{"id":112,"date":"2009-07-15T09:26:48","date_gmt":"2009-07-15T14:26:48","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=112"},"modified":"2009-07-15T09:26:48","modified_gmt":"2009-07-15T14:26:48","slug":"salvador-dali-ou-a-subversao-da-loucura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/07\/15\/salvador-dali-ou-a-subversao-da-loucura\/","title":{"rendered":"Salvador Dali ou A subvers\u00e3o da loucura"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000080\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-113\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/2009\/07\/diario20genio.jpg\" alt=\"diario20genio\" width=\"130\" height=\"136\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/07\/diario20genio.jpg 130w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/07\/diario20genio-120x126.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 130px) 100vw, 130px\" \/>Para escrever o que vai se seguir, estou usando pela primeira vez sapatos de verniz que nunca consegui utilizar durante muito tempo, porque s\u00e3o horrivelmente apertados. Em geral, cal\u00e7o-os exatamente antes de come\u00e7ar uma confer\u00eancia. A press\u00e3o dolorosa que eles exercem em meus p\u00e9s acentua ao m\u00e1ximo minhas capacidades orat\u00f3rias. Esta dor fina e massacrante faz com que eu cante como um rouxinol ou como um desses cantores napolitanos que usam, eles tamb\u00e9m, sapatos apertados demais. A vontade f\u00edsica visceral e a tortura penetrante provocada por meus sapatos de verniz obrigam-me a fazer jorrar das palavras verdades condensadas, sublimes, generalizadas pela suprema inquisi\u00e7\u00e3o da dor suportada por meus p\u00e9s. Assim, cal\u00e7o meus sapatos e come\u00e7o a escrever masoquistamente e sem precipita\u00e7\u00e3o toda a verdade sobre minha exclus\u00e3o do grupo surrealista.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><em>Salvador Dali<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\">[Di\u00e1rio de um G\u00eanio. Trad. Lu\u00eds Marques e Martha Gambini. &#8211; Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989, p. 19.]<\/span><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>Sua express\u00e3o de espanto expressa pelos olhos arregalados faz lembrar um lun\u00e1tico num acesso de f\u00faria. A completar a estranheza da figura, um bigode fino com as extremidades espetadas para cima sempre prontas para, segundo ele, &#8220;captar emana\u00e7\u00f5es marcianas&#8221;. Certamente n\u00e3o ser\u00e1 dif\u00edcil identificar a figura a que se refere a descri\u00e7\u00e3o. Trata-se do pintor catal\u00e3o Salvador Dali. Nascido em Figueras, na Espanha, em 11 de maio de 1904, Dali faleceu na mesma cidade em 23 de janeiro de 1989, aos 84 anos de idade, deixando uma obra que se inscreve entre as mais singulares e inquietantes de toda a hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n<p>No dia 1.\u00ba de maio\u00a0 de 1953, escrevia Dali: &#8220;H\u00e1 um m\u00eas estamos em Port Lligat, e hoje, como no \u00faltimo ano, resolvo retomar meu di\u00e1rio. Inauguro o 1.\u00ba de maio daliniano trabalhando freneticamente, impulsionado por uma doce ang\u00fastia criativa. Meus bigodes nunca foram t\u00e3o longos. Todo o meu corpo est\u00e1 fechado em minhas roupas. Somente meus bigodes saem para fora delas&#8221; (p. 81). Essas palavras est\u00e3o registradas no &#8220;Di\u00e1rio de um G\u00eanio&#8221;, livro publicado por Salvador Dali em 1964.