{"id":6690,"date":"2010-04-07T15:04:13","date_gmt":"2010-04-07T18:04:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=6690"},"modified":"2010-04-07T15:04:13","modified_gmt":"2010-04-07T18:04:13","slug":"jornalista-revela-fontes-a-policia-e-provoca-polemica-denunciados-foram-presos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2010\/04\/07\/jornalista-revela-fontes-a-policia-e-provoca-polemica-denunciados-foram-presos\/","title":{"rendered":"Jornalista revela fontes \u00e0 pol\u00edcia e provoca pol\u00eamica; denunciados foram presos"},"content":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada no portal da <a href=\"http:\/\/www.bbc.co.uk\/portuguese\/noticias\/2010\/04\/100406_jornalista_pedofilos_mv.shtml\" target=\"_blank\"><strong>BBC Brasil<\/strong><\/a>, assinada por Daniela Fernandes, mostra a pol\u00eamica que vem provocando na Fran\u00e7a a decis\u00e3o de um jornalista de revelar \u00e0 pol\u00edcia a identidade de supostos ped\u00f3filos que foram suas fontes em uma reportagem.<\/p>\n<p>A den\u00fancia do jornalista provocou a pris\u00e3o de 22 supostos ped\u00f3filos, e de pessoas que mantinham de imagens de pornografia infantil, na Fran\u00e7a e um no Canad\u00e1.<\/p>\n<p>A reportagem feita com  c\u00e2mera escondida, foi produziada para o programa\u00a0 programa &#8220;Les Infiltr\u00e9s&#8221; (Os Infiltrados), do canal estatal France 2.<\/p>\n<p>Para atrair os supostos ped\u00f3filos, o jornalista Laurent Richard, chefe de reda\u00e7\u00e3o do programa, fingiu, em salas de bate-papo na internet, ser \u201cJ\u00e9ssica\u201d, uma garota de 12 anos.<\/p>\n<p>O jornalista tamb\u00e9m filmou encontros com diversos homens, entre eles um sexagen\u00e1rio, um parisiense de 26 anos e um empres\u00e1rio de 35 anos que confessou abusar de sua filha de cinco anos. As vozes dos entrevistados foram alteradas e seus rostos n\u00e3o aparecem na reportagem, que levou cerca de um ano para ser realizada.<\/p>\n<p>Para justificar a divulga\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es \u00e0 pol\u00edcia, Richard diz ter feito &#8220;o que todo cidad\u00e3o deve fazer&#8221; em raz\u00e3o da &#8220;gravidade&#8221; dos fatos descobertos.<\/p>\n<p>&#8220;Quando detemos informa\u00e7\u00f5es que podem impedir tentativas de corrup\u00e7\u00e3o de menores ou o estupro de crian\u00e7as, \u00e9 normal levar o caso \u00e0 pol\u00edcia&#8221;, afirma. A lei francesa define como c\u00famplice qualquer testemunha de atos criminosos contra crian\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>Pol\u00eamica<\/strong><\/p>\n<p>O assunto vem causando pol\u00eamica e alguns jornalistas acusaram a equipe de reportagem do programa de trabalhar como &#8220;auxiliares da pol\u00edcia&#8221;. O c\u00f3digo de deveres da profiss\u00e3o, uma declara\u00e7\u00e3o de princ\u00edpios, afirma que &#8220;um jornalista digno desse nome n\u00e3o confunde o seu papel com o de um policial&#8221;.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio-geral do Sindicato Nacional dos Jornalistas da Fran\u00e7a, Dominique Pradali\u00e9, declarou &#8220;estar escandalizado&#8221; e afirmou que &#8220;os jornalistas n\u00e3o devem divulgar suas fontes&#8221;.<\/p>\n<p>Herv\u00e9 Chabalier, presidente da ag\u00eancia Capa, que produziu a reportagem, disse que existem circunst\u00e2ncias excepcionais que obrigam os jornalistas a abrir exce\u00e7\u00f5es em rela\u00e7\u00e3o ao sigilo de suas fontes.<\/p>\n<p>Chabalier afirma que a equipe de reportagem cumpriu a lei, que prev\u00ea penas de pris\u00e3o e multa para quem tiver conhecimento de viola\u00e7\u00f5es sexuais de menores e n\u00e3o informar as autoridades.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, a prote\u00e7\u00e3o de fontes jornal\u00edsticas pode ter exce\u00e7\u00f5es, que devem ser avaliadas por um juiz.<\/p>\n<p>&#8220;Nenhuma lei prev\u00ea que o jornalista deva denunciar criminosos por sua pr\u00f3pria iniciativa&#8221;, escreve o jornal Le Monde.<\/p>\n<p><strong>Ombudsman<\/strong><\/p>\n<p>Quando atuei como ombudsman do <strong>O POVO<\/strong> deparei com situa\u00e7\u00e3o parecida com essa. Ao produzirem uma reportagem intitulada &#8220;Documento BR&#8221;, sobre explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes nas rodovias federais que cortam o Cear\u00e1, os rep\u00f3rteres resolveram denunciar o caso \u00e0 pol\u00edcia.