{"id":719,"date":"2009-06-08T07:01:01","date_gmt":"2009-06-08T12:01:01","guid":{"rendered":"http:\/\/blog4.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=719"},"modified":"2009-06-08T07:01:01","modified_gmt":"2009-06-08T12:01:01","slug":"fundacao-de-garcia-marquez-oferece-curso-de-jornalismo-na-web","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2009\/06\/08\/fundacao-de-garcia-marquez-oferece-curso-de-jornalismo-na-web\/","title":{"rendered":"Funda\u00e7\u00e3o de Garc\u00eda M\u00e1rquez oferece curso de jornalismo na web"},"content":{"rendered":"<p>A\u00a0<a href=\"http:\/\/www.fnpi.org\/actividades\/2009\/taller-de-experimentos-periodisticos-en-internet\/\" target=\"_blank\">FNPI [Fundaci\u00f3n Nuevo Periodismo Ibero-Americano]<\/a> oferece o &#8220;Taller de experimentos period\u00edscos na internet&#8221; [curso de jornalismo\u00a0para a \u00a0internet], que ser\u00e1 realizado online no per\u00edodo de 23 de junho a 27 de agosto de 2009.<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o foi criado em 1994, em Cartagena das \u00cdndias [Col\u00f4mbia] pelo escritor Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez\u00a0como uma escola livre de jornalismo. Como se sabe, o escritor viveu do jornalismo no in\u00edcio de sua carreira, nunca deixou de s\u00ea-lo, e\u00a0o considera a &#8220;melhor profiss\u00e3o do mundo&#8221;\u00a0<\/p>\n<p>O curso vai ensinar a fazer resportagens usando o Skype [telefone pela internet]; contar uma hist\u00f3ria com fotos feitas simultaneamente por um grupo de pessoas com seus celulares; narrar um acontecimento por\u00a0Twitter [microblog] e fazer uma pesquisa\u00a0de opini\u00e3o por meio das redes sociais, entre outras t\u00e9cnicas jornal\u00edsticas online.<\/p>\n<p>Outro dos objetivos \u00e9\u00a0mostrar que a web \u00e9 um espa\u00e7o, n\u00e3o somente para comunicar, mas tamb\u00e9m um lugar onde se encontra o necess\u00e1rio para contar hist\u00f3rias.<\/p>\n<p>Leia o texto de Garc\u00eda M\u00e1rquez &#8220;A melhor profiss\u00e3o do mundo&#8221;<!--more--><\/p>\n<p><strong>A melhor profiss\u00e3o do mundo<\/strong><br \/>\nGabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez<\/p>\n<p>H\u00e1 uns cinq\u00fcenta anos n\u00e3o estavam na moda escolas de jornalismo. Aprendia-se nas reda\u00e7\u00f5es, nas oficinas, no botequim do outro lado da rua, nas noitadas de sexta-feira. O jornal todo era uma f\u00e1brica que formava e informava sem equ\u00edvocos e gerava opini\u00e3o num ambiente de participa\u00e7\u00e3o no qual a moral era conservada em seu lugar.<\/p>\n<p>N\u00e3o haviam sido institu\u00eddas as reuni\u00f5es de pauta, mas \u00e0s cinco da tarde, sem convoca\u00e7\u00e3o oficial, todo mundo fazia uma pausa para descansar das tens\u00f5es do dia e conflu\u00eda num lugar qualquer da reda\u00e7\u00e3o para tomar caf\u00e9. Era uma tert\u00falia aberta em que se discutiam a quente os temas de cada se\u00e7\u00e3o e se davam os toques finais na edi\u00e7\u00e3o do dia seguinte. Os que n\u00e3o aprendiam naquelas c\u00e1tedras ambulantes e apaixonadas de vinte e quatro horas di\u00e1rias, ou os que se aborreciam de tanto falar da mesma coisa, era porque queriam ou acreditavam ser jornalistas, mas na realidade n\u00e3o o eram.<br \/>\nO jornal cabia ent\u00e3o em tr\u00eas grandes se\u00e7\u00f5es: not\u00edcias, cr\u00f4nicas e reportagens, e notas editoriais. A se\u00e7\u00e3o mais delicada e de grande prest\u00edgio era a editorial. O cargo mais desvalido era o de rep\u00f3rter, que tinha ao mesmo tempo a conota\u00e7\u00e3o de aprendiz e de ajudante de pedreiro. O tempo e a profiss\u00e3o mesma demonstraram que o sistema nervoso do jornalismo circula na realidade em sentido contr\u00e1rio. Dou f\u00e9: aos 19 anos, sendo o pior dos estudantes de direito, comecei minha carreira como redator de notas editoriais e fui subindo pouco a pouco e com muito trabalho pelos degraus das diferentes se\u00e7\u00f5es, at\u00e9 o n\u00edvel m\u00e1ximo de rep\u00f3rter raso.