{"id":1178,"date":"2009-12-01T06:21:19","date_gmt":"2009-12-01T09:21:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1178"},"modified":"2009-12-01T06:21:19","modified_gmt":"2009-12-01T09:21:19","slug":"a-amizade-segundo-emerson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/12\/01\/a-amizade-segundo-emerson\/","title":{"rendered":"A amizade segundo Emerson"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Meus amigos a mim vieram sem que eu os buscasse. O grande Deus a mim os deu. Pelo mais antigo direito, pela divina afinidade da virtude consigo mesma, eu os encontro, ou melhor, n\u00e3o eu, mas a Divindade que em mim e neles habita suprime e faz rid\u00edculas as muralhas espessas do car\u00e1ter individual \u2013 e das rela\u00e7\u00f5es, da idade, do sexo, das circunst\u00e2ncias, com as quais ele normalmente conspira -, tornando assim um o que era m\u00faltiplo.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Ralph Waldo Emerson<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[ Emerson, Ralph Waldo. Ensaios: primeira s\u00e9rie. Tradu\u00e7\u00e3o de Carlos Graieb e Jos\u00e9 Marcos Mariani de Macedo. \u2013 Rio de Janeiro: Imago Ed., 1994, p. 133].<\/span><\/em><\/p>\n<p>Quanto tenho aprendido com Emerson, o \u201cS\u00e1bio de Concord\u201d! Os escritos deste grande Mestre americano s\u00e3o, para mim, m\u00e1ximas de grande sabedoria, caminho seguro pelo qual se pode trafegar na certeza de que n\u00e3o estamos indo por trilha enganosa. Vez por outra gosto de retornar \u00e0 leitura de seus textos. \u00c0s vezes releio alguns trechos, outras, releio textos inteiros. Emerson sempre me faz pensar e me faz retornar a cren\u00e7a na humanidade cada vez que esta sofre algum abalo.<\/p>\n<p>Tenho o ensaio <em>Amizade<\/em>\u00a0 como um de seus mais belos e inspirados escritos. O texto poderia ser resumido na frase \u201cFeliz \u00e9 a casa que abriga um amigo!\u201d (p. 137), que sintetiza de forma perfeita a alta conta em que o autor tem a amizade. Segundo a sua concep\u00e7\u00e3o, as amizades aut\u00eanticas carecem de que as busquemos, pelo simples fato de que elas naturalmente acontecem. Como? Emerson \u00e9 tribut\u00e1rio de uma filosofia de vida que acredita que as afinidades t\u00eam a prerrogativa de atrair os semelhantes. Assim, onde h\u00e1 uma amizade verdadeira realiza-se a\u00ed n\u00e3o mais que um encontro de semelhantes, que, por uma conflu\u00eancia de fatos, por uma conspira\u00e7\u00e3o Divina, como\u00a0diria ele, leva duas vidas a se cruzarem e estabelecerem um encontro.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o se pense que \u00e9 f\u00e1cil manter uma amizade verdadeira. Afirma Emerson: \u201cN\u00e3o desejo tratar amizades com suavidade, mas com a mais \u00e1spera coragem. Quando elas s\u00e3o reais, n\u00e3o s\u00e3o como l\u00e2minas de vidro ou esculturas de gelo, mas a coisa mais s\u00f3lida que conhecemos\u201d (p. 137).\u00a0 N\u00e3o raro, as amizades s\u00e3o provadas e, se n\u00e3o resistem, \u00e9, muito provavelmente, porque n\u00e3o passavam de rela\u00e7\u00f5es de conveni\u00eancia. Esses casos seriam n\u00e3o mais que algo como uma prostitui\u00e7\u00e3o da amizade: \u201cOdeio a prostitui\u00e7\u00e3o do nome amizade para designar alian\u00e7as convenientes e mundanas\u201d (p. 140). Mas, para tanto, necess\u00e1rio se faz que quem se pretenda amigo de algu\u00e9m seja, antes de tudo, aut\u00eantico. Querer conhecer o outro, penetrar a intimidade do outro, pressup\u00f5e o conhecimento de si: \u201cDevemos possuir a n\u00f3s mesmos antes de possuir a um outro\u201d (p. 143). S\u00f3 ent\u00e3o algu\u00e9m poder\u00e1 se considerar apto a se fazer amigo e, por via de consequ\u00eancia, ter amigos: \u201cA \u00fanica recompensa da virtude \u00e9 a virtude; o \u00fanico modo de ter amigos \u00e9 ser um deles\u201d (p. 144).<\/p>\n<p>Emerson figura na galeria daqueles grandes vultos, como Mahatma Gandhi, que sempre demonstraram uma grande f\u00e9 na humanidade. Assim \u00e9 que, para al\u00e9m das rela\u00e7\u00f5es de amizade, que requerem uma maior intimidade entre os pares, o simples fato de sermos semelhantes j\u00e1 \u00e9 suficiente para despertar em cada um de n\u00f3s alguma sensa\u00e7\u00e3o de afinidade:\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>\u201cTemos maior dose de bondade do que se costuma dizer. A despeito de todo ego\u00edsmo que enregela o mundo como o vento leste, a inteira fam\u00edlia humana \u00e9 banhada em um elemento de amor como em fino \u00e9ter. Quantas pessoas com as quais mal falamos encontramos em casas, pessoas que no entanto honramos, e que nos honram! Quantas vemos nas ruas, com as quais nos sentamos na igreja, em cuja companhia, muito embora em sil\u00eancio, nos comprazemos! Lede a linguagem desses olhares errantes. O cora\u00e7\u00e3o compreende\u201d (p. 131).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Meus amigos a mim vieram sem que eu os buscasse. O grande Deus a mim os deu. 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