{"id":6182,"date":"2010-03-07T00:09:00","date_gmt":"2010-03-07T03:09:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=6182"},"modified":"2010-03-07T00:09:00","modified_gmt":"2010-03-07T03:09:00","slug":"dia-da-mulher-a-construcao-mitica-do-8-de-marco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2010\/03\/07\/dia-da-mulher-a-construcao-mitica-do-8-de-marco\/","title":{"rendered":"Dia da Mulher: a constru\u00e7\u00e3o m\u00edtica do 8 de mar\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p>Na edi\u00e7\u00e3o de 7 de mar\u00e7o de 2003 do <strong>O POVO<\/strong>, assinei mat\u00e9ria, feita a partir de uma entrevista com a professora Maria Dolores Mota, da Universidade Federal do Cear\u00e1, na qual ela confronta o que\u00a0chama &#8220;de origem m\u00edtica do 8 de mar\u00e7o&#8221;, divulgada pelo movimento feminista e sindical.<\/p>\n<p>Segundo ela, n\u00e3o existiu o inc\u00eandio proposital, no qual teriam morrido v\u00e1rias mulheres, que lutavam pela redu\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho. Para a professora, o 8 de mar\u00e7o n\u00e3o tem uma origem em um acontecimento isolado, mas foi fruto de uma seq\u00fc\u00eancia de fatos, que culminaram na escolha da data.<\/p>\n<p>Como sei que essa narrativa, que tem sentido de &#8220;fabulador do real&#8221;, como diz a professora, ser\u00e1 mais uma vez contada por jornais e boletins sindicais, reproduzo abaixo a mat\u00e9ria publicada em 7 de mar\u00e7o de 2003 no O POVO.<\/p>\n<p><strong>A constru\u00e7\u00e3o m\u00edtica do 8 de mar\u00e7o<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<\/p>\n<p>&#8221;No dia 8 de mar\u00e7o de 1857, trabalhadoras de uma ind\u00fastria t\u00eaxtil de Nova York, em greve pela diminui\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho, foram trancadas e a f\u00e1brica incendiada, provocando a morte de 129 delas. No 2\u00ba Congresso Internacional das Mulheres Socialistas, em 1910, em Copenhague, Clara Zetkin, militante alem\u00e3, editora do jornal feminista A Igualdade, prop\u00f5e essa data como refer\u00eancia para todas mulheres do mundo celebrarem e comemoram suas lutas&#8221;.<\/p>\n<p>Com pequenas varia\u00e7\u00f5es, essa \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o do movimento feminista &#8211; reproduzida a cada ano pelos jornais &#8211; para origem do Dia Internacional da Mulher. No entanto, a pesquisadora e professora do curso de Economia Dom\u00e9stica da Universidade Federal do Cear\u00e1 (UFC), Maria Dolores Mota Farias, afirma que essa \u00e9 a origem &#8221;m\u00edtica&#8221; do 8 de mar\u00e7o, formulada a partir de uma narrativa que adquire um sentido &#8221;fabulador do real&#8221;. Do suposto inc\u00eandio de 1857 (ou 1908 segundo outras vers\u00f5es), n\u00e3o foram encontrados registros na chamada imprensa burguesa da \u00e9poca, e nem nos peri\u00f3dicos socialistas.<\/p>\n<p>A professora afirma que tal inc\u00eandio nunca existiu, e que o Dia Internacional da Mulher surgiu de uma &#8221;colcha de retalhos&#8221;, v\u00e1rias mobiliza\u00e7\u00f5es promovidas por organiza\u00e7\u00f5es feministas &#8211; principalmente as socialistas &#8211; em v\u00e1rios pa\u00edses do mundo, que se fundiram, desaguando em uma data unificada mundialmente para marcar a luta da mulheres.<\/p>\n<p>Segundo Dolores, o que a imprensa da \u00e9poca registra \u00e9 um inc\u00eandio ocorrido em 29 de mar\u00e7o de 1911 &#8211; que n\u00e3o foi proposital -, na f\u00e1brica de roupas da Triangle Shirt Waist Company, em Nova York (Estados Unidos), que matou 134 oper\u00e1rios, a maioria mulheres. O jornal Solidariedade, dos trabalhadores nas ind\u00fastrias, registra o fato com o t\u00edtulo &#8221;Um crime capitalista&#8221;, e anota no texto: &#8221;Engaiolados nos andares mais altos, com as portas fechadas para obrig\u00e1-los a ficar no trabalho, sem nenhum escada de seguran\u00e7a (&#8230;), os trabalhadores apavorados, a maior parte mulheres jovens, pulavam das janelas em n\u00famero t\u00e3o grande que na realidade parecia aos bombeiros se encontrar sob uma chuva de seres humanos&#8221;.<\/p>\n<p>Este inc\u00eandio ocorreu um ano depois do 2\u00ba Congresso das Mulheres Socialistas, que foi em 1910, n\u00e3o poderia, portanto, ter servido de inspira\u00e7\u00e3o para a proposta Dia Internacional da Mulher. A parte &#8221;verdadeira&#8221; do &#8221;mito fundador&#8221; \u00e9 que a militante comunista alem\u00e3 Clara Zetkin, prop\u00f4s a cria\u00e7\u00e3o de um dia internacional da mulher logo ap\u00f3s este congresso de mulheres socialistas.<\/p>\n<p>Zetkin publicou um artigo na revista Igualdade, dirigida por ela, em que levanta o assunto, mas n\u00e3o estabelece uma data espec\u00edfica para a celebra\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m n\u00e3o fez refer\u00eancia ao suposto inc\u00eandio de 8 de mar\u00e7o de 1857 (ou 1908). Para Dolores essa \u00e9 mais uma prova de que o fato n\u00e3o existiu, pois seria inadmiss\u00edvel que o inc\u00eandio e as vidas sacrificadas n\u00e3o fossem lembradas na ocasi\u00e3o em que se fez proposta de tamanha envergadura.<\/p>\n<p>A proposta de um dia internacional das mulheres j\u00e1 vinha sendo elaborado h\u00e1 bastante tempo pelos socialistas americanos e europeus. Em alguns pa\u00edses j\u00e1 havia uma data determinada para reuni\u00f5es e reflex\u00e3o sobre o papel das mulheres na sociedade. A publica\u00e7\u00e3o da proposta na revista de Clara Zetkin, que tinha 82 mil assinantes, na Europa e fora dela, deve ter dado mais visibilidade \u00e0 proposta do estabelecimento de uma data unificada. Por\u00e9m, a hist\u00f3ria n\u00e3o registra como o 8 de mar\u00e7o se tornou um marco na luta das feministas.<\/p>\n<p>O Dia Internacional da Mulher foi reconhecido oficialmente pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Educa\u00e7\u00e3o Ci\u00eancia e Cultura (Unesco), em 1977. A Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU) realizara em 1975 a 1\u00aa Confer\u00eancia Internacional da Mulher, no M\u00e9xico, reconhecendo o 8 de mar\u00e7o, e declarando 1975-1985 a d\u00e9cada da mulher.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na edi\u00e7\u00e3o de 7 de mar\u00e7o de 2003 do O POVO, assinei mat\u00e9ria, feita a partir de uma entrevista com a professora Maria Dolores Mota,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[30],"tags":[67,742,1474,1705],"class_list":["post-6182","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-polemica","tag-8-de-marco","tag-dia-da-mulher","tag-maria-dolores-mota","tag-origem-mitica"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6182","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6182"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6182\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6182"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6182"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6182"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}