{"id":8788,"date":"2010-07-14T16:18:30","date_gmt":"2010-07-14T19:18:30","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/?p=8788"},"modified":"2010-07-14T16:18:30","modified_gmt":"2010-07-14T19:18:30","slug":"goleiro-brunoeliza-samudio-o-que-e-relevante-no-caso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/pliniobortolotti\/2010\/07\/14\/goleiro-brunoeliza-samudio-o-que-e-relevante-no-caso\/","title":{"rendered":"Goleiro Bruno\/Eliza Sam\u00fadio: o que \u00e9 relevante no caso?"},"content":{"rendered":"<p>O que \u00e9 mais relevante no caso do goleiro Bruno, suspeito de matar Eliza Sam\u00fadio, sua ex-namorada. Os aspecto moral envolvido na qauest\u00e3o ou as &#8220;perdas&#8221; materiais que o goleiro ter\u00e1 pela &#8220;burrada&#8221; que o acusam de ter feito?<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o questionamento da professora Sandra Helena de Souza no artigo que publicou na edi\u00e7\u00e3o de hoje (14\/7\/2010) no O POVO.<\/p>\n<p>Para ela, em vez de se debater as raz\u00f5es que levam a hediondez de um crime, &#8220;todas as conversas, entrevistas, editoriais, giram em torno do que o assassino, suspeito v\u00e1 l\u00e1, vai deixar de ganhar, no montante de seu preju\u00edzo econ\u00f4mico, na sua burrada, na sua estupidez, por assim dizer&#8221;.<\/p>\n<p>Outro trecho: &#8220;Mas continuo curiosa: gostaria de ver o olhar do &#8216;menor&#8217; que entregou o caso. Consta que ele est\u00e1 aterrorizado com o que viu, chora copiosamente nos depoimentos, v\u00ea o fantasma de Eliza. N\u00e3o consegue conviver com o que fez. Tamb\u00e9m gostaria de saber se ele acredita em Deus. Se n\u00e3o, e sua confiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma arma\u00e7\u00e3o da quadrilha, estamos diante do \u00fanico sujeito moral dessa est\u00f3ria. Ele sofre e n\u00e3o porque n\u00e3o vai estar na Copa de 2014.&#8221;<\/p>\n<p><strong>Esc\u00e2ndalo<\/strong><\/p>\n<p>Quem tamb\u00e9m est\u00e1 tendo um comportamento &#8220;moral&#8221; \u00e9 a produtora Brasileirinhas, de filmes porn\u00f4s, um deles realizado com Eliza Sam\u00fadio em 2006. A produtora vai processar camel\u00f4s do Rio de Janeiro que est\u00e3o vendendo o filme.<\/p>\n<p>Veja o que disse \u00e0 revista Terra Magazine a representante da Brasileirinhas, Patr\u00edcia Soares:<\/p>\n<p>&#8220;N\u00f3s, que temos os direitos dos filmes, simplesmente decidimos n\u00e3o comercializ\u00e1-lo mais. Muita gente liga, consumidor final, querendo os filmes, sabendo que s\u00e3o nossos. Infelizmente, a procura aumentou muito, uma procura sem nexo. Cada um que liga, perguntando pelas produ\u00e7\u00f5es, eu falo que gosto mais ainda do meu cachorro. Tivemos tamb\u00e9m o problema da Leila Lopes (ex-atriz global), que fez alguns filmes para a Brasileirinhas e depois acabou se suicidando. Foi uma trag\u00e9dia, uma coisa muito chata. E n\u00f3s tamb\u00e9m retiramos o filme dela. Agora, com a Eliza est\u00e1 sendo a mesma coisa. N\u00e3o vamos ganhar dinheiro com uma atrocidade dessa.&#8221;<\/p>\n<ul>\n<li><a href=\"http:\/\/terramagazine.terra.com.br\/interna\/0,,OI4565895-EI6594,00-Produtora+porno+que+fez+filme+de+Eliza+vai+processar+camelo.html\" target=\"_blank\">Veja a mat\u00e9ria completa da Terra Magazine.<\/a><\/li>\n<\/ul>\n<ul>\n<li><strong><span style=\"color: #888888\"> Leia o artigo da professora Sandra Helena.<\/span><\/strong><!--more--><\/li>\n<\/ul>\n<p>N\u00e3o matar\u00e1s<br \/>\n<strong>Sandra Helena de Souza<\/strong><\/p>\n<p>No conhecido romance Crime e Castigo, Dostoievski p\u00f5e em cena o tormento de um assassino dominado pela culpa. Seu protagonista agoniza de dor moral e acaba por entregar-se. O russo parecia, por sua vez, estar atormentado com a aurora de um novo tempo sem Deus: como fazer a culpa, a vergonha, o remorso entrar no cora\u00e7\u00e3o dos homens? Como nos autovincular moralmente, sustentados apenas na ideia de uma autoconsci\u00eancia presente, a mesma, em todos os homens?