer custo.<\/p>\n<p>Ocorre que Lippmann, em seu livro publicado em 1922 [traduzido no Brasil somente em 2008], mostra-se muito mais sofisticado do que alguns &#8220;jornalistas&#8221; contempor\u00e2neos.<\/p>\n<p>Para come\u00e7ar, se a frase for lida por completo verifica-se que o conceito que ela quer transmitir n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simplista: &#8220;A fun\u00e7\u00e3o das not\u00edcias \u00e9 sinalizar eventos, a fun\u00e7\u00e3o da verdade \u00e9 trazer \u00e0 luz fatos escondidos, p\u00f4-los em rela\u00e7\u00e3o um com outro e fazer uma imagem da realidade com base na qual os homens possam atuar. Somente naqueles pontos, onde as condi\u00e7\u00f5es sociais tomam uma forma reconhec\u00edvel e mensur\u00e1vel, o corpo da verdade e o noticioso coincidem&#8221;. Em outro trecho: &#8220;H\u00e1 um corpo pequeno de reconhecimento exato, que [n\u00e3o] requer nenhuma habilita\u00e7\u00e3o excepcional ou treinamento. O resto est\u00e1 \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do jornalista&#8221;.<\/p>\n<p>Ele d\u00e1 um exemplo: John Smith vai \u00e0 fal\u00eancia, conforme est\u00e1 registrado na junta espec\u00edfica. Relatado esse fato, que coincide com a realidade, ou seja, com a verdade, &#8220;todos os padr\u00f5es estabelecidos desaparecem&#8221;. Mas, observe que, em nenhum momento Lippmann autoriza a desconsiderar a verdade factual.<\/p>\n<p>Pelo contr\u00e1rio, ele condena com veem\u00eancia essa pr\u00e1tica. Comentando a frequ\u00eancia com que os jornais americanos da \u00e9poca anunciavam a morte de L\u00eanin, l\u00edder da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917, ele escreve: &#8220;N\u00e3o h\u00e1 defesa, nem atenua\u00e7\u00e3o, nem desculpas quaisquer, para declarar seis vezes que L\u00eanin morreu, quando somente a informa\u00e7\u00e3o que o jornal possui \u00e9 um relato de que ele morreu, de uma fonte repetida e comprovadamente inconfi\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n<p>O que Lippmannn diz \u00e9 que o fato real e comprov\u00e1vel precisa ser relatado com fidelidade, &#8220;o resto est\u00e1 \u00e0 discri\u00e7\u00e3o do jornalista&#8221;. Retomando John Smith. Ele faliu, fato &#8220;reconhec\u00edvel e mensur\u00e1vel&#8221; [verdade factual]. &#8220;Por que ele fracassou, suas fragilidades humanas, a an\u00e1lise das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas nas quais tinha naufragado, tudo isso pode ser contado de uma centena de diferentes formas&#8221; [a verdade de cada um].<\/p>\n<p>Portanto, o que est\u00e1 sob ju\u00edzo do jornalista s\u00e3o as conclus\u00f5es que ele vai chegar a partir do fato &#8211; e o modo como ele vai relat\u00e1-lo aos leitores. Isso est\u00e1 condicionado pelos conceitos que ele formou ao longo de sua vida: na fam\u00edlia, no meio em que viveu, pela cultura, que se traduzir\u00e3o na sua verdade pessoal. Lippmann n\u00e3o v\u00ea m\u00e9todo capaz de suspender esses pr\u00e9-conceitos. &#8220;A forma como vemos as coisas \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 l\u00e1 e do que esperamos encontrar&#8221;.<\/p>\n<p>Pode-se concordar ou discordar, mas \u00e9 muito diferente de citar de forma interrompida a sua frase como se fora uma autoriza\u00e7\u00e3o para esbofetear a verdade factual.<\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o interessante abordada por Lippmann &#8211; e que volta com toda a for\u00e7a atualmente &#8211; \u00e9 a rejei\u00e7\u00e3o das pessoas em pagar pela not\u00edcia, o que ele v\u00ea de modo cr\u00edtico: &#8220;A informa\u00e7\u00e3o precisa vir naturalmente, ou seja, gr\u00e1tis [&#8230;] O cidad\u00e3o pagar\u00e1 por seu telefone, suas viagens por trem. Por seu carro. Sua divers\u00e3o. Mas ele n\u00e3o paga facilmente por suas not\u00edcias. [&#8230;] Seria considerado como uma ofensa ter que pagar abertamente o pre\u00e7o de um bom sorvete por todas as not\u00edcias do mundo&#8221;.<\/p>\n<p>Esse trecho poderia ter sido escrito hoje, que se aplicaria perfeitamente ao dilema em que est\u00e3o envolvidos os grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o sobre cobrar ou n\u00e3o pelo conte\u00fado publicado na internet. Lippmann, \u00e0quela \u00e9poca, j\u00e1 via o perigo de faltar fontes de financiamento para a produ\u00e7\u00e3o de not\u00edcias.<\/p>\n<p>Deixo de\u00a0abordar alguns aspectos da obra de Lippman, como a sua vis\u00e3o de democracia, a sua descren\u00e7a na capacidade de discernimento do homem comum, e sua proposta de um governo de &#8220;especialistas&#8221;. Temas que j\u00e1 foram por demais comentados.<\/p>\n<p>No mais,\u00a0pode-se\u00a0\u00a0dizer que &#8211; ao contr\u00e1rio do que faz\u00a0supor uma cr\u00edtica ligeira &#8211; o livro de Lippmannn n\u00e3o\u00a0faz um ataque, mas a defesa da imprensa, que ele compara a um holofote, &#8220;que se move sem descanso&#8221; para trazer \u00e0 luz epis\u00f3dios que est\u00e3o nas sombras.<\/p>\n<p><strong>Opini\u00e3o P\u00fablica<\/strong><br \/>\nWalter Lippmann<br \/>\nTradu\u00e7\u00e3o: Jacques A. Wainberg<br \/>\n352 p\u00e1ginas<br \/>\nEditora Vozes, 2008<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A primeira coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o no livro Opini\u00e3o P\u00fablica, do jornalista americano\u00a0Walter Lippmann, foi a distor\u00e7\u00e3o que fazem de uma de suas&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[1700,2463],"class_list":["post-467","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","tag-opiniao-publica","tag-walter-lippmann"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=467"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/467\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}