{"id":1070,"date":"2009-11-19T06:21:55","date_gmt":"2009-11-19T09:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1070"},"modified":"2009-11-19T06:21:55","modified_gmt":"2009-11-19T09:21:55","slug":"o-surpreendente-ato-de-escrever","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/11\/19\/o-surpreendente-ato-de-escrever\/","title":{"rendered":"O surpreendente ato de escrever"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">O modo de falar e escrever que n\u00e3o passar\u00e1 jamais de moda \u00e9 aquele da sinceridade.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Emerson<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Emerson, Ralph Waldo. Ensaios: primeira s\u00e9rie. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Graieb e Jos\u00e9 Marcos Mariani de Macedo. \u2013 Rio de Janeiro: Imago Ed., 1994, p. 104].<\/span><\/em><\/p>\n<p>Redigir quase diariamente para este blog tem me levado a v\u00e1rias reflex\u00f5es sobre o ato de escrever. N\u00e3o tenho a escrita por profiss\u00e3o ou hobby. Escrevo por voca\u00e7\u00e3o. Nenhuma palavra calha melhor do que essa para especificar exatamente o que a escrita significa para mim. E se escrevo por voca\u00e7\u00e3o, ao escrever estou inteiro naquilo que escrevo. Vem-me \u00e0 mente, a prop\u00f3sito, uma frase muito conhecida dita certa vez por Janis Joplin: \u201cEu canto com minha voz, com meu corpo, com meu sexo. Eu canto toda\u201d. N\u00e3o corro qualquer risco de exagero ou falseamento se, parafraseando essa cantora que foi um dos \u00edcones da gera\u00e7\u00e3o hippie, afirmar que quando escrevo, escrevo com meu corpo inteiro. Eu estou todo naquilo que escrevo, e o ato de escrever, n\u00e3o raro, provoca em mim crispa\u00e7\u00f5es que se fazem sentir no corpo.<\/p>\n<p>Em assim sendo, me vejo frequentemente assolado por quest\u00f5es nem sempre f\u00e1ceis de responder. Uma delas, provavelmente a mais importante, diz respeito aos assuntos sobre os quais escrevo. Sei que no ato da escrita eu me revelo. O que escrevo \u00e9 carne e sangue, \u00e9 a minha vida em movimento. N\u00e3o dou aten\u00e7\u00e3o a elucubra\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas que n\u00e3o t\u00eam uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. N\u00e3o sei teorizar por teorizar. Quando me sinto fisgado por um autor \u00e9 porque, seguramente, o que ele diz faz eco em minha vida, na medida em que sinto que ao falar atrav\u00e9s da escrita, ele fala de mim ou para mim. E \u00e9 assim que almejo ser tamb\u00e9m para uma ou outra pessoa que se d\u00e1 ao trabalho de despender um pouco do seu tempo lendo os meus textos.<\/p>\n<p>Muitas vezes\u00a0tenho me flagrado em reflex\u00f5es do tipo \u201cser\u00e1 que algu\u00e9m l\u00ea estes textos?\u201d, ou \u201cser\u00e1 que o que escrevo tem algum valor para algu\u00e9m?\u201d Na verdade, escrevo tamb\u00e9m por imposi\u00e7\u00e3o. Digo imposi\u00e7\u00e3o porque, por menos que eu queira, me sinto constrangido a escrever. Por algum motivo eu preciso expressar o que penso, e a forma de faz\u00ea-lo, no meu caso, \u00e9 escrevendo. Uma vez que, de certa maneira, h\u00e1 esse constrangimento a escrever, talvez n\u00e3o devesse me \u00a0importar com o fato de ser ou n\u00e3o lido, ou com a quest\u00e3o da utilidade do que escrevo.<\/p>\n<p>Mas o fato \u00e9 que me sinto respons\u00e1vel pelas palavras postas em forma de texto. Elas s\u00e3o um pouco \u2013 ou, talvez, muito \u2013 a express\u00e3o da minha identidade, do meu ser no mundo. Corol\u00e1rio disso, e em conson\u00e2ncia com a premissa emersoniana, tento ser o mais sincero poss\u00edvel naquilo que expresso em meus textos. Boa parte da minha vida a tenho passado entre livros e autores. Os livros s\u00e3o os filtros atrav\u00e9s dos quais eu vejo a vida. Talvez exatamente por este motivo, por me sentir t\u00e3o devedor da leitura, tenha tanto cuidado e seja t\u00e3o exigente quando se trata de ser, eu pr\u00f3prio, fonte de leitura para outros. \u00a0<\/p>\n<p>Mas at\u00e9 onde \u00e9 poss\u00edvel a uma pessoa ser sincera naquilo que escreve? A mente nos prega pe\u00e7as, o auto-engano assoma a todo instante como uma possibilidade e o inconsciente \u00e9 poderoso demais para se deixar dominar facilmente. Paralelo a isso, h\u00e1 que lembrar que o ato de escrever tem uma caracter\u00edstica que jamais poder\u00e1 ser olvidada: \u00e0s vezes se come\u00e7a a escrever um texto ancorado em determinada id\u00e9ia para, logo mais, nos darmos conta de que ele ganhou rumos que ignor\u00e1vamos totalmente quando do in\u00edcio. \u00c9 como se a escrita seguisse uma trajet\u00f3ria pr\u00f3pria, sendo o escritor apenas uma esp\u00e9cie de meio atrav\u00e9s da qual a palavra se torna texto. \u00c0s vezes experimenta-se at\u00e9 um certo estranhamento, lendo tempos depois um texto que escrevemos e no qual quase j\u00e1 n\u00e3o conseguimos reconhecer nossa autoria. O ato de escrever muitas vezes surpreende, mais a quem escreve do que a quem l\u00ea.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O modo de falar e escrever que n\u00e3o passar\u00e1 jamais de moda \u00e9 aquele da sinceridade. Emerson [Emerson, Ralph Waldo. Ensaios: primeira s\u00e9rie. 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