{"id":1444,"date":"2010-01-18T04:21:17","date_gmt":"2010-01-18T07:21:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1444"},"modified":"2010-01-18T04:21:17","modified_gmt":"2010-01-18T07:21:17","slug":"minha-iniciacao-a-leitura-sob-a-protecao-de-dona-edwiges-nogueira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/01\/18\/minha-iniciacao-a-leitura-sob-a-protecao-de-dona-edwiges-nogueira\/","title":{"rendered":"Inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1446\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/44\/2010\/01\/Sele\u00e7\u00f5es_Out1-300x410.jpg\" alt=\"Sele\u00e7\u00f5es_Out\" width=\"300\" height=\"410\" \/>Quando comecei a ler hist\u00f3rias de verdade, as propriedades m\u00e1gicas das palavras me pareceram ainda maiores. \u00c0s vezes, eu ficava segurando um livro com o bra\u00e7o estendido para ver de que \u00e9 que ele era mesmo feito. Papel impresso dentro de uma capa! Como \u00e9 que uma coisa t\u00e3o simples conseguia encher minha cabe\u00e7a e fazer disparar meu cora\u00e7\u00e3o? Como \u00e9 que, s\u00f3 com meus olhos lendo palavras, eu podia ver claramente coisas que nunca tinha visto antes? E ouvir uma banda militar quando no quarto s\u00f3 havia sil\u00eancio? (&#8230;) Maravilhada, certa de que a causa seriam artes m\u00e1gicas, eu seguia o tra\u00e7ado das palavras e imaginava-me transportada de onde estava. Sentia um fr\u00eamito profundo de respeito e antecipa\u00e7\u00e3o cada vez que abria um livro novo e passava a m\u00e3o sobre a primeira p\u00e1gina, preparando-me para come\u00e7ar. Por que essa certeza de satisfa\u00e7\u00e3o? Nem todo livro era uma maravilha, \u00e9 claro, e cheguei mesmo a ler um ou outro que n\u00e3o o eram de modo nenhum. Mas aquele ia ser! Havia de ser diferente de tudo quanto eu j\u00e1 lera, de qualquer modo, por alguma raz\u00e3o.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Joan Mills<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Mills, Joan. Esse objeto maravilhoso e encantador \u2013 o livro. Em: <\/em><strong>Sele\u00e7\u00f5es do Reader\u2019s Digest<\/strong><em>. Tomo XIII, N\u00ba 79, Dezembro de 1977, p.78-79].<\/em><\/span><\/p>\n<p>O meu gosto pela leitura, que, com o passar do tempo, se tornaria uma paix\u00e3o e, por fim, mais que paix\u00e3o, uma necessidade, come\u00e7ou muito cedo, ainda na inf\u00e2ncia. Residindo em Massap\u00ea, pequena cidade do interior do Cear\u00e1 onde n\u00e3o t\u00ednhamos uma livraria sequer e a \u00fanica banca de revista que por l\u00e1 foi instalada durou bem pouco tempo, os livros eram artigos de luxo cujo acesso n\u00e3o era f\u00e1cil. Assim, apegava-me a toda m\u00ednima oportunidade que me fosse dada de acesso a esses objetos maravilhosos e encantadores que sempre me atra\u00edram bem mais que qualquer brinquedo. Uma dessas oportunidades apareceu quando conheci Dona Edwiges Nogueira Borges.<\/p>\n<p>Dona Edwiges residia num casar\u00e3o de esquina, no in\u00edcio da Rua Jos\u00e9 Pontes, defronte \u00e0 Pra\u00e7a Dermeval Carneiro. Foi no com\u00e9rcio do papai que a conheci, onde ela vez por outra fazia compras. Sabendo do meu interesse por leitura, certo dia levou uma edi\u00e7\u00e3o da revista Sele\u00e7\u00f5es para me emprestar. Depois desse dia, minhas peregrina\u00e7\u00f5es ao casar\u00e3o amarelo de portas verdes n\u00e3o pararam mais, at\u00e9 o dia em que, aos dezoito anos, me mudei para Fortaleza. Eu ia l\u00e1 sempre por volta das 15 horas. Era quase certo encontrar Dona Edwiges conversando e fazendo croch\u00ea animadamente com Dona An\u00edsia, de quem era amiga. Quando eu chegava para devolver uma revista, ela j\u00e1 tinha uma outra ou, quando n\u00e3o, um livro \u00e0 minha espera. O processo era o seguinte: o Padre Mo\u00e9sio, seu irm\u00e3o, residente em Sobral, comprava livros e revistas que, depois de lidos, eram remetidos para Dona Edwiges que, por sua vez, mos emprestava.