{"id":1310,"date":"2009-12-31T06:21:42","date_gmt":"2009-12-31T09:21:42","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1310"},"modified":"2009-12-31T06:21:42","modified_gmt":"2009-12-31T09:21:42","slug":"hapax-existencial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/12\/31\/hapax-existencial\/","title":{"rendered":"H\u00e1pax existencial"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Sem d\u00favida nenhuma, Dioniso \u00e9 o pai de Apolo, pelo menos \u00e9 seu g\u00eanio inspirador, seu musageta. E essa paternidade \u00e9 julgada t\u00e3o vergonhosa que h\u00e1 um empenho constante em esconder essa genealogia. A id\u00e9ia de que um pensamento possa ser produzido t\u00e3o radicalmente por um corpo choca as consci\u00eancias que t\u00eam familiaridade com a hist\u00f3ria da filosofia. Uma carne habitada pelo entusiasmo, pela desordem e uma estranha parcela que lembra a loucura, a histeria, a possess\u00e3o, \u00e9 o que parece exc\u00eantrico, incongruente. No entanto, muitos fil\u00f3sofos conheceram o que poder\u00edamos chamar de h\u00e1pax existenciais, experi\u00eancias radicais e fundadoras ao longo das quais do corpo surgem ilumina\u00e7\u00f5es, \u00eaxtases, vis\u00f5es que geram revela\u00e7\u00f5es e convers\u00f5es que se configuram em concep\u00e7\u00f5es do mundo coerentes e estruturadas.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Michel Onfray<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Onfray, Michel. A arte de ter prazer: por um materialismo hedonista. Tradu\u00e7\u00e3o de Monica Stahel. \u2013 S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1999, p. 29- (Mesmo que o c\u00e9u n\u00e3o exista)].<\/span><\/em><\/p>\n<div id=\"attachment_1311\" style=\"width: 190px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1311\" class=\"size-full wp-image-1311\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/180px-Michelangelo_Bacchus.jpg\" alt=\"Dioniso. Obra de Michelangelo (1475-1564)\" width=\"180\" height=\"312\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/180px-Michelangelo_Bacchus.jpg 180w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/180px-Michelangelo_Bacchus-120x208.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 180px) 100vw, 180px\" \/><p id=\"caption-attachment-1311\" class=\"wp-caption-text\">Dioniso. Escultura de Michelangelo (1475-1564)<\/p><\/div>\n<p>H\u00e1 muitos dias n\u00e3o postava nada neste blog. Poder\u00e1 ter parecido estranho a alguns leitores que me t\u00eam acompanhado ao longo dos \u00faltimos seis meses. O fato, por\u00e9m, \u00e9 que h\u00e1 algum tempo eu j\u00e1 vinha pensado nos rumos que deveria dar aos textos postados por mim. Durante o m\u00eas de dezembro, devido a uma s\u00e9rie de fatores que me provocaram diversas reflex\u00f5es, mais que apenas um desejo, uma mudan\u00e7a de rumo se tornou um imperativo. Despe\u00e7o-me, portanto, dos leitores, com este texto, que prenuncia e antev\u00ea algumas novas perspectivas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 continuidade do blog em 2010.<\/p>\n<p>Propositalmente, estou encerrando o ano de 2009 com a cita\u00e7\u00e3o de um pequeno trecho do fil\u00f3sofo franc\u00eas Michel Onfray no qual ele fala de um conceito do qual gosto muito: <em>h\u00e1pax existencial<\/em>. Da maneira como o entendo, o h\u00e1pax existencial se aproxima bastante do conceito de metan\u00f3ia, a que j\u00e1 me referi em alguns textos anteriores. Uma grande diferen\u00e7a, por\u00e9m, deve ser mencionada. Quase sempre, quando algum autor se refere a metan\u00f3ia, faz tender a mudan\u00e7a sempre no sentido da espiritualidade. A metan\u00f3ia, tal como \u00e9 habitualmente tratada e entendida, desemboca, quase sempre, na id\u00e9ia de convers\u00e3o, sendo essa tomada na perspectiva religiosa.<\/p>\n<div id=\"attachment_1312\" style=\"width: 276px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1312\" class=\"size-full wp-image-1312\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/apolo.jpg\" alt=\"Apolo Belvedere. Escultura de Leocar\u00e9s, 300 a.C.\" width=\"266\" height=\"400\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/apolo.jpg 266w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2009\/12\/apolo-120x180.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 266px) 100vw, 266px\" \/><p id=\"caption-attachment-1312\" class=\"wp-caption-text\">Apolo Belvedere. Escultura de Leocar\u00e9s, 300 a.C.<\/p><\/div>\n<p>No caso do h\u00e1pax existencial, por\u00e9m, tal como proposto por Michel Onfray, a mudan\u00e7a operada \u00e9 de uma outra ordem. No livro do qual tirei o trecho que cito a guisa de ep\u00edgrafe a este texto, o autor come\u00e7a narrando um fato a que atribui o valor de h\u00e1pax existencial, quando sofreu um enfarte. Escreve Onfray:<\/p>\n<p>\u201cA concentra\u00e7\u00e3o da dor em um ponto de atordoante densidade abolira toda dist\u00e2ncia entre a dor e a consci\u00eancia que pudesse apreend\u00ea-la. Uma estranha alquimia liquefazia a carne em energia ardente. Cada instante amea\u00e7ava uma pulveriza\u00e7\u00e3o que significaria o fim \u2013 que eu desejava. O m\u00e9dico diagnosticou um enfarte, eu ia fazer vinte e oito anos, e naquela segunda-feira, 30 de novembro, meu corpo experimentou uma sapi\u00eancia que se transformaria em hedonismo\u201d (p. 13).<\/p>\n<p>Michel Onfray \u00e9 um dos meus autores prediletos. J\u00e1 li quase todos os seus livros traduzidos no Brasil. No momento me deleito com a leitura do volume dois de sua <em>Contra-hist\u00f3ria da filosofia<\/em>. Propositalmente inverti a ordem da leitura, come\u00e7ando pelo volume dois, deixando o um para ler a seguir. Inclu\u00ed dois livros seus na minha prateleira de <em>livros-talism\u00e3<\/em>: \u201cA arte de ter prazer\u201d e \u201cA pol\u00edtica do rebelde: tratado de resist\u00eancia e insubmiss\u00e3o\u201d. Dos dois guardo cita\u00e7\u00f5es que releio com frequ\u00eancia, pelas muitas reflex\u00f5es que me t\u00eam provocado, geralmente com a consequente deflagra\u00e7\u00e3o de excelentes <em>insights<\/em>, como essa, por exemplo: \u201cUma filosofia \u00e9 a tentativa de dizer o que um corpo exige\u201d (p. 78).<\/p>\n<p>Para concluir, cito um trecho de uma entrevista concedida por Michel Onfray \u00e0 Revista Rep\u00fablica, em outubro de 2001, que para mim &#8211; como bom leonino sempre dividido entre as, mais que contradit\u00f3rias, complementares tend\u00eancias apol\u00edneas e dionis\u00edacas -, faze um eco todo especial: \u201cO real vive, n\u00e3o se pode tentar circunscrev\u00ea-lo com um m\u00e9todo fixo, fechado, morto. Para mim, Dioniso prevalece sobre Apolo, o que n\u00e3o significa dizer que dispenso os servi\u00e7os deste \u00faltimo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem d\u00favida nenhuma, Dioniso \u00e9 o pai de Apolo, pelo menos \u00e9 seu g\u00eanio inspirador, seu musageta. 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