{"id":1234,"date":"2009-12-14T06:21:47","date_gmt":"2009-12-14T09:21:47","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1234"},"modified":"2009-12-14T06:21:47","modified_gmt":"2009-12-14T09:21:47","slug":"o-doutor-mistico-sao-joao-da-cruz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/12\/14\/o-doutor-mistico-sao-joao-da-cruz\/","title":{"rendered":"O Doutor M\u00edstico S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000080\"><em><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1236\" alt=\"joao_da_cruz\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/joao_da_cruz.jpg\" width=\"198\" height=\"286\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/joao_da_cruz.jpg 198w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/joao_da_cruz-120x173.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 198px) 100vw, 198px\" \/>Os <\/em>hippies<em> da d\u00e9cada de 1970 descobriram no m\u00edstico espanhol um grande mestre de ioga, proposto como tal por um fil\u00f3sofo hindu. Os jovens procuraram nos escritos desse santo a \u201cerva\u201d e as t\u00e9cnicas refinadas que teriam provocado aquelas extraordin\u00e1rias \u201cviagens\u201d da mente. Contudo, em S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz a experi\u00eancia m\u00edstica n\u00e3o se traduzia em um vago imergir no abismo da divindade, pois que sua l\u00edmpida f\u00e9 fundava-se na Encarna\u00e7\u00e3o de Cristo e no mist\u00e9rio trinit\u00e1rio. Al\u00e9m disso, Jo\u00e3o n\u00e3o foi um contemplativo isolado do mundo, tomando-se em considera\u00e7\u00e3o que percorreu a p\u00e9 27 mil quil\u00f4metros, para acompanhar de perto as funda\u00e7\u00f5es dos carmelos reformados, que tantos sofrimentos lhe causaram.<\/em><\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Mario Sgarbosa<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Sgarbosa, Mario. Os santos e os beatos da Igreja do Ocidente e do Oriente. Tradu\u00e7\u00e3o de Armando Braio Ara. \u2013 S\u00e3o Paulo: Paulinas, 2003, p. 703].<\/span><\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 418 anos, na noite de 13 para 14 de dezembro de 1591, uma sexta-feira, falecia em \u00dabeda, na Espanha, um homem que com o tempo seria consagrado como um dos maiores m\u00edsticos \u2013 se n\u00e3o o maior \u2013 que o cristianismo legou \u00e0 humanidade: S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz. Nascido em Fontiveros (\u00c1vila), em 1542, Jo\u00e3o de Yepes, seu nome de fam\u00edlia, entrou para o Carmelo em 1563, aos vinte e um anos de idade. Em 1568, estando em andamento a reforma do Carmelo levada a efeito por Santa Teresa d\u2019\u00c1vila, e como a reformadora precisasse de algu\u00e9m a quem pudesse confiar a reforma do ramo masculino da Ordem, encontra S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, a quem confiar\u00e1 a dif\u00edcil miss\u00e3o. O primeiro encontro dos dois m\u00edsticos d\u00e1 in\u00edcio a uma amizade que s\u00f3 findar\u00e1 com a morte do Doutor M\u00edstico.<\/p>\n<p>S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz viveu apenas 49 anos. Mesmo assim teve uma vida intensa, tanto como poeta e escritor quanto como religioso absolutamente devotado \u00e0 Ordem Carmelita. Tendo come\u00e7ado a escrever j\u00e1 relativamente tarde, aos 35 anos, por volta dos 44 j\u00e1 havia encerrado sua atividade liter\u00e1ria, uma vez que a partir dessa idade at\u00e9 o fim da vida n\u00e3o escreveria mais nada. Mas os nove anos dedicados \u00e0 escrita foram suficientes para nos legar algumas das mais belas p\u00e1ginas da poesia e da m\u00edstica ocidental.