{"id":1216,"date":"2009-12-07T06:21:06","date_gmt":"2009-12-07T09:21:06","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1216"},"modified":"2009-12-07T06:21:06","modified_gmt":"2009-12-07T09:21:06","slug":"a-ideia-e-o-texto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/12\/07\/a-ideia-e-o-texto\/","title":{"rendered":"A id\u00e9ia e o texto"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Sou pregui\u00e7oso por defini\u00e7\u00e3o. Dou prefer\u00eancia \u00e0 fic\u00e7\u00e3o, porque \u00e9 s\u00f3 abrir as comportas&#8230; Consultar, pesquisar, revolver arquivos e livros n\u00e3o vai com o meu santo. N\u00e3o tenho sa\u00fade&#8230;<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Or\u00edgenes Lessa<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Entrevista concedida a Edla van Steen. Transcrita em : Steen, Edla van. Viver e escrever: volume 1. 2\u00aa. ed. Porto Alegre, RS: L&amp;PM, 2008, p. 31].<\/span><\/em><\/p>\n<p>Raramente escrevo fic\u00e7\u00e3o. Na verdade, eu n\u00e3o sou um ficcionista, penso que jamais seria. Minha mat\u00e9ria s\u00e3o os livros, e, portanto, o que outros escreveram. Os leitores que t\u00eam lido os textos publicados neste blog sabem que em quase cem por cento dos casos parto sempre de uma cita\u00e7\u00e3o, de um livro ou de uma id\u00e9ia tomada de empr\u00e9stimo a um outro autor. Este texto, inclusive, \u00e9 um exemplo disso. Tive a id\u00e9ia de escrev\u00ea-lo ao ler uma entrevista do escritor Or\u00edgenes Lessa concedida a Edla van Steen e publicada num dos volumes de sua trilogia <em>Viver e escrever<\/em>.<\/p>\n<p>Mas escrever partindo do texto de um outro autor d\u00e1 trabalho. Eu diria que, em parte, a liberdade do escritor fica mais restrita. Quando escrevo sobre um determinado autor ou livro, por mais que me sinta livre para expressar o meu ponto de vista sobre o seu pensamento, ainda assim me obrigo a ser fiel ao que ele falou,\u00a0\u00a0quando interpreto ou comento suas id\u00e9ias, mister nem sempre f\u00e1cil.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00e3o raras as vezes em que tem me ocorrido escrever um texto sobre determinado autor e, apenas come\u00e7ado o projeto, ele tem que ser interrompido pela necessidade de recorrer a fontes diversas. Come\u00e7o, ent\u00e3o, a empilhar livros e mais livros sobre o bir\u00f4 e, quando menos espero, a pilha j\u00e1 atingiu um montante tal que se torna imposs\u00edvel cotejar todas as fontes. N\u00e3o foram poucas as vezes em que o projeto acabou sendo abortado, pela impossibilidade de examinar todas as fontes requeridas. Isso ocorre principalmente devido \u00e0 exiguidade do espa\u00e7o dispon\u00edvel para o texto.<\/p>\n<p>Quando me dispus a escrever para este blog, assumi comigo mesmo o compromisso de limitar os textos postados a uma p\u00e1gina do Word. Muitas vezes n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil dar conta da profundidade do material comentado em espa\u00e7o t\u00e3o restrito. N\u00e3o posso correr o risco de tornar razo e superficial o que, n\u00e3o raro, \u00e9 profundo e complexo. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es tenho optado por um subterf\u00fagio que, na falta de palavra mais adequada, chamarei <em>recorte<\/em>: tomo uma parte do pensamento do autor, um livro ou um texto e o exploro. A estrat\u00e9gia, no entanto, nem sempre funciona. H\u00e1 que ter responsabilidade pelo que se escreve, especialmente quando se toma como refer\u00eancia o que outros escreveram.<\/p>\n<p>A par dessa dificuldade, uma outra deve ser mencionada: n\u00e3o tenho muita afinidade com a fic\u00e7\u00e3o. A prop\u00f3sito, devo admitir que para mim \u00e9 dif\u00edcil, inclusive, ler ficcionistas. S\u00e3o poucos os ficcionistas a cuja leitura me dediquei em profundidade. Quando digo profundidade, estou me referindo a ler de forma intensa, at\u00e9 esgotar a obra do autor, como fiz com Clarice Lispector e Machado de Assis. \u00c9 dif\u00edcil para mim ler por obriga\u00e7\u00e3o. No caso desses dois autores, cada nova leitura era um mundo de novas descobertas. Isso, por\u00e9m, nem sempre acontece. Tem autores que, por mais que eu tente, n\u00e3o consigo avan\u00e7ar na leitura de sua obra. Alguma coisa fica travada; nesse caso, n\u00e3o adianta insistir, o melhor \u00e9 desistir. A leitura tem que ser, antes de tudo, prazerosa. Ler \u00e9 o tipo de coisa que n\u00e3o se pode, nem tampouco se deve, fazer por obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Isso posto, o desafio que tenho me colocado desde que comecei a escrever os textos para este blog \u00e9 o seguinte: encontrar formas de dar conta de um texto claro e conciso, sem resvalar para a superficialidade, especialmente quando o assunto abordado n\u00e3o o permite. Nem sempre tenho conseguido meu intento, evidentemente.\u00a0 Em alguns casos, tive que desistir de um texto, j\u00e1 em andamento.\u00a0Mas se ver obrigado a\u00a0desistir de uma id\u00e9ia que se sabe que daria um bom texto n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Em nome da coer\u00eancia, por\u00e9m, pelo menos de uma relativa coer\u00eancia, h\u00e1 casos em que\u00a0foi preciso faz\u00ea-lo, sob pena de me sentir traindo a mim mesmo e, especialmente, \u00e0queles cujas id\u00e9ias me serviram de esteio, o que, para mim, \u00e9 inadmiss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sou pregui\u00e7oso por defini\u00e7\u00e3o. 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