<\/p>\n<p>A raz\u00e3o n\u00e3o pareceu, nesse s\u00e9culo que nos separa, um substituto t\u00e3o eficaz, do ponto de vista moral, quanto o temor a Deus. Temor travestido de amor. Nietzsche percebeu como poucos a enrascada em que nos metemos ao assassinar o pr\u00f3prio Deus. N\u00e3o estar\u00edamos jamais \u00e0 altura do ato que praticamos, pois tiramos o eixo do mundo. Em dias recentes Woody Allen, no magn\u00edfico Match Point, coloca seu protagonista lendo Crime e Castigo, para, ao final, depois de tornado assassino, consentir intimamente com a sorte de n\u00e3o ter sido apanhado. Sutil ironia do g\u00eanio. Cita Dostoievski, no contrap\u00e9, para nos dizer que ele tinha mesmo raz\u00e3o. A morte de Deus \u00e9 tamb\u00e9m a morte de uma certa ideia de homem, o que \u00e9 capaz de sofrer com o mal que ele pr\u00f3prio pratica e de n\u00e3o suportar a dor moral que isso provoca.<\/p>\n<p>Lembro de, na inf\u00e2ncia, quando ainda acreditava, imaginar o sofrimento atroz dos criminosos. Uma curiosidade m\u00f3rbida me fazia imaginar o olhar dos assassinos, perdido, vagando entre os fantasmas de suas maldades. Nada podia ser pior do que isso, ser um assassino, tirar a vida de algu\u00e9m. Na minha primeira visita ao pres\u00eddio, o percurso de praxe das disciplinas de Sociologia do come\u00e7o dos 80, pedi para ver um assassino. Queria ver seu olhar.<\/p>\n<p>Hoje, depois de tantos casos terr\u00edveis de assassinato estampados pela TV, fico imaginando o que as crian\u00e7as imaginam. Elas n\u00e3o precisam mais imaginar o olhar. Ele est\u00e1 l\u00e1, na maioria das vezes, firme, altivo, quase orgulhoso. O caso da vez \u00e9 emblem\u00e1tico. Todas as conversas, entrevistas, editoriais, giram em torno do que o assassino, suspeito v\u00e1 l\u00e1, vai deixar de ganhar, no montante de seu preju\u00edzo econ\u00f4mico, na sua burrada, na sua estupidez, por assim dizer.<\/p>\n<p>Por mais que se fale da hediondez do caso, que envolve c\u00e3es de ra\u00e7a, ex-policial com ares fascist\u00f3ides, narcotr\u00e1fico, orgias, n\u00e3o h\u00e1 seguramente nenhuma incurs\u00e3o no aspecto moral da quest\u00e3o. Para substituir Deus e seus dem\u00f4nios, temos os neuro, os psi, os sociais, os culturais, mas o aspecto moral passa ao largo. Em filosofia moral costuma-se dizer que o \u201cn\u00e3o matar\u00e1s\u201d \u00e9 como que uma regra de ouro, presente em todas as culturas humanas. S\u00f3 se pode matar sob condi\u00e7\u00f5es bem estipuladas. O que vemos acontecendo ao nosso redor \u00e9 a refuta\u00e7\u00e3o mais rotunda dessa tese.<\/p>\n<p>Mata-se cada vez mais, por qualquer motivo, banalmente, cotidianamente.<\/p>\n<p>Mas continuo curiosa: gostaria de ver o olhar do \u201cmenor\u201d que entregou o caso. Consta que ele est\u00e1 aterrorizado com o que viu, chora copiosamente nos depoimentos, v\u00ea o fantasma de Eliza. N\u00e3o consegue conviver com o que fez. Tamb\u00e9m gostaria de saber se ele acredita em Deus. Se n\u00e3o, e sua confiss\u00e3o n\u00e3o \u00e9 uma arma\u00e7\u00e3o da quadrilha, estamos diante do \u00fanico sujeito moral dessa est\u00f3ria. Ele sofre e n\u00e3o porque n\u00e3o vai estar na Copa de 2014.<br \/>\n&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;..<\/p>\n<p>Sandra Helena de Souza &#8211; Professora de Filosofia e \u00c9tica da Universidade de Fortaleza<br \/>\nsandraelena@uol.com.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O que \u00e9 mais relevante no caso do goleiro Bruno, suspeito de matar Eliza Sam\u00fadio, sua ex-namorada. 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