{"id":6226,"date":"2018-09-03T11:17:40","date_gmt":"2018-09-03T14:17:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/?p=6226"},"modified":"2018-09-03T12:14:59","modified_gmt":"2018-09-03T15:14:59","slug":"a-morte-do-museu-nacional-e-o-pais-das-tragedias-anunciadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/2018\/09\/03\/a-morte-do-museu-nacional-e-o-pais-das-tragedias-anunciadas\/","title":{"rendered":"A morte do Museu Nacional e o pa\u00eds das trag\u00e9dias anunciadas"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_6227\" style=\"width: 750px\" class=\"wp-caption aligncenter\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-6227\" class=\"wp-image-6227 size-large\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/wp-content\/uploads\/sites\/62\/2018\/09\/Museu-740x493.jpg\" alt=\"\" width=\"740\" height=\"493\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/wp-content\/uploads\/sites\/62\/2018\/09\/Museu-740x493.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/wp-content\/uploads\/sites\/62\/2018\/09\/Museu-300x200.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/wp-content\/uploads\/sites\/62\/2018\/09\/Museu-768x512.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/wp-content\/uploads\/sites\/62\/2018\/09\/Museu-120x80.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/politica\/wp-content\/uploads\/sites\/62\/2018\/09\/Museu.jpg 1140w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 740px) 100vw, 740px\" \/><p id=\"caption-attachment-6227\" class=\"wp-caption-text\">Inc\u00eandio destr\u00f3i, no come\u00e7o da noite de domingo (2), o Museu Nacional do Rio de Janeiro, na Quinta da Boa Vista (Foto: Ag\u00eancia Brasil)<\/p><\/div>\n<p>A morte do <strong>Museu Nacional<\/strong> n\u00e3o \u00e9 uma surpresa. \u00c9 mais uma trag\u00e9dia entre tantas.<\/p>\n<p>Anunciada com pompa e circunst\u00e2ncia com anteced\u00eancia de pelo menos dez anos, constitui uma dessas modalidades nas quais o <strong>Brasil tem excel\u00eancia: ignorar os sinais da derrocada hist\u00f3rica e pol\u00edtica<\/strong> e seguir em trote avan\u00e7ado rumo ao abismo.<\/p>\n<p>Foi assim em <strong>Mariana (MG)<\/strong>, tr\u00eas anos atr\u00e1s, com o rompimento da barragem da mineradora Samarco.<\/p>\n<p>Antes do despejo de <strong>62 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos de min\u00e9rio de ferro<\/strong> rio adentro at\u00e9 chegar ao mar, naquilo que se tornaria a maior cat\u00e1strofe ambiental do Pa\u00eds, houve sucessivos alertas. Todos ignorados.<\/p>\n<p>Basta uma consulta r\u00e1pida na internet para localizar artigos e reportagens em cujo centro est\u00e1 o risco iminente de inc\u00eandio no Museu do Rio, <strong>o maior e mais importante acervo antropol\u00f3gico, bot\u00e2nico e historiogr\u00e1fico<\/strong> brasileiro e um dos mais ricos do mundo, guarda de 20 milh\u00f5es de itens.<\/p>\n<p>Quase 15 anos atr\u00e1s, a<strong>o responder a pergunta sobre a hip\u00f3tese de um sinistro no museu<\/strong>, o ent\u00e3o diretor da institui\u00e7\u00e3o, S\u00e9rgio Alex Azevedo, admite que a situa\u00e7\u00e3o do equipamento \u00e9 delicada \u2013 a estrutura el\u00e9trica est\u00e1 seriamente comprometida \u2013 e afirma que essa crise j\u00e1 durava pelo menos 40 anos.<\/p>\n<p>Ora, <strong>uma crise que se arrasta por quase meio s\u00e9culo<\/strong> deixa de ser uma crise para se tornar uma forma de se relacionar, de viver, de encarar a coisa p\u00fablica.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e0quela altura, a crise, que <strong>atingira seu momento agudo havia alguns anos<\/strong> e esperava apenas um estopim, tinha se convertido no pr\u00f3prio modelo de gest\u00e3o do museu e no modo pelo qual o estado brasileiro enxergava esses espa\u00e7os.