{"id":1019,"date":"2009-11-12T06:21:48","date_gmt":"2009-11-12T09:21:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1019"},"modified":"2009-11-12T06:21:48","modified_gmt":"2009-11-12T09:21:48","slug":"cioran-ou-os-domingos-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/11\/12\/cioran-ou-os-domingos-da-vida\/","title":{"rendered":"Cioran ou  Os domingos da vida"},"content":{"rendered":"<p><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1020\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/Brevi\u00e1rio-de-decomposi\u00e7\u00e3o.jpg\" alt=\"Brevi\u00e1rio de decomposi\u00e7\u00e3o\" width=\"280\" height=\"280\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/Brevi\u00e1rio-de-decomposi\u00e7\u00e3o.jpg 280w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/Brevi\u00e1rio-de-decomposi\u00e7\u00e3o-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/Brevi\u00e1rio-de-decomposi\u00e7\u00e3o-120x120.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/>Se as tardes dominicais fossem prolongadas durante meses, o que seria da humanidade, emancipada do suor, livre do peso da primeira maldi\u00e7\u00e3o? A experi\u00eancia valeria a pena. \u00c9 mais do que prov\u00e1vel que o crime se tornasse a \u00fanica divers\u00e3o, que a devassid\u00e3o parecesse candura, o uivo melodia e o esc\u00e1rnio ternura. A sensa\u00e7\u00e3o da imensidade do tempo faria de cada segundo um intoler\u00e1vel supl\u00edcio, um pelot\u00e3o de execu\u00e7\u00e3o capital. Nos cora\u00e7\u00f5es mais imbu\u00eddos de poesia se instalariam um canibalismo estragado e uma tristeza de hiena; os pat\u00edbulos e os carrascos extinguiriam-se de langor; as igrejas e os bord\u00e9is explodiriam de suspiros. <\/em>O universo transformado em tarde de domingo&#8230;<em> \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o do t\u00e9dio \u2013 e o fim do universo&#8230; (&#8230;) Como matar de outra maneira este tempo que j\u00e1 n\u00e3o flui? Nestes domingos intermin\u00e1veis, a <\/em>dor de ser<em> manifesta-se plenamente.<\/em><\/p>\n<p><em>E. M. Cioran<\/em><\/p>\n<p><em>[Cioran, E. M. Brevi\u00e1rio de decomposi\u00e7\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Thomaz Brum. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 1989, p. 30\/31].<\/em><\/p>\n<p>Bastou-me uma frase, e a paix\u00e3o estava consumada. Nunca mais deixei de ler Cioran. Retorno sempre \u00e0s p\u00e1ginas de seus livros com redobrado prazer. E tudo por causa daquela frase. \u00c0s vezes basta uma frase para que sejamos fisgados por um autor e nunca mais deixemos de nos encantar com seus escritos. Na minha descoberta do fil\u00f3sofo romeno Emil M. Cioran (Rasinari, Rom\u00eania, 8\/4\/1911-Paris, 20\/6\/1995) foi assim. Bastou uma frase, aquela frase perfeit\u00edssima, completa, inigual\u00e1vel, que vale por todo um tratado de filosofia, a frase que um dia eu gostaria de ter escrito (desculpem-me os leitores se abuso aqui dos superlativos e dos adjetivos, mas \u00e9 que quando me apaixono n\u00e3o consigo disfar\u00e7ar): \u201cNestes domingos intermin\u00e1veis a <em>dor de ser<\/em> manifesta-se plenamente\u201d. Depois vieram outras, que tamb\u00e9m me provocaram n\u00e3o menos prazer, como aquela em que Cioran indaga: \u201cQue pecado cometeste para nascer, que crime para existir? Tua dor, como teu destino, n\u00e3o tem motivo\u201d.<\/p>\n<p>Primeiro foi a leitura do seu <em>Brevi\u00e1rio de decomposi\u00e7\u00e3o<\/em>. Li-o com o prazer de quem se encontra diante do prato da mais fina e rara iguaria. Li-o com vol\u00fapia, da primeira \u00e0 \u00faltima palavra. Depois fiquei aguardando ansiosamente a pr\u00f3xima tradu\u00e7\u00e3o de um livro seu, torcendo para que Jos\u00e9 Thomaz Brum se decidisse a faz\u00ea-lo. Mas foi necess\u00e1rio esperar, ainda, dois anos. Ent\u00e3o chegou \u00e0s livrarias <em>Silogismos da amargura<\/em>.