<\/p>\n<p>Dei o nome \u00e0 coluna em que comentei o caso de<strong> &#8220;Quando o jornalista se indigna&#8221;<\/strong>. Leia a seguir.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Quanto o jornalista se indigna<\/strong><br \/>\nPl\u00ednio Bortolotti<br \/>\n23\/12\/2006<\/p>\n<p>O que o jornalista deve fazer quando, em uma cobertura, v\u00ea uma pessoa em perigo: ajuda-a ou se mant\u00e9m centrado no trabalho? Se ele for rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico, prioriza a fotografia ou acode algu\u00e9m em dificuldade, perdendo o momento de gravar a imagem? Jornalista deve interferir na realidade ou apenas reportar os fatos que est\u00e1 cobrindo? Se o jornalista n\u00e3o depara cotidianamente com tais escolhas, no decorrer de sua vida profissional, pelo menos uma vez, \u00e9 prov\u00e1vel que haver\u00e1 de se haver com elas. E, como sempre escrevo nesta coluna, nunca encontrar\u00e1 resposta f\u00e1cil para os dilemas com os quais vai se defrontar.<\/p>\n<p>Com o caderno Documento BR, o jornal iniciou uma s\u00e9rie de reportagens sobre a explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes nas rodovias federais, que passam pelo Cear\u00e1. O suplemento, encartado na edi\u00e7\u00e3o de domingo passado, \u00e9 de forte impacto, principalmente a entrevista com uma adolescente, de 16 anos, que iniciou suas desventuras nas ruas aos 11 anos de idade. Em seu depoimento, a menina diz ter sido obrigada a vender drogas para um delegado, uma delegada e um inspetor da Pol\u00edcia Civil. (Ela revela todos os nomes, suprimidos na edi\u00e7\u00e3o da entrevista.)<\/p>\n<p>Antes da publica\u00e7\u00e3o da reportagem, os rep\u00f3rteres que est\u00e3o fazendo a cobertura, procuraram a Corregedoria da Pol\u00edcia Civil, entregaram os dados levantados, incluindo o nome dos policiais supostamente envolvidos na atividade criminosa, e pediram prote\u00e7\u00e3o para a adolescente, inscrevendo-a no programa federal de prote\u00e7\u00e3o \u00e0 testemunha. Ainda sob o impacto das situa\u00e7\u00f5es degradantes que testemunharam, tamb\u00e9m passaram a fazer o que um deles, Demitri T\u00falio, chama de &#8220;jornalismo de proposi\u00e7\u00e3o&#8221;. Procuraram a Assembl\u00e9ia Legislativa, promotores de Justi\u00e7a e entidades de defesa da crian\u00e7a e do adolescente, propondo e cobrando a\u00e7\u00f5es para enfrentar o problema, algumas das quais sa\u00edram de forma imediata. A Assembl\u00e9ia Legislativa vai destinar, por meio de conv\u00eanios, R$ 60 mil para a produ\u00e7\u00e3o de um document\u00e1rio sobre o assunto e sua TV passar\u00e1 a ter uma hora di\u00e1ria da programa\u00e7\u00e3o para abordar o tema. Tamb\u00e9m ser\u00e3o produzidos 40 programas de r\u00e1dio a serem enviados a 60 emissoras do Estado. Com base no que foi apurado, o procurador Geral da Justi\u00e7a, Manuel Oliveira, escreveu um documento recomendando aos promotores das comarcas dos 184 munic\u00edpios que exigissem das respectivas prefeituras o diagn\u00f3stico da situa\u00e7\u00e3o da inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia em seus munic\u00edpios. A Uni\u00e3o dos Vereadores do Cear\u00e1 e prefeitos de algumas cidades tamb\u00e9m anunciaram a\u00e7\u00f5es para enfrentar a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9tica<\/p>\n<p>A meu pedido, Demitri procura conceituar o modo como ele e seus colegas de cobertura v\u00eam encarando o trabalho: &#8220;N\u00e3o nos contentamos apenas com a investiga\u00e7\u00e3o e a den\u00fancia. Fomos cobrar mais de perto solu\u00e7\u00f5es ou iniciativas para a mudan\u00e7a de cen\u00e1rio. No jornalismo, nada pode ser fechado, preso a f\u00f3rmulas prontas. Dependendo do caso ou da circunst\u00e2ncia refazemos caminhos. Mas a cobertura \u00e9 isenta e eticamente correta; observamos, sempre, a quest\u00e3o \u00e9tica&#8221;.<\/p>\n<p>Demitri ainda diz que tudo o que vem sendo prometido pelas autoridades ser\u00e1 acompanhado: &#8220;Vamos cobrar para que as coisas se materializem em a\u00e7\u00f5es&#8221;. E finaliza fazendo uma profiss\u00e3o de f\u00e9: &#8220;Fomos al\u00e9m da not\u00edcia. Fomos al\u00e9m da cobertura jornal\u00edstica e da investiga\u00e7\u00e3o pura e simples. N\u00e3o ficamos na den\u00fancia pela den\u00fancia. Entendo, isso \u00e9 opini\u00e3o particular, que temos de lutar por uma sociedade mais justa. E minha trincheira \u00e9 o jornalismo&#8221;.