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende, ent\u00e3o, que <strong>nossa reserva de mem\u00f3ria haja se consumido entre labaredas<\/strong> que se alimentavam tanto das p\u00e1ginas de Hist\u00f3ria nacional recolhidas no curso de 200 anos de exist\u00eancia quanto na preserva\u00e7\u00e3o do f\u00f3ssil humano mais antigo das Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p>Batizado de<strong> \u201cLuzia\u201d, o cr\u00e2nio feminino<\/strong>\u00a0foi encontrado por uma miss\u00e3o arqueol\u00f3gica na regi\u00e3o da Lapa Vermelha, em Minas Gerais, na d\u00e9cada de 1970. Morto duas vezes, agora \u00e9 cinza.<\/p>\n<p>Horas ap\u00f3s a destrui\u00e7\u00e3o do Museu Nacional,<strong> o ministro da Cultura, S\u00e9rgio Leit\u00e3o,<\/strong> se apressou em dizer que o governo iria reconstruir o que se havia perdido. Antes dele, o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, j\u00e1 tinha falado que o pal\u00e1cio imperial seria refeito.<\/p>\n<p><strong>Cristalinas na sua ignor\u00e2ncia<\/strong> e daninhas no que t\u00eam de enganosas, s\u00e3o manifesta\u00e7\u00f5es expl\u00edcitas da nossa fal\u00eancia e remontam a outras trag\u00e9dias \u2013 n\u00e3o apenas do Rio, mas do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>Resultado de <strong>ac\u00famulo e cultivo, dois sin\u00f4nimos para a cultura<\/strong>, a mem\u00f3ria n\u00e3o se refaz, tampouco se recupera, ainda que a custo de fortuna. Perd\u00ea-la, no entanto, \u00e9\u00a0tarefa ligeira, como se provou agora.<\/p>\n<p>Em poucos minutos, <strong>as chamas haviam arruinado dois s\u00e9culos<\/strong> de preciosidades.<\/p>\n<p>A respeito do <strong>inc\u00eandio e de seu efeito irrevers\u00edvel para a pesquisa e a ci\u00eancia, <\/strong>a presidente do Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (Iphan), K\u00e1tia Bog\u00e9a, desabafou: \u201c<strong>Luzia est\u00e1 morta<\/strong>\u201d.<\/p>\n<p>A primeira morte foi\u00a0<strong>cerca de 13 mil anos atr\u00e1s<\/strong>, quando tinha entre 20 e 24 anos. Agora, \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o presidencial.<\/p>\n<p>Num pa\u00eds de esquecidos, o museu agonizava,<strong> asfixiado pela falta de verbas<\/strong>, enquanto os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se autoconcediam aumento salarial de 16% duas semanas atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m dir\u00e1 que uma coisa n\u00e3o se liga \u00e0 outra, e talvez tenha alguma raz\u00e3o. Mas, c\u00e1 comigo, entendo que os fatos, <strong>aparentemente isolados<\/strong>, se conectam na mesma fogueira: <strong>a desimport\u00e2ncia com o bem p\u00fablico<\/strong>, seja nosso patrim\u00f4nio material, seja nossa riqueza.<\/p>\n<p>Sintom\u00e1tico, portanto, que o <strong>apagamento de nossa identidade documentada<\/strong> se d\u00ea exatamente no meio de um processo eleitoral, momento no qual a hist\u00f3ria brasileira \u00e9 distorcida, rasurada e reescrita ao gosto de quem tem por of\u00edcio o dever de zelar por ela.<\/p>\n<p>No calor do debate, <strong>logo o tema ser\u00e1 explorado. Vai virar t\u00f3pico obrigat\u00f3rio em sabatinas<\/strong> e entrevistas com candidatos. Para, passada a vota\u00e7\u00e3o e anunciado o vencedor, ser novamente preterido em favor de outras urg\u00eancias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A morte do Museu Nacional n\u00e3o \u00e9 uma surpresa. \u00c9 mais uma trag\u00e9dia entre tantas. 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