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das poesias, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz escreveu quatro grandes tratados espirituais: <em>Subida do Monte Carmelo<\/em>, <em>Noite Escura<\/em>, <em>C\u00e2ntico Espiritual<\/em> e <em>Chama Viva de Amor<\/em>. Algumas de suas poesias guardam uma semelhan\u00e7a estrutural muito grande com os repentes dos cantadores nordestinos, em que \u00e9 dado um mote para que o poeta, a partir da\u00ed, desenvolva o tema em rimas. Poder\u00edamos, a prop\u00f3sito, citar como dois grandes exemplos as <em>Glosas sobre um \u00eaxtase de alta contempla\u00e7\u00e3o<\/em> e as <em>Glosas da alma que pena por n\u00e3o ver a Deus<\/em>. No primeiro, o mote \u00e9 o seguinte: \u201cEntrei onde n\u00e3o soube\/ E quedei-me n\u00e3o sabendo\/ toda a ci\u00eancia transcendendo\u201d.\u00a0A partir do mote o autor escreve um poema de oito estrofes de sete versos, das quais cito as tr\u00eas primeiras:<\/p>\n<p><em>1. Eu n\u00e3o soube onde entrava\/ Por\u00e9m, quando ali me vi,\/ Sem saber onde estava,\/ Grandes coisas entendi;\/ N\u00e3o direi o que senti,\/ Que me quedei n\u00e3o sabendo,\/ Toda a ci\u00eancia transcendendo.\u00a0 2. De paz e de piedade\/ Era a ci\u00eancia perfeita,\/ Em profunda soledade\/ Entendida (via reta);\/ Era coisa t\u00e3o secreta,\/ Que fiquei como gemendo,\/ Toda a ci\u00eancia transcendendo.\u00a0 3. Estava t\u00e3o embevecido, T\u00e3o absorto e alheado,\/ Que se quedou meu sentido\/ De todo o sentir privado,\/ E o esp\u00edrito dotado\/ De um entender n\u00e3o entendendo,\/ Toda a ci\u00eancia transcendendo<\/em> \u00a0(S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz. Obras Completas. Org. Frei Patr\u00edcio Sciadini, O.C.D., Petr\u00f3polis: Vozes, em co-edi\u00e7\u00e3o com o Carmelo Descal\u00e7o do Brasil, 1984. <em>Glosas sobre um \u00eaxtase de alta contempla\u00e7\u00e3o<\/em>, p. 38).<\/p>\n<p>Ler S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, especialmente os grandes tratados org\u00e2nicos, onde a via m\u00edstica para Deus \u00e9 expressa de forma sistem\u00e1tica, n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. Essa observa\u00e7\u00e3o, ali\u00e1s, vale de modo geral para qualquer obra de cunho m\u00edstico. No caso de S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, por\u00e9m, a densidade do texto oferece especialmente a quem se inicia em sua obra algumas dificuldades, diferentemente do que acontece com as obras de Santa Teresa d\u2019\u00c1vila que tamb\u00e9m tratam do mesmo assunto, de leitura bem mais f\u00e1cil, embora n\u00e3o menos complexa.<\/p>\n<p>Mas ler S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz \u00e9 um deleite, e o sacrif\u00edcio\u00a0tem recompensa certa. Aos que querem se iniciar na obra do Doutor M\u00edstico da Igreja, sugerimos\u00a0 come\u00e7ar pelas poesias. Isso permitir\u00e1 ao ne\u00f3fito se familiarizar um pouco com o universo m\u00edstico do autor, e com o tom po\u00e9tico que ele naturalmente imprime a todos os seus escritos. Uma vez tendo conhecido sua obra po\u00e9tica, pode-se arriscar iniciar a leitura dos grandes tratados org\u00e2nicos, come\u00e7ando por seu primeiro tratado de m\u00edstica, <em>Subida do Monte Carmelo<\/em>, onde o autor tenta \u201cexplicar e fazer compreender a noite escura pela qual passa a alma, antes de chegar \u00e0 divina luz e perfeita uni\u00e3o do amor de Deus&#8230;\u201d (p. 136).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os hippies da d\u00e9cada de 1970 descobriram no m\u00edstico espanhol um grande mestre de ioga, proposto como tal por um fil\u00f3sofo hindu. 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