<\/p>\n<p>L\u00e1 estavam novamente as frases curtas e certeiras, desta feita mais curtas <img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-1021\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/silogismos_da_amargura.jpg\" alt=\"silogismos_da_amargura\" width=\"100\" height=\"150\" \/>ainda, uma vez que se trata de silogismos. Como essa: \u201cA vida, esse mau gosto da mat\u00e9ria\u201d (Cioran, E. M. Silogismos da amargura.Tradu\u00e7\u00e3o de Jos\u00e9 Thomaz Brum. Rio de Janeiro: Rocco, 1991,\u00a0 p. 56). Ou, ainda, o resumo curt\u00edssimo e, talvez por isso mesmo, completo, do autor de Hamlet, sobre o qual Cioran afirmou apenas: \u201cShakespeare: encontro de uma rosa e de um machado&#8230;\u201d (p. 13). E sobre Deus: \u201cSem Deus tudo \u00e9 nada; e Deus? Nada supremo\u201d (p. 49).<\/p>\n<p>Depois continuei lendo \u2013 e o fa\u00e7o ainda, sempre \u2013 Cioran, torcendo\u00a0para que sejam publicadas mais tradu\u00e7\u00f5es de seus livros (algumas outras j\u00e1\u00a0foram editadas). Os dois aqui citados contam-se entre os livros mais lidos, mais cotejados da minha pequena biblioteca. Tenho retornado a eles reiteradas vezes, e o prazer experimentado \u00e9 sempre o mesmo. Cioran \u00e9 como um vinho antigo, que deve ser sorvido em doses comedidas, para que possamos bem apreciar-lhe o sabor sem que nenhuma gota seja desperdi\u00e7ada.\u00a0<\/p>\n<div id=\"attachment_1022\" style=\"width: 438px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1022\" class=\"size-full wp-image-1022\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/ecioran.jpg\" alt=\"E. M. Cioran\" width=\"428\" height=\"270\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/ecioran.jpg 428w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/ecioran-300x189.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/11\/ecioran-120x76.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 428px) 100vw, 428px\" \/><p id=\"caption-attachment-1022\" class=\"wp-caption-text\">E. M. Cioran<\/p><\/div>\n<p>Em 1995, quando a revista Veja noticiou a morte de Cioran, destaquei a p\u00e1gina, mandei emoldur\u00e1-la e dei-lhe um lugar de destaque na parede da minha biblioteca, onde permanece at\u00e9 hoje. Quero concluir com uma cita\u00e7\u00e3o que tenho como uma das afirma\u00e7\u00f5es mais verdadeiras sobre a realidade do ser:<\/p>\n<p>\u201cO ser entregue a si mesmo, sem nenhum preconceito de eleg\u00e2ncia, \u00e9 um monstro; s\u00f3 encontra em si zonas obscuras, onde rondam, iminentes, o terror e a nega\u00e7\u00e3o. Saber, com toda sua vitalidade, que se morre e n\u00e3o poder ocult\u00e1-lo, \u00e9 um ato de barb\u00e1rie. Toda filosofia <em>sincera<\/em> renega os t\u00edtulos da civiliza\u00e7\u00e3o, cuja fun\u00e7\u00e3o consiste em velar nossos segredos e disfar\u00e7\u00e1-los com efeitos rebuscados. Assim, a frivolidade \u00e9 o ant\u00eddoto mais eficaz contra o mal de ser o que se \u00e9: gra\u00e7as a ela iludimos o mundo e dissimulamos a inconveni\u00eancia de nossas profundidades. Sem seus artif\u00edcios, como n\u00e3o envergonhar-se por ter uma alma? Nossas solid\u00f5es \u00e0 flor da pele, que inferno para os outros! Mas \u00e9 sempre para eles, e \u00e0s vezes para n\u00f3s mesmos, que inventamos nossas apar\u00eancias&#8230;\u201d (Brevi\u00e1rio de decomposi\u00e7\u00e3o, p. 17).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se as tardes dominicais fossem prolongadas durante meses, o que seria da humanidade, emancipada do suor, livre do peso da primeira maldi\u00e7\u00e3o? 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