<\/p>\n<p>Um dos paradigmas do jornalismo brasileiro, Cl\u00e1udio Abramo (1923-1987), dizia que a \u00e9tica dele como jornalista era a mesma que ele tinha como cidad\u00e3o. Vejam o que ele escreve no livro A Regra do Jogo: &#8220;Sou jornalista, mas gosto mesmo \u00e9 de marcenaria. Gosto de fazer m\u00f3veis, cadeiras, e minha \u00e9tica como marceneiro \u00e9 igual \u00e0 minha \u00e9tica como jornalista &#8211; n\u00e3o tenho duas. (&#8230;) O cidad\u00e3o n\u00e3o pode trair a palavra dada, n\u00e3o pode abusar da confian\u00e7a do outro, n\u00e3o pode mentir. (&#8230;) O jornalista n\u00e3o tem \u00e9tica pr\u00f3pria. Isso \u00e9 um mito. A \u00e9tica do jornalista \u00e9 a \u00e9tica do cidad\u00e3o. O que \u00e9 ruim para o cidad\u00e3o \u00e9 ruim para o jornalista.&#8221; Suspeito ser algo parecido o que Demitri queira nos dizer, ainda que seja preciso lembrar, que os jornalistas, como v\u00e1rias outras profiss\u00f5es, t\u00eam um c\u00f3digo de \u00e9tica pr\u00f3prio, para dar conta das especificidades do of\u00edcio.<\/p>\n<p>A ombudsman em\u00e9rita do O POVO, Ad\u00edsia S\u00e1, professora de jornalismo, inclusive da disciplina de \u00c9tica, explica o que ela chama de &#8220;filosofia da informa\u00e7\u00e3o&#8221;: a exist\u00eancia do fato, a sua confirma\u00e7\u00e3o pelo rep\u00f3rter, e a publica\u00e7\u00e3o do que foi apurado. &#8220;A\u00ed se encerra o papel do jornalista&#8221;, diz ela. Se o jornalista entender que alguma provid\u00eancia deva ser tomada em rela\u00e7\u00e3o ao fato noticiado, Ad\u00edsia defende que o local devido para exp\u00f4-la seria o pr\u00f3prio jornal, em espa\u00e7o destinado \u00e0 opini\u00e3o. Quanto \u00e0 quest\u00e3o espec\u00edfica da adolescente que ficaria sob risco com a publica\u00e7\u00e3o da reportagem, a professora avalia que os rep\u00f3rteres agiram de forma &#8220;absolutamente correta&#8221; ao providenciarem prote\u00e7\u00e3o para ela, pois ao divulgarem as suas declara\u00e7\u00f5es, a adolescente estaria sujeita a poss\u00edvel vingan\u00e7a por parte dos denunciados.<\/p>\n<p>Reportagem<\/p>\n<p>O caderno Documento BR foi produzido pelos jornalistas Cl\u00e1udio Ribeiro, Luiz Henrique Campos, Felipe Ara\u00fajo, Demitri T\u00falio e o rep\u00f3rter-fotogr\u00e1fico Fco Fontenele. Com o motorista Valdir Gomes, eles percorreram mais de quatro mil quil\u00f4metros nas rodovias federais no Cear\u00e1, mapeando mais de 50 locais onde o crime de explora\u00e7\u00e3o sexual contra crian\u00e7as e adolescentes acontece com mais freq\u00fc\u00eancia. O jornal continua a acompanhar o assunto.<\/p>\n<p>O suplemento \u00e9 resultado de um projeto vencedor do Concurso Tim Lopes de Investiga\u00e7\u00e3o Jornal\u00edstica, organizado pela Ag\u00eancia de Not\u00edcias dos Direitos da Inf\u00e2ncia (Andi) e pelo Instituto WCF-Brasil. Os premiados receberam financiamento para produzir a pauta sobre o abuso e explora\u00e7\u00e3o sexual de crian\u00e7as e adolescentes. D\u00e3o apoio ao projeto o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef), Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho (OIT), Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Jornalistas (Fenaj) e Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mat\u00e9ria publicada no portal da BBC Brasil, assinada por Daniela Fernandes, mostra a pol\u00eamica que vem provocando na Fran\u00e7a a decis\u00e3o de um jornalista de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[788,1000,1022,1951],"class_list":["post-6690","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-jornalismo","tag-documento-br","tag-fonte","tag-franca","tag-quando-o-jornalista-se-indigna"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6690","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6690"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6690\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6690"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6690"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6690"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}