<\/p>\n<p>A pr\u00e1tica da profiss\u00e3o, ela pr\u00f3pria, impunha a necessidade de se formar uma base cultural, e o ambiente de trabalho se encarregava de incentivar essa forma\u00e7\u00e3o. A leitura era um v\u00edcio profissional. Os autodidatas costumam ser \u00e1vidos e r\u00e1pidos, e os daquele tempo o fomos de sobra para seguir abrindo caminho na vida para a melhor profiss\u00e3o do mundo &#8211; como n\u00f3s a cham\u00e1vamos. Alberto Lleras Camargo, que foi sempre jornalista e duas vezes presidente da Col\u00f4mbia, n\u00e3o tinha sequer o curso secund\u00e1rio.<\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o posterior de escolas de jornalismo foi uma rea\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica contra o fato consumado de que o of\u00edcio carecia de respaldo acad\u00eamico. Agora as escolas existem n\u00e3o apenas para a imprensa escrita como para todos os meios inventados e por inventar. Mas em sua expans\u00e3o varreram at\u00e9 o nome humilde que o of\u00edcio teve desde suas origens no s\u00e9culo XV, e que agora n\u00e3o \u00e9 mais jornalismo, mas Ci\u00eancias da Comunica\u00e7\u00e3o ou Comunica\u00e7\u00e3o Social.<\/p>\n<p>O resultado n\u00e3o \u00e9, em geral, alentador. Os jovens que saem desiludidos das escolas, com a vida pela frente, parecem desvinculados da realidade e de seus problemas vitais, e um af\u00e3 de protagonismo prima sobre a voca\u00e7\u00e3o e as aptid\u00f5es naturais. E em especial sobre as duas condi\u00e7\u00f5es mais importantes: a criatividade e a pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Em sua maioria, os formados chegam com defici\u00eancias flagrantes, t\u00eam graves problemas de gram\u00e1tica e ortografia, e dificuldades para uma compreens\u00e3o reflexiva dos textos. Alguns se gabam de poder ler de tr\u00e1s para frente um documento secreto no gabinete de um ministro, de gravar di\u00e1logos fortuitos sem prevenir o interlocutor, ou de usar como not\u00edcia uma conversa que de antem\u00e3o se combinara confidencial.<\/p>\n<p>O mais grave \u00e9 que tais atentados contra a \u00e9tica obedecem a uma no\u00e7\u00e3o intr\u00e9pida da profiss\u00e3o, assumida conscientemente e orgulhosamente fundada na sacraliza\u00e7\u00e3o do furo a qualquer pre\u00e7o e acima de tudo. Seus autores n\u00e3o se comovem com a premissa de que a melhor not\u00edcia nem sempre \u00e9 a que se d\u00e1 primeiro, mas muitas vezes a que se d\u00e1 melhor. Alguns, conscientes de suas defici\u00eancias, sentem-se fraudados pela faculdade onde estudaram e n\u00e3o lhes treme a voz quando culpam seus professores por n\u00e3o lhes terem inculcado as virtudes que agora lhes s\u00e3o requeridas, especialmente a curiosidade pela vida.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que tais cr\u00edticas valem para a educa\u00e7\u00e3o geral, pervertida pela massifica\u00e7\u00e3o de escolas que seguem a linha viciada do informativo ao inv\u00e9s do formativo. Mas no caso espec\u00edfico do jornalismo parece que, al\u00e9m disso, a profiss\u00e3o n\u00e3o conseguiu evoluir com a mesma velocidade que seus instrumentos e os jornalistas se extraviaram no labirinto de uma tecnologia disparada sem controle em dire\u00e7\u00e3o ao futuro.