<\/p>\n<p>Tenho lido este livro desde que o adquiri, h\u00e1 nove anos, sempre com renovado prazer. Quando quero dar boas gargalhadas, retomo a leitura de alguns trechos do livro, como aquele que pus em ep\u00edgrafe a este texto, ou um outro, em que o pintor catal\u00e3o diz:<\/p>\n<p>&#8220;Mais uma vez, nesta manh\u00e3, enquanto estava no banheiro, fui tocado por uma intui\u00e7\u00e3o genial. Ali\u00e1s, minhas fezes foram incrivelmente singulares, fluidas, inodoras. Estava preocupado com o problema da longevidade humana, por causa de um octogen\u00e1rio que trabalha sobre esta quest\u00e3o e que acaba de se lan\u00e7ar no Sena em um p\u00e1ra-quedas vermelho. Tenho a intui\u00e7\u00e3o de que, se consegu\u00edssemos tornar o excremento humano t\u00e3o fluido quanto o mel que escorre, a vida do homem alongar-se-ia, pois o excremento (segundo Paracelso) \u00e9 o fio da vida, e cada interrup\u00e7\u00e3o ou peido \u00e9 apenas um minuto da vida que foge&#8221; (p. 63).\u00a0<\/p>\n<p>O que faz de Dali ser para mim uma figura apaixonante \u00e9 a capacidade revelada ao longo de sua vida inteira de transformar sua loucura, seus desvarios, sua megalomania, em arte. Ele pr\u00f3prio, no Di\u00e1rio, se declara hist\u00e9rico. Embora, em certa ocasi\u00e3o, afirme: &#8220;A diferen\u00e7a entre mim e um louco \u00e9 que eu n\u00e3o sou louco&#8221;.<\/p>\n<p>Suas pinturas s\u00e3o, de fato, geniais, especialmente pela subvers\u00e3o do cotidiano. Na pintura de Salvador Dali uma coisa nunca \u00e9 que o parece. Tudo \u00e9 mutante e mut\u00e1vel. \u00c9 por isso que, para melhor sentir o &#8220;Di\u00e1rio de um G\u00eanio&#8221; \u00e9 necess\u00e1rio, pelo menos, alguma familiaridade com suas pinturas. A um olhar superficial, a maioria delas parecer\u00e3o absurdas. Mas, o que \u00e9 absurdo? Absurda \u00e9 a pr\u00f3pria vida.<\/p>\n<p>A genialidade de Dali ancora-se, entre outras coisas, na habilidade em conseguir conferir um sentido ao absurdo, atrav\u00e9s da subvers\u00e3o das formas. Paralelo a isso, ele encontrou uma estrat\u00e9gia para atribuir um sentido aos acontecimentos aparentemente fortuitos, ao estabelecer conex\u00f5es entre os fatos da vida.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito, afirma Jorge Coli numa das orelhas do &#8220;Di\u00e1rio de um G\u00eanio&#8221;: &#8220;Dali contava, ainda, com coincid\u00eancias engendradas por um acaso providencial e miraculoso, que lhe forneciam sinais de coer\u00eancia no absurdo do mundo, dando a si pr\u00f3prio a afirma\u00e7\u00e3o da sua genialidade&#8221;.\u00a0<\/p>\n<p>Quanto a esse aspecto, de minha parte nada preciso dizer, bastando lembrar o nome que atribu\u00ed a este blog. Os supostos acasos n\u00e3o s\u00e3o acasos. Tudo que acontece a uma pessoa est\u00e1 conectado e tende para a realiza\u00e7\u00e3o de um objetivo, embora nem sempre suficientemente claro ou expl\u00edcito.<\/p>\n<p>No Pr\u00f3logo do Di\u00e1rio de um G\u00eanio, escreveu Dali: &#8220;O presente livro provar\u00e1 que a vida cotidiana de um g\u00eanio, seu sono, sua digest\u00e3o, seus \u00eaxtases, suas unhas, seus resfriados, seu sangue, sua vida e sua morte s\u00e3o essencialmente diferentes do resto da humanidade. Portanto, este livro \u00fanico \u00e9 o primeiro di\u00e1rio escrito por um g\u00eanio&#8221;. E adverte, a seguir: &#8220;\u00c9 claro que nem tudo ser\u00e1 dito hoje. Haver\u00e1 p\u00e1ginas em branco neste di\u00e1rio que cobre os anos de 52 a 63 de minha vida re-secreta. A meu pedido e de acordo com meu editor, alguns anos e alguns dias devem, por enquanto, permanecer in\u00e9ditos. Os regimes democr\u00e1ticos n\u00e3o est\u00e3o aptos a receber as revela\u00e7\u00f5es fulminantes \u00e0s quais estou habituado&#8221; (p. 15).\u00a0 \u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Leiam o &#8220;Di\u00e1rio de um G\u00eanio&#8221; e deliciem-se com as tiradas maravilhosas e hilariantes deste louco genial, Salvador Dali.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para escrever o que vai se seguir, estou usando pela primeira vez sapatos de verniz que nunca consegui utilizar durante muito tempo, porque s\u00e3o horrivelmente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-112","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=112"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/112\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}