{"id":7066,"date":"2010-04-24T12:39:52","date_gmt":"2010-04-24T15:39:52","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=7066"},"modified":"2010-04-24T12:39:52","modified_gmt":"2010-04-24T15:39:52","slug":"rachel-de-queiroz-conta-leonardo-mota","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2010\/04\/24\/rachel-de-queiroz-conta-leonardo-mota\/","title":{"rendered":"Rachel de Queiroz conta Leonardo Mota"},"content":{"rendered":"<p><a rel=\"attachment wp-att-7067\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/rachel-de-queiroz-conta-leonardo-mota\/rachel\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-7067\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/04\/Rachel-300x143.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"143\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/04\/Rachel-300x143.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/04\/Rachel-120x57.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-content\/uploads\/sites\/39\/2010\/04\/Rachel.jpg 492w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><\/a>Na edi\u00e7\u00e3o de s\u00e1bado passado e neste [24\/4\/2010] a cr\u00f4nica de Rachel de Queiroz no O POVO falou sobre Leonardo Mota, o pesquisador do folclore cearense, que morreu em 1948.<\/p>\n<p>Leota, seu nome para os amigos, \u00e9 pouco conhecido das novas gera\u00e7\u00f5es.  A cr\u00f4nica de Rachel ajudam a tra\u00e7ar o perfil desse homem, o primeiro a recolher, na fonte \u2013 de modo original e sem interfer\u00eancia \u2013 os versos dos cantadores do sert\u00e3o e outras manifesta\u00e7\u00f5es espont\u00e2neas do povo, suas hist\u00f3rias e seu modo de via.<\/p>\n<p>As cr\u00f4nicas de Rachel de Queiroz (1910-2003) v\u00eam sendo reproduzidas em homenagem aos seus 100 anos de nascimento; textos que ela publicou originalmente no O POVO.<\/p>\n<p><strong>Rachel foi amiga e disc\u00edpula de Leota: \u201cN\u00e3o sei como lhe pague o que me ensinou\u201d.<\/strong><\/p>\n<p>A escritora tamb\u00e9m fala, na cr\u00f4nica que Leonardo Mota deixara \u201cfilhos inteligentes\u201d, que reuniriam o que o pai n\u00e3o tivera tempo de publicar. De fato, os filhos de Leota reuniram no \u201cAdagi\u00e1rio brasileiro\u201d anota\u00e7\u00f5es dispersas do pesquisador, que formam um belo conjunto do linguajar e causos sertanejos.<\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m se confessou devedor de Leonardo Mota, em palestra realizada em Fortaleza, no ano passado, foi Ariano Suassuna. Ele diz que, desde menino era apaixonado por livros. Tamb\u00e9m pela literatura de cordel e pela arte dos cantadores, que eram manifesta\u00e7\u00f5es consideradas menos importantes do que uma obra impressa em um livro. Quando viu aquele material em letra de forma, recolhido por Leonardo Mota, Suassuna diz que foi como uma revela\u00e7\u00e3o para ele, pois estava encaixado em um livro, portanto ganhando nobreza a seus olhos. Uma li\u00e7\u00e3o que lhe serviu vida a fora, disse.<\/p>\n<p>Abaixo, reproduzo as duas partes da cr\u00f4nica em que Rachel fala de Leonardo Mota. Quem quiser ver o conjunto das cr\u00f4nicas que est\u00e3o sendo publicadas, acesse as edi\u00e7\u00f5es de s\u00e1bado, via portal <a href=\"http:\/\/opovo.uol.com.br\/\" target=\"_blank\"><strong>O POVO<\/strong><\/a>.<\/p>\n<p>Para ler algumas das hist\u00f3rias escritas pelo pr\u00f3prio Leota, em \u201cNo tempo de Lampi\u00e3o\u201d, que reproduzi neste blog durante algum tempo, <a href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/com-o-cabo-militao-completo-as-11-historias-de-leonardo-mota-em-no-tempo-de-lampiao\/\" target=\"_blank\"><strong>clique aqui<\/strong><\/a>.<!--more--><\/p>\n<p><strong>Leonardo Mota [I]<\/strong><br \/>\nRachel de Queiroz<br \/>\n17 Abril 2010 \u2013 O POVO [Publicada originalmente em 15 de janeiro de 1948]\n<p>Morreu o meu amigo Leonardo Mota, o nosso querido Leota, o que \u00e9, realmente, uma grande tristeza. A obriga\u00e7\u00e3o de morrer pode ser um al\u00edvio para quem morre &#8211; e para ele talvez o fosse, maltratado pela doen\u00e7a h\u00e1 tantos anos -, mas \u00e9 bem melanc\u00f3lico para os que ficam. \u00c9 como o soldado que, caindo, se livra da guerra e das suas mis\u00e9rias; enquanto os companheiros que continuam lutando, al\u00e9m das mis\u00e9rias da guerra, ainda sofrem a falta do camarada perdido.