<\/p>\n<p>Quer dizer: as empresas empenharam-se a fundo na concorr\u00eancia feroz da moderniza\u00e7\u00e3o material e deixaram para depois a forma\u00e7\u00e3o de sua infantaria e os mecanismos de participa\u00e7\u00e3o que no passado fortaleciam o esp\u00edrito profissional. As reda\u00e7\u00f5es s\u00e3o laborat\u00f3rios ass\u00e9pticos para navegantes solit\u00e1rios, onde parece mais f\u00e1cil comunicar-se com os fen\u00f4menos siderais do que com o cora\u00e7\u00e3o dos leitores. A desumaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 galopante.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil aceitar que o esplendor tecnol\u00f3gico e a vertigem das comunica\u00e7\u00f5es, que tanto desej\u00e1vamos em nossos tempos, tenham servido para antecipar e agravar a agonia cotidiana do hor\u00e1rio de fechamento.<\/p>\n<p>Os principiantes queixam-se de que os editores lhes concedem tr\u00eas horas para uma tarefa que na hora da verdade \u00e9 imposs\u00edvel em menos de seis, que lhes encomendam material para duas colunas e na hora da verdade lhes concedem apenas meia coluna, e no p\u00e2nico do fechamento ningu\u00e9m tem tempo nem \u00e2nimo para lhes explicar por que, e menos ainda para lhes dizer uma palavra de consolo.<br \/>\n&#8220;Nem sequer nos repreendem&#8221;, diz um rep\u00f3rter novato ansioso por ter comunica\u00e7\u00e3o direta com seus chefes. Nada: o editor, que antes era um paiz\u00e3o s\u00e1bio e compassivo, mal tem for\u00e7as e tempo para sobreviver ele mesmo ao cativeiro da tecnologia.<\/p>\n<p>A pressa e a restri\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o, creio, minimizaram a reportagem, que sempre tivemos na conta de g\u00eanero mais brilhante, mas que \u00e9 tamb\u00e9m o que requer mais tempo, mais investiga\u00e7\u00e3o, mais reflex\u00e3o e um dom\u00ednio certeiro da arte de escrever. \u00c9, na realidade, a reconstitui\u00e7\u00e3o minuciosa e ver\u00eddica do fato. Quer dizer: a not\u00edcia completa, tal como sucedeu na realidade, para que o leitor a conhe\u00e7a como se tivesse estado no local dos acontecimentos.<\/p>\n<p>O gravador \u00e9 culpado pela glorifica\u00e7\u00e3o viciosa da entrevista. O r\u00e1dio e a televis\u00e3o, por sua pr\u00f3pria natureza, converteram-na em g\u00eanero supremo, mas tamb\u00e9m a imprensa escrita parece compartilhar a id\u00e9ia equivocada de que a voz da verdade n\u00e3o \u00e9 tanto a do jornalista que viu como a do entrevistado que declarou. Para muitos redatores de jornais, a transcri\u00e7\u00e3o \u00e9 a prova de fogo: confundem o som das palavras, trope\u00e7am na sem\u00e2ntica, naufragam na ortografia e morrem de enfarte com a sintaxe.<\/p>\n<p>Talvez a solu\u00e7\u00e3o seja voltar ao velho bloco de anota\u00e7\u00f5es, para que o jornalista v\u00e1 editando com sua intelig\u00eancia \u00e0 medida que escuta, e restitua o gravador a sua categoria verdadeira, que \u00e9 a de testemunho inquestion\u00e1vel. De todo modo, \u00e9 um consolo supor que muitas das transgress\u00f5es da \u00e9tica, e outras tantas que aviltam e envergonham o jornalismo de hoje, nem sempre se devem \u00e0 imoralidade, mas igualmente \u00e0 falta de dom\u00ednio do of\u00edcio.<\/p>\n<p>Talvez a desgra\u00e7a das faculdades de Comunica\u00e7\u00e3o Social seja ensinar muitas coisas \u00fateis para a profiss\u00e3o, por\u00e9m muito pouco da profiss\u00e3o propriamente dita. Claro que devem persistir em seus programas human\u00edsticos, embora menos ambiciosos e perempt\u00f3rios, para ajudar a constituir a base cultural que os alunos n\u00e3o trazem do curso secund\u00e1rio.