<\/p>\n<p>Foi assim, gra\u00e7as \u00e0 sua bondade e desejo de incentivar um jovem leitor sem maiores condi\u00e7\u00f5es de adquirir material bibliogr\u00e1fico, que fui iniciado no mundo dos livros e revistas. Algumas das revistas eu devolvia, outras, Dona Edwiges dizia que eu podia ficar para mim. Acho que eram aquelas sobre as quais eu fazia um coment\u00e1rio mais entusiasmado sobre um ou outro texto lido.<\/p>\n<p>Foi gra\u00e7as \u00e0 Dona Edwiges, tamb\u00e9m, que recebi um elogio que teve um sabor muito especial. Eu come\u00e7ara a estudar em Sobral, no Col\u00e9gio Sant\u2019Ana. Na segunda semana ap\u00f3s o in\u00edcio das aulas, Dona Nen\u00e9m, nossa professora de portugu\u00eas, nos deu alguns temas para reda\u00e7\u00e3o. Um dos temas era, lembro-me bem, \u201cO ru\u00eddo e o stress\u201d. Por <em>coincid\u00eancia<\/em>, na semana anterior eu havia lido um texto sobre o assunto numa das revistas emprestadas por Dona Edwiges. N\u00e3o tive d\u00favidas: escrevi sobre o stress e, sem vacilar, fiz uma cita\u00e7\u00e3o do texto. Ao devolver as reda\u00e7\u00f5es, todos foram entregues, menos a minha. Ent\u00e3o Dona Nen\u00e9m pegou a folha e perguntou: \u201cQuem \u00e9 Jos\u00e9 Vasconcelos?\u201d Depois que me identifquei, ouvi de Dona Nen\u00e9m a seguinte observa\u00e7\u00e3o: \u201cMeu filho, voc\u00ea escreve muito bem, e vejo tamb\u00e9m que voc\u00ea gosta de ler. Continue assim, pois voc\u00ea tem futuro\u201d. Depois da aula, v\u00e1rios colegas vieram me cumprimentar. Retornei para Massap\u00ea radiante. Quando narrei o fato a Dona Edwiges, ela disse: \u201cPois fique com a revista para voc\u00ea\u201d. Guardo-a, ainda hoje, como verdadeira rel\u00edquia, principalmente porque est\u00e3o l\u00e1, no topo da capa, as duas letras com as quis Dona Edwiges identificava as suas revistas: \u201cE.N.\u201d, Edwiges Nogueira. Concluo com a cita\u00e7\u00e3o de um texto de uma outra edi\u00e7\u00e3o da Sele\u00e7\u00f5es (j\u00e1 mencionada na ep\u00edgrafe), da qual gostei tanto que, tamb\u00e9m essa, me foi presenteada, trazendo na capa as duas mencionadas letras identificadoras:<\/p>\n<p>\u201cO h\u00e1bito da leitura me veio t\u00e3o naturalmente em minha inf\u00e2ncia como todas essas outras coisas \u2013 t\u00e3o espontaneamente quanto o brincar de faz-de-conta ou o passar das esta\u00e7\u00f5es. Lia na forquilha de uma macieira vergada, esperando que o filhote de tordo trincasse a casca de seu ovinho azul. Lia no s\u00f3t\u00e3o, ouvindo o cair da chuva, ou, l\u00e1 fora, dentro de um velho caixote que tanto me servia de teatro, quanto caverna e castelo. (&#8230;) Dessa forma, tornei-me cedo uma leitora, e, desde ent\u00e3o, nunca perdi o gosto pelos livros\u201d (p. 79).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando comecei a ler hist\u00f3rias de verdade, as propriedades m\u00e1gicas das palavras me pareceram ainda maiores. \u00c0s vezes, eu ficava segurando um livro com o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[25],"tags":[],"class_list":["post-1444","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-10-arcano-x-o-pais-da-minha-infancia"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1444","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1444"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1444\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1444"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1444"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1444"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}