<\/p>\n<p>E, ditas estas primeiras palavras &#8211; vede como era forte a personalidade humana desse que foi embora -; \u00e0 not\u00edcia de sua morte o que todos lamentam \u00e9 o indiv\u00edduo, o velho amigo perdido; e s\u00f3 depois de o chorar como simples criatura nossa irm\u00e3, \u00e9 que recordamos o brasileiro ilustre que ele foi, o mestre indisputado do nosso folclore, e a import\u00e2ncia da sua obra; e realizamos qu\u00e3o dura perda a morte desse homem enfermo, que durante anos engoliu amarguras e dores no fundo de sua rede, representa para a intelig\u00eancia brasileira.<\/p>\n<p>Talvez poucos, talvez nenhum na sua especialidade, tenha contribu\u00eddo mais para o aproveitamento e estudo do folclore nacional. Leonardo Mota era desses que acreditam em colher o fruto na \u00e1rvore e n\u00e3o compr\u00e1-lo embalsamado em caixetas de papel\u00e3o. Ia apanhar a cantiga na boca dos cantadores, sem intermedi\u00e1rio de ningu\u00e9m, entendendo-se com os poetas sertanejos de igual para igual, por eles respeitado e querido. Nada tinha em comum com os nossos sertanejos de gabinete que entendem muito de cantadores e cangaceiros de retrato, especialistas em material de segunda m\u00e3o, que estudam e pontificam servindo-se de textos colhidos sabe Deus onde e como, Leota era daqueles trabalhadores humildes e obstinados que s\u00f3 compreendem a obra feita com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Internava-se durante meses e at\u00e9 durante anos por esse sert\u00e3o de meu Deus, enchendo cadernos, infatigavelmente, sempre de l\u00e1pis na m\u00e3o, ouvindo, registrando, selecionando, com per\u00edcia exemplar, com honestidade exemplar, e dele jamais se soube dum texto enxertado, ou \u201cmelhorado\u201d, de uma improvisa\u00e7\u00e3o de pregui\u00e7oso ou de vaidoso para suprir alguma falha.<\/p>\n<p>Os cantadores, que s\u00e3o os intelectuais da cantiga, consideravam alta honra serem por ele ouvidos, a mais de um cantador ouvi gabar-se em rima, num desafio, entre outras vantagens excepcionais, que \u201cj\u00e1 andava nos livros do doutor Leota\u201d. Pois, \u201candar nos livros de Leota\u201d, representava para eles a consagra\u00e7\u00e3o definitiva, uma esp\u00e9cie de doutorado de repentista. E por ser assim amado e estimado pelos seus modelos, podia colher o material de estudo na sua beleza mais primitiva e genu\u00edna, como o encantador de passarinhos que consegue escutar o canto dos mais ariscos voadores no pr\u00f3prio instante espont\u00e2neo em que \u00e9 improvisado. A contribui\u00e7\u00e3o de Leonardo Mota foi, pois, inegavelmente precios\u00edssima para o estudo e aproveitamento do imenso material folcl\u00f3rico por ele colhido e posto em livros, durante algumas d\u00e9cadas de trabalho; e contudo, grande tamb\u00e9m \u00e9 a contribui\u00e7\u00e3o indireta dessa obra na forma\u00e7\u00e3o da moderna linguagem liter\u00e1ria do grupo de escritores do nordeste. Ele foi como que uma fonte viva da l\u00edngua para n\u00f3s todos, proporcionando-nos elementos de renova\u00e7\u00e3o, de enriquecimento, pondo-nos em contacto direto com a esquecida ou desprezada linguagem do povo, devolvendo-nos a for\u00e7a da terra, debilitada por tantos anos de pedantismo e preocupa\u00e7\u00f5es hel\u00eanicas e promocionais. Foi ele assim para n\u00f3s uma esp\u00e9cie de precursor e mestre, e muit\u00edssimo lhe devemos.<\/p>\n<p><strong>Leonardo Mota [II]<\/strong><br \/>\nRachel de Queiroz<br \/>\n24 Abril 2010 \u2013 O POVO<\/p>\n<p>Eu, de mim, especialmente, n\u00e3o sei como lhe pague o que me ensinou. E a releitura constante de sua obra deixou de ser para n\u00f3s, que a procuramos, al\u00e9m de puro deleite intelectual, uma oportunidade de renova\u00e7\u00e3o, uma li\u00e7\u00e3o de simplicidade; vale tanto quanto a releitura dos cl\u00e1ssicos &#8211; n\u00e3o fosse o povo o grande cl\u00e1ssico, guardador de rel\u00edquias, renovador de formas esquecidas, criador de formas novas, \u00fanico elemento realmente fecundo e indispens\u00e1vel no processo de conserva\u00e7\u00e3o e desenvolvimento da l\u00edngua.