{"id":1493,"date":"2010-01-29T04:21:14","date_gmt":"2010-01-29T07:21:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1493"},"modified":"2010-01-29T04:21:14","modified_gmt":"2010-01-29T07:21:14","slug":"o-nordeste-segundo-roger-bastide","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/01\/29\/o-nordeste-segundo-roger-bastide\/","title":{"rendered":"O Nordeste segundo Roger Bastide"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-1494\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/44\/2010\/01\/Livro-Bastide-300x398.jpg\" alt=\"Livro Bastide\" width=\"300\" height=\"398\" \/>Outros falar\u00e3o sobre o dinamismo de um povo voltado para o futuro, os melhoramentos surgidos no dom\u00ednio da agricultura, a pesquisa do petr\u00f3leo e minerais, o movimento dos portos, das escolas, dos hospitais e das creches. Na verdade, tamb\u00e9m eu admiro aquelas constru\u00e7\u00f5es-modelo, aquelas f\u00e1bricas, e o progresso r\u00e1pido do Nordeste. Mas o importante \u00e9, ao progredir, n\u00e3o perder sua alma, a pr\u00f3pria alma que os antepassados modelaram. Era ela que me interessava, ser\u00e1 sobretudo em sua dire\u00e7\u00e3o que eu caminhava. Por isso divaguei, sonhei nas velhas igrejas, imiscu\u00ed-me aos candombl\u00e9s, perdi-me no carnaval. E dessa viagem encantada apresento aqui um feixe de imagens.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Roger Bastide<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Bastide, Roger.<\/em> <strong>Imagens do Nordeste m\u00edstico em branco e preto<\/strong><em>. Rio de Janeiro: \u201cSe\u00e7\u00e3o de Livros\u201d de Empresa Gr\u00e1fica \u201cO Cruzeiro\u201d S.A., 1945, p. 9].<\/em><\/span><\/p>\n<p>Quem tem lido os textos que posto neste blog sabe que sou um grande admirador de Roger Bastide. Ali\u00e1s, retifico a afirma\u00e7\u00e3o: n\u00e3o sou apenas um admirador, sou um f\u00e3 declