{"id":1251,"date":"2009-12-16T06:21:10","date_gmt":"2009-12-16T09:21:10","guid":{"rendered":"http:\/\/blog3.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1251"},"modified":"2009-12-16T06:21:10","modified_gmt":"2009-12-16T09:21:10","slug":"o-mestre-que-nao-queria-ser-mestre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/12\/16\/o-mestre-que-nao-queria-ser-mestre\/","title":{"rendered":"O mestre que n\u00e3o queria ser mestre"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-1252\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/krishnamurti4.jpg\" alt=\"krishnamurti4\" width=\"258\" height=\"348\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/krishnamurti4.jpg 258w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/krishnamurti4-120x162.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 258px) 100vw, 258px\" \/>Quanto mais lutamos contra um h\u00e1bito, tanto mais vida lhe damos. O h\u00e1bito \u00e9 uma coisa morta e n\u00e3o deveis lutar contra ele nem resistir-lhe; mas, com a percep\u00e7\u00e3o da verdade sobre o descontentamento, o passado ter\u00e1 perdido toda a sua significa\u00e7\u00e3o. Embora doloroso, \u00e9 maravilhoso estar-se descontente, sem procurar asfixiar essa chama com o saber, a tradi\u00e7\u00e3o, a esperan\u00e7a, as realiza\u00e7\u00f5es. Deixamo-nos absorver no mist\u00e9rio das realiza\u00e7\u00f5es humanas, nos mist\u00e9rios da igreja, ou do avi\u00e3o a jato. Ora, isto tamb\u00e9m \u00e9 superficial, vazio, conducente \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o e ao sofrimento. H\u00e1 um mist\u00e9rio, que se acha muito al\u00e9m das capacidades e faculdades da mente. N\u00e3o podeis busc\u00e1-lo nem cham\u00e1-lo; ele dever\u00e1 vir sem o pedirdes, e com ele vem tamb\u00e9m uma b\u00ean\u00e7\u00e3o para o homem.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Jiddu Krishnamurti<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Krishnamurti, Jiddu.\u00a0 Reflex\u00f5es sobre a vida. Tradu\u00e7\u00e3o de Hugo Veloso. \u2013 14<sup>\u00aa<\/sup> ed., S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1995, p.167].<\/span><\/em><\/p>\n<p>Sua grande paix\u00e3o foi o homem e sua infind\u00e1vel busca por ir al\u00e9m da pr\u00f3pria mente e atingir o ponto no qual tanto o tempo quanto o espa\u00e7o s\u00e3o transcendidos. Por isso ele gostava tanto da palavra atemporalidade, o que, ali\u00e1s, lhe valeu o convite para alguns encontros com o f\u00edsico David Bohm, ocorridos entre abril e setembro de 1980, cujo tema principal foi a possibilidade de elimina\u00e7\u00e3o do tempo psicol\u00f3gico. Querido e admirado no mundo inteiro, percorreu diversos pa\u00edses proferindo palestras e participando de debates. Por v\u00e1rias vezes quiseram fazer dele um Mestre e nunca lhe faltaram candidatos a pretensos disc\u00edpulos, sempre recusados com veem\u00eancia, pois nada lhe era mais alheio que a alcunha de Mestre. Ainda assim, ele acabou se impondo como um grande Mestre, ainda que \u00e0 revelia de si mesmo. Refiro-me ao indiano Jiddu Krishnamurti.<\/p>\n<p>A primeira vez que vi este nome foi quando ainda adolescente, em Massap\u00ea, ao ganhar do meu pai uma cole\u00e7\u00e3o de vinte volumes intitulada Biblioteca Planeta, um dos quais trazia textos de Krishnamurti. Muitos anos, por\u00e9m passariam at\u00e9 que eu me dedicasse de forma mais aprofundada aos seus escritos, o que s\u00f3 aconteceu no in\u00edcio dos anos noventa. Jiddu Krishnamurti nasceu na \u00cdndia em 1895. Com a idade de 13 anos passou a ser educado pela Sociedade Teos\u00f3fica, ordem inici\u00e1tica fundada por Helena Blavatsky. A Sociedade Teos\u00f3fica considerava Krishnamurti um predestinado, nascido com o objetivo de ser um grande mestre, o que ele recusou. Preferiu seguir sozinho seu caminho, pois acreditava que a verdade deveria ser buscada no pr\u00f3prio homem, estando al\u00e9m das institui\u00e7\u00f5es e credos religiosos, filos\u00f3ficos ou de qualquer outra natureza. Faleceu em 1896, aos noventa anos. O comp\u00eandio de seus escritos, palestras e di\u00e1rios resultou num legado de mais de 60 livros.<\/p>\n<p>Para Krishnamurti, o homem era, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a resposta para si mesmo: \u201cO problema do indiv\u00edduo \u00e9 tamb\u00e9m problema do mundo; n\u00e3o h\u00e1 dois \u201cprocessos\u201d separados e distintos. O que nos interessa, de certo, \u00e9 o problema humano, n\u00e3o importando se o ente humano est\u00e1 no Oriente ou no Ocidente, o que, afinal, \u00e9 apenas uma arbitr\u00e1ria divis\u00e3o geogr\u00e1fica\u201d\u00a0 (p. 188).<\/p>\n<p>Mas como encontrar a resposta? O problema todo estaria nas alternativas erradas que o homem tem adotado em sua incessante busca de resposta. Pensa ele que a solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 na mente e sua portentosa capacidade raciocinante. Engana-se, por\u00e9m, ao pensar assim. Afirma o Mestre: \u201cA mente est\u00e1 c\u00f4nscia de n\u00e3o poder captar, pela experi\u00eancia e pela palavra, aquilo que permanece sempre, atemporal e imensur\u00e1vel\u201d (p. 264). De fato, \u201cA pr\u00f3pria atividade da mente \u00e9 um obst\u00e1culo \u00e0 compreens\u00e3o de si mesma. Nunca notastes\u201d, indaga Krishnamurti, \u201cque s\u00f3 h\u00e1 compreens\u00e3o quando a mente, como pensamento, n\u00e3o est\u00e1 funcionando?\u201d E completa: \u201cA compreens\u00e3o se apresenta com o terminar do processo do pensamento, no intervalo entre dois pensamentos\u201d (p. 33).<\/p>\n<p>\u00c9 preciso, portanto, atingir o est\u00e1gio para al\u00e9m do pensamento, para al\u00e9m das elucubra\u00e7\u00f5es que a mente insiste em tecer, n\u00e3o deixando nenhuma brecha para o repouso onde o Real se insinua e se mostra. Ler Krishnamurti me faz lembrar, o tempo todo, os mestres Zen-budistas. Ambos falam a mesma coisa, embora numa perspectiva diferente. At\u00e9 as palavras usadas s\u00e3o muitas vezes as mesmas, embora Krishnamurti nunca tenha professado o Zen. A mente e sua infind\u00e1vel tagarelice se constitui na pedra de toque de ambos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quanto mais lutamos contra um h\u00e1bito, tanto mais vida lhe damos. 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