<\/p>\n<p>A estirpe de pesquisador a que pertencia Leonardo Mota anda quase desaparecida ou talvez de todo extinta. S\u00f3 nos aparece agora como figura de romance ou de anedota; realmente, quem v\u00ea mais, o estudioso que se larga dos livros e dos professores e vai apanhar o objeto dos seus estudos l\u00e1 no lugar onde ele nasce e medra? Desses que saem a cavalo, sert\u00e3o a dentro, desprezando dificuldades, rigores e perigos, maltratando a sa\u00fade, atr\u00e1s de coisas fr\u00e1geis e sem import\u00e2ncia aparente: uma flor, um inseto, uma cantiga? Enfrentava bandidos para lhes ouvir as fa\u00e7anhas dos pr\u00f3prios l\u00e1bios e registr\u00e1-las conscientemente nos seus livros. Era capaz de andar l\u00e9guas e l\u00e9guas no chouto dur\u00edssimo de um cavalo de vaqueiro s\u00f3 para ouvir um cantador novo ou anotar as novidades de um cantador conhecido. Aquele homem gordo bom bebedor, bom comedor, bom falador, era, apesar da sua apar\u00eancia indolente, capaz de \u201csuar como tampa de chaleira\u201d (express\u00e3o usada por um matuto a seu respeito, segundo ele pr\u00f3prio conta) e se danar caatinga a dentro, cozinhando no sol, cortando pedregulho e mato espinhento, s\u00f3 para enriquecer com mais uma quadra nova os seus cadernos j\u00e1 cheios.<\/p>\n<p>E a obra que deixou, apesar de interrompida pela enfermidade, ai est\u00e1: copiosa, leg\u00edtima como uma pepita de ouro e tal como uma pepita bruta cheia de riqueza em potencial, na maioria ainda n\u00e3o aproveitadas. Mas paci\u00eancia, nela ainda h\u00e3o de abeberar sedentos os eruditos, e engordar, e disput\u00e1-la e enxergarem ao seu redor como moscas.<\/p>\n<p>Foi ele um dos poucos brasileiros que se atreveu a estudar Lampi\u00e3o d-apr\u00e9s nature, &#8211; e colher o anedot\u00e1rio lampi\u00f4nico dos pr\u00f3prios l\u00e1bios do her\u00f3i bandido, dos seus companheiros de bando, dos coiteiros e dos macacos que o ca\u00e7avam. E dele \u00e9, por isso mesmo, o melhor contingente de material que possu\u00edmos a respeito do \u201cimperador do sert\u00e3o\u201d, &#8211; e material que traz o selo de genu\u00edno, de garantido, de absolutamente de primeira m\u00e3o, colhido por algu\u00e9m que n\u00e3o tinha paix\u00f5es pr\u00f3 nem contra, que n\u00e3o tinha outra paix\u00e3o al\u00e9m da paix\u00e3o da autenticidade.<\/p>\n<p>Leonardo Mota deixou filhos que s\u00e3o homens de intelig\u00eancia e sabem apreciar como devem o valor da obra de seu pai. Deles esperamos a reuni\u00e3o de tudo que ficou disperso, a valoriza\u00e7\u00e3o do que anda inaproveitado por folhas de jornais, por cadernos rabiscados a l\u00e1pis, por rascunhos de confer\u00eancias; eram ali\u00e1s essas confer\u00eancias, t\u00e3o saborosas t\u00e3o pitorescas, t\u00e3o ricos de conte\u00fado po\u00e9tico, que quem as ouviu, n\u00e3o as esquece; e realizavam o milagre de reunir audit\u00f3rios entusi\u00e1sticos e enchiam casas \u00e0 cunha nas mais adormecidas cidades de interior.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel que se perca ou se esque\u00e7a contribui\u00e7\u00e3o t\u00e3o importante para a nossa cultura; e grande ser\u00e1 a alegria de todos n\u00f3s, que fomos amigos e disc\u00edpulos de Leonardo Mota, constatar que entre a gente mais mo\u00e7a se renova e se multiplica o conhecimento da sua obra, e se ampliam o interesse e a admira\u00e7\u00e3o que n\u00f3s lhe devotamos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na edi\u00e7\u00e3o de s\u00e1bado passado e neste [24\/4\/2010] a cr\u00f4nica de Rachel de Queiroz no O POVO falou sobre Leonardo Mota, o pesquisador do folclore&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26,47],"tags":[1383,1407,1969],"class_list":["post-7066","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-livros","category-variedades","tag-leonardo-mota","tag-livro","tag-rachel-de-queiroz"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7066","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=7066"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/7066\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=7066"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=7066"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=7066"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}