{"id":1254,"date":"2009-12-17T06:21:16","date_gmt":"2009-12-17T09:21:16","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1254"},"modified":"2009-12-17T06:21:16","modified_gmt":"2009-12-17T09:21:16","slug":"o-multifacetado-uroborus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/12\/17\/o-multifacetado-uroborus\/","title":{"rendered":"O multifacetado uroborus"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Existe um rico universo imag\u00e9tico com profundas ra\u00edzes na mem\u00f3ria do homem moderno, mas a que este n\u00e3o tem acesso atrav\u00e9s de colet\u00e2neas publicadas, permanecendo oculto em velhos manuscritos e textos impressos. Estes constituem os eternos \u201cvest\u00edbulos de Los, o profeta da imagina\u00e7\u00e3o, repletos de gravuras exemplares e de figuras plat\u00f4nicas, que regem a nossa compreens\u00e3o do mundo e de n\u00f3s pr\u00f3prios, e acerca delas o poeta William Blake (1757-1827) diz que \u201ctodas as coisas que acontecem na Terra se refletem a\u00ed\u201d e que \u201c\u00e9 a paritr dessas obras que cada \u00e9poca renova as suas for\u00e7as\u201d (Jerusalem, 1804-820).<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Alexander Roob<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Roob, Alexander. O Museu Herm\u00e9tico: Alquimia e Misticismo. Tradu\u00e7\u00e3o de Teresa Curvelo, Portugal. Taschen, 1997, p. 8].<\/span><\/em><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1259\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/44\/2009\/12\/DSC038051-300x225.jpg\" alt=\"DSC03805\" width=\"300\" height=\"225\" \/>H\u00e1 muitos anos mandei entalhar em madeira uma serpente mordendo a pr\u00f3pria cauda, dentro da qual fiz inscrever, em latim, a seguinte senten\u00e7a: <em>Noli foras ire, in interiore homine habitat veritas<\/em>. Na ocasi\u00e3o, eu andava muito envolvido com a leitura de livros sobre alquimia e hermetismo. No livro em que encontrei a senten\u00e7a, ela era citada como sendo uma m\u00e1xima alqu\u00edmica, n\u00e3o sendo mencionado o autor. Alguns anos mais tarde, descobri-lhe a verdadeira origem.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Seu autor foi Santo Agostinho. A frase se encontra no cap\u00edtulo 39 do livro <em>A verdadeira religi\u00e3o<\/em>.Transcrevo, na \u00edntegra, o par\u00e1grafo: \u201cN\u00e3o saias de ti, mas volta para dentro de ti mesmo, a Verdade habita no cora\u00e7\u00e3o do homem. E se n\u00e3o encontras sen\u00e3o a tua natureza sujeita a mudan\u00e7as, vai al\u00e9m de ti mesmo. Em te ultrapassando, por\u00e9m, n\u00e3o te esque\u00e7as que transcendes tua alma que raciocina. Portanto, dirige-te \u00e0 fonte da pr\u00f3pria luz da raz\u00e3o\u201d (Santo Agostinho. <em>A verdadeira religi\u00e3o; O cuidado devido aos mortos<\/em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Nair de Assis Oliveira. \u2013 S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002, p. 98).<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 serpente que morde a pr\u00f3pria cauda, chamada <em>uroborus<\/em> ou <em>oroborus<\/em>, \u00e9 uma das imagens mais conhecidas da alquimia. Dentre os v\u00e1rios s\u00edmbolos que lhe s\u00e3o atribu\u00eddos, o mais comum \u00e9 o <em>Eon<\/em>, a totalidade do tempo e do espa\u00e7o. Simboliza, ainda, a exist\u00eancia, seja na perspectiva individual, seja na perspectiva c\u00f3smica. O <em>uroboros<\/em> \u00e9, na verdade, a pr\u00f3pria vida, completa em si mesma, pois, no fim, se retorna sempre ao in\u00edcio, ao ponto de onde tudo partiu, ou seja, como se fora uma serpente que mordesse a pr\u00f3pria cauda.<\/p>\n<p>Os s\u00edmbolos t\u00eam um poder muito grande de evocar os aspectos mais misteriosos da realidade, motivo pelo qual est\u00e3o presentes em todas as religi\u00f5es. Mas eles aparecem especialmente nas grandes escolas de mist\u00e9rio, como no pitagorismo e no hermetismo. Creio que a busca da verdade no interior do pr\u00f3prio homem, como afirma Santo Agostinho, \u00e9 um projeto que, se levado a s\u00e9rie, promete muitas aventuras, emo\u00e7\u00f5es e descobertas fascinantes. Os caminhos para tal busca, por\u00e9m, s\u00e3o diversos. As religi\u00f5es mais arcaicas se ofereciam ao indiv\u00edduo como um desses caminhos. Quanto \u00e0s grandes religi\u00f5es, na forma como se oferecem hoje, excessivamente burocratizadas e hierarquizadas, consequ\u00eancia natural do seu\u00a0alto n\u00edvel de institucionaliza\u00e7\u00e3o, j\u00e1 n\u00e3o cumprem tal fun\u00e7\u00e3o a contento.<\/p>\n<p>Qual a consequ\u00eancia disso? Muita gente perdida, sem ter a quem ou a que recorrer. A vida perdeu muito o sentido do mist\u00e9rio, da transcend\u00eancia. Viver a pr\u00f3pria vida como uma grande jornada inic\u00e1tica \u00e9, seguramente, uma das mais belas e emocionantes formas de viver. E isso pode ser feito sem que a pessoa tenha, necessariamente, que estar inserida numa determinada institui\u00e7\u00e3o, seja ela religiosa ou inici\u00e1tica. Jung \u00e9 um bom exemplo disso. Esse, no entanto, n\u00e3o \u00e9 um projeto de f\u00e1cil realiza\u00e7\u00e3o, muito pelo contr\u00e1rio. Mas\u00a0o risco, posso assegurar, vale a pena. Basta seguir procurando os s\u00edmbolos que ir\u00e3o, gradativamente, servindo como express\u00e3o e confirma\u00e7\u00e3o do caminho. Quando estamos\u00a0no caminho e em busca, eles se insinuam sempre, de maneiras diversas, basta estar atento para perceb\u00ea-los e intuir-lhes o significado.\u00a0O <em>uroborus<\/em> \u00e9 um destes s\u00edmbolos.<span>\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe um rico universo imag\u00e9tico com profundas ra\u00edzes na mem\u00f3ria do homem moderno, mas a que este n\u00e3o tem acesso atrav\u00e9s de colet\u00e2neas publicadas, permanecendo&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[20],"tags":[],"class_list":["post-1254","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-15-o-caminho-da-individuacao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1254","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1254"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1254\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1254"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1254"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1254"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}