{"id":1150,"date":"2009-11-27T22:21:41","date_gmt":"2009-11-28T01:21:41","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1150"},"modified":"2009-11-27T22:21:41","modified_gmt":"2009-11-28T01:21:41","slug":"uma-certeza-estranha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/11\/27\/uma-certeza-estranha\/","title":{"rendered":"Uma certeza estranha"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Eis o motivo pelo qual essas coisas n\u00e3o devem ser escritas nem contadas, porque \u00e9 imposs\u00edvel que as entenda sen\u00e3o quem as tiver experimentado.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Santa Teresa d\u2019\u00c1vila<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Teresa de Jesus. Obras Completas. Texto estabelecido por Fr. Tomas Alvarez, O.C.D. Dire\u00e7\u00e3o Pe. Gabriel C. Galache, SJ. Tradu\u00e7\u00e3o de Adail Ubajara Sobral e outros. \u2013 S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Carmelitanas: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 1995, Rela\u00e7\u00f5es, 5,17; p. 803].<\/span><\/em><\/p>\n<p>Ler Santa Teresa \u00e9, de fato, um desafio \u00e0 raz\u00e3o. Em que pese essa conclus\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 tamb\u00e9m fato que a Doutora M\u00edstica convence porque reconhecemos nos seus escritos a for\u00e7a de quem sabe n\u00e3o porque ouviu falar ou porque tenha lido em outros autores, mas porque experimentou em si a manifesta\u00e7\u00e3o concreta do indiz\u00edvel.<\/p>\n<p>Mas, como dizer o indiz\u00edvel, com que palavras, onde encontrar a linguagem adequada para falar do inef\u00e1vel? Os textos de Santa Teresa s\u00e3o uma infind\u00e1vel luta por encontrar as palavras adequadas para falar do que\u00a0 n\u00e3o pode ser falado. Ela atinge, se assim me \u00e9 l\u00edcito falar, a dimens\u00e3o \u00faltima da linguagem, aquele ponto al\u00e9m do qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ir. Resta-lhe como \u00faltima alternativa apelar para a met\u00e1fora, para as imagens, para as compara\u00e7\u00f5es. Nem sempre consegue seu intento. Os confessores a acossam a ponto de quase enlouquecerem-na, ante a impossibilidade de compreender os arroubos da Santa.<\/p>\n<p>Ao longo de sua atribulada busca por algu\u00e9m que a compreenda, ter\u00e1 que passar por v\u00e1rios confessores. Um deles reclamar\u00e1 a um confrade da quantidade de livros que teve que ler na tentativa de encontrar poss\u00edveis explica\u00e7\u00f5es para o que acontecia com Teresa. O al\u00edvio, um refrig\u00e9rio para sua alma, vir\u00e1 atrav\u00e9s do encontro com o franciscano Pedro de Alc\u00e2ntara. Ali\u00e1s, pouca gente sabe, mas este santo foi o primeiro padroeiro do Brasil. Oportunamente escreverei sobre essa figura extraordin\u00e1ria que se tornou amigo \u00edntimo de Santa Teresa. Na verdade, tal era a intimidade entre os dois que chegaram a se comunicar estando ambos a quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia um do outro. Na figura de Pedro de Alc\u00e2ntara a monja carmelita encontrou algu\u00e9m que fazia eco para suas palavras, pois partilhava dos mesmos arroubos m\u00edsticos, consequ\u00eancia de uma exist\u00eancia absolutamente voltada para Deus.<\/p>\n<p>Nas <em>Rela\u00e7\u00f5es<\/em>, um relato autobiogr\u00e1fico resumido da vida de Santa Teresa, encontram-se alguns trechos em que ela maravilhosamente se esfor\u00e7a por falar de suas experi\u00eancias m\u00edsticas, como o que citamos a seguir, em que tenta explicar algumas de suas vis\u00f5es. Embora angustiada por n\u00e3o encontrar palavras que d\u00eaem conta da realidade da experi\u00eancia, ela n\u00e3o duvida de sua veracidade, tendo, por isso, que lan\u00e7ar m\u00e3o da curiosa express\u00e3o <em>certeza estranha<\/em>:<\/p>\n<p>\u201cAs Pessoas vejo claramente serem distintas, tal como via ontem Vossa Merc\u00ea e o Provincial conversando; a diferen\u00e7a \u00e9 que n\u00e3o vejo nada, nem ou\u00e7o, como j\u00e1 disse a Vossa Merc\u00ea; mas \u00e9 com uma certeza estranha, e, embora n\u00e3o vejam os olhos da alma, quando falta aquela presen\u00e7a, logo se v\u00ea que falta. Como \u00e9 isso n\u00e3o sei, mas sei muito bem que n\u00e3o \u00e9 imagina\u00e7\u00e3o; porque, embora depois me desfa\u00e7a para torn\u00e1-lo a representar, n\u00e3o posso, mesmo j\u00e1 o tendo experimentado. E acontece a mesma coisa com tudo de que falo aqui, pelo que posso entender, j\u00e1 que, em tantos anos, tem-se podido verificar bem para diz\u00ea-lo com essa certeza\u201d (Rela\u00e7\u00f5es, 5,21; p. 803).<\/p>\n<p>\u00c9, tamb\u00e9m, uma estranha certeza na certeza da veracidade das palavras de Santa Teresa que me t\u00eaem sustentado ao longo dos anos e, por que n\u00e3o dizer, ao longo dos \u00faltimos meses, cada vez que vacilo em escrever sobre determinados assuntos neste blog.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eis o motivo pelo qual essas coisas n\u00e3o devem ser escritas nem contadas, porque \u00e9 imposs\u00edvel que as entenda sen\u00e3o quem as tiver experimentado. 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