<\/p>\n<p>Entretanto, toda a forma\u00e7\u00e3o deve se sustentar em tr\u00eas vigas mestras: a prioridade das aptid\u00f5es e das voca\u00e7\u00f5es, a certeza de que a investiga\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma especialidade dentro da profiss\u00e3o, mas que todo jornalismo deve ser investigativo por defini\u00e7\u00e3o, e a consci\u00eancia de que a \u00e9tica n\u00e3o \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o ocasional, e sim que deve acompanhar sempre o jornalismo, como o zumbido acompanha o besouro.<\/p>\n<p>O objetivo final deveria ser o retorno ao sistema prim\u00e1rio de ensino em oficinas pr\u00e1ticas formadas por pequenos grupos, com um aproveitamento cr\u00edtico das experi\u00eancias hist\u00f3ricas, e em seu marco original de servi\u00e7o p\u00fablico. Quer dizer: resgatar para a aprendizagem o esp\u00edrito de tert\u00falia das cinco da tarde.<\/p>\n<p>Um grupo de jornalistas independentes estamos tratando de faz\u00ea-lo, em Cartagena de Indias, para toda a Am\u00e9rica Latina, com um sistema de oficinas experimentais e itinerantes que leva o nome nada modesto de Funda\u00e7\u00e3o do Novo Jornalismo Ibero-Americano. \u00c9 uma experi\u00eancia piloto com jornalistas novos para trabalhar em alguma especialidade &#8211; reportagem, edi\u00e7\u00e3o, entrevistas de r\u00e1dio e televis\u00e3o e tantas outras &#8211; sob a dire\u00e7\u00e3o de um veterano da profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>A m\u00eddia faria bem em apoiar essa opera\u00e7\u00e3o de resgate. Seja em suas reda\u00e7\u00f5es, seja com cen\u00e1rios constru\u00eddos intencionalmente, como os simuladores a\u00e9reos que reproduzem todos os incidentes de v\u00f4o, para que os estudantes aprendam a lidar com desastres antes que os encontrem de verdade atravessados em seu caminho. Porque o jornalismo \u00e9 uma paix\u00e3o insaci\u00e1vel que s\u00f3 se pode digerir e humanizar mediante a confronta\u00e7\u00e3o descarnada com a realidade.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o sofreu essa servid\u00e3o que se alimenta dos imprevistos da vida, n\u00e3o pode imagin\u00e1-la. Quem n\u00e3o viveu a palpita\u00e7\u00e3o sobrenatural da not\u00edcia, o orgasmo do furo, a demoli\u00e7\u00e3o moral do fracasso, n\u00e3o pode sequer conceber o que s\u00e3o. Ningu\u00e9m que n\u00e3o tenha nascido para isso e esteja disposto a viver s\u00f3 para isso poderia persistir numa profiss\u00e3o t\u00e3o incompreens\u00edvel e voraz, cuja obra termina depois de cada not\u00edcia, como se fora para sempre, mas que n\u00e3o concede um instante de paz enquanto n\u00e3o torna a come\u00e7ar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A\u00a0FNPI [Fundaci\u00f3n Nuevo Periodismo Ibero-Americano] oferece o &#8220;Taller de experimentos period\u00edscos na internet&#8221; [curso de jornalismo\u00a0para a \u00a0internet], que ser\u00e1 realizado online no per\u00edodo de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":85,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[72,672,997],"class_list":["post-719","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cursos","tag-a-melhor-profissao-do-mundo","tag-curso","tag-fnpi"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/719","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/users\/85"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=719"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/719\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=719"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=719"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=719"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}