{"id":1183,"date":"2009-12-02T06:21:28","date_gmt":"2009-12-02T09:21:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1183"},"modified":"2009-12-02T06:21:28","modified_gmt":"2009-12-02T09:21:28","slug":"flexibilidade-e-inventividade-do-povo-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/12\/02\/flexibilidade-e-inventividade-do-povo-brasileiro\/","title":{"rendered":"Flexibilidade e inventividade do povo brasileiro"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">O brasileiro ama o inconsciente. H\u00e1 povos que detestam. O brasileiro sabe que no fundo as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem como se apresentam, que h\u00e1 sempre outra janela, outro enfoque, e que com o desejo n\u00e3o se faz ortopedia. A r\u00e9gua e o compasso da vida brasileira v\u00eam de sua m\u00fasica e n\u00e3o da engenharia. Um acerto, um jeitinho s\u00e3o sempre poss\u00edveis. O brasileiro \u00e9 s\u00e9rio demais para se tomar muito a s\u00e9rio. O Brasil \u00e9 um pa\u00eds propicio \u00e0 psican\u00e1lise, pois esta s\u00f3 se desenvolve em comunidades que suportam questionar as solu\u00e7\u00f5es para o desejo humano, pondo em d\u00favida modelos padronizados. A psican\u00e1lise se d\u00e1 muito mal em pa\u00edses totalit\u00e1rios \u2013 militar, pol\u00edtica ou moralmente -, que estabelecem padr\u00f5es coletivos de comportamento, onde todos gostam do mesmo sandu\u00edche e vaiam o mesmo filme.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Jorge Forbes<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Forbes, Jorge. Voc\u00ea quer o que deseja? S\u00e3o Paulo: Best Seller, 2003, p. 49].<\/span><\/em><\/p>\n<p>Estava relendo alguns trechos do livro do psicanalista Jorge Forbes, <em>Voc\u00ea quer o que deseja?<\/em>, quando me deparei com uma parte que o autor intitulou \u201cSigmund Freud no Brasil\u201d. Frequentemente retorno a este livro para reler alguns trechos. Geralmente adoto o seguinte roteiro na leitura de um livro: primeiro, leio a contracapa e as orelhas; depois, examino o \u00edndice e leio, quando existe, os dados biogr\u00e1ficos do autor; a seguir, o folheio p\u00e1gina por p\u00e1gina at\u00e9 a \u00faltima; passo, ent\u00e3o, \u00e0 leitura, grifando e assinalando trechos, valendo-me, para tanto, de v\u00e1rios s\u00edmbolos que vou respingando \u00e0 margem das p\u00e1ginas; conclu\u00edda a leitura, esque\u00e7o o livro por algum tempo; por fim, revejo as partes grifadas e\/ou assinaladas.<\/p>\n<p>Em alguns casos, o livro vai para uma prateleira especial: s\u00e3o aqueles a que retorno com certa frequ\u00eancia. Entre estes se encontram, por exemplo, os <em>Ensaios<\/em>, de Montaigne; os <em>Ensaios<\/em>, de Emerson; a <em>Autobiografia de um Iogue<\/em>, de Paramahansa Yogananda; <em>Silogismos da Amargura <\/em>e <em>Brevi\u00e1rio de decomposi\u00e7\u00e3o<\/em>, de E. M. Cioran; o <em>Livro do Desassossego<\/em>, de Fernando Pessoa; <em>Minha vida<\/em> <em>e minhas experi\u00eancias com a verdade<\/em>, de Mahatma Gandhi; <em>\u00c1gua viva<\/em> e <em>A ma\u00e7\u00e3 no escuro<\/em>, de Clarice Lispector; <em>Como ser feliz sem dar certo e outras hist\u00f3rias de salva\u00e7\u00e3o pela bobagem<\/em>, de Carlos Moraes, entre outros. Atribu\u00ed at\u00e9 uma denomina\u00e7\u00e3o a estes livros, chamo-os \u201cLivros-talism\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>Pois bem, estava relendo alguns trechos do livro de Jorge Forbes, quando me deparei com uma afirma\u00e7\u00e3o que ele faz acerca da rela\u00e7\u00e3o do Brasil com a psican\u00e1lise, em uma das partes do livro a qual tem por t\u00edtulo \u201cSigmund Freud no Brasil\u201d. Segundo o autor, h\u00e1 muita afinidade entre o Brasil e a psican\u00e1lise. Forbes atribui essa afinidade a dois aspectos peculiares tanto \u00e0 psican\u00e1lise quanto \u00e0 nossa brasilidade.<\/p>\n<p>Escreve Forbes: \u201cFreud est\u00e1 presente em v\u00e1rios segmentos da vida intelectual, cient\u00edfica e art\u00edstica do Brasil. Podemos medir essa presen\u00e7a por meio de dois aspectos distintos, embora complementares, de sua obra: as determina\u00e7\u00f5es de pensamentos inconscientes em qualquer produ\u00e7\u00e3o humana e a impossibilidade de obter garantia nas escolhas \u2013 deve-se incluir o risco em qualquer c\u00e1lculo, mesmo no mais bem-planejado\u201d (p. 49).<\/p>\n<p>Considerar as determina\u00e7\u00f5es inconscientes como um fato que, sob diversos aspectos, conduz nossas decis\u00f5es, \u00e9 parte do jeito de ser brasileiro, pois \u201cO brasileiro sabe que no fundo as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem como se apresentam, que h\u00e1 sempre outra janela, outro enfoque, (&#8230;)\u201d (p. 49). Essa caracter\u00edstica faz de n\u00f3s um povo que tem na flexibilidade uma de suas caracter\u00edsticas mais peculiares e, ao mesmo tempo, mais virtuosas.<\/p>\n<p>Entra em cena o segundo aspecto apontado por Forbes, que ele chama de \u201cc\u00e1lculo incompleto\u201d, o qual \u201caponta ao que se chama Real, o limite da significa\u00e7\u00e3o, a pedra no meio do caminho, diante da qual se deve inventar uma solu\u00e7\u00e3o criativa. N\u00e3o d\u00e1 para simplesmente atir\u00e1-la, porque se corre o risco de ir junto\u201d (p. 50). A flexibilidade peculiar ao nosso povo favorece, ao mesmo tempo, a inventividade, outra caracter\u00edstica muito nossa, capaz de levar-nos a driblar (o uso da palavra, aqui, n\u00e3o foi casual, mas proposital, os leitores devem ter intu\u00eddo por que) as situa\u00e7\u00f5es mais periclitantes: \u201cA desconfian\u00e7a do povo brasileiro em rela\u00e7\u00e3o aos padr\u00f5es r\u00edgidos de comportamento favorece a sua inventividade ante os piores abismos\u201d (p. 34).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O brasileiro ama o inconsciente. H\u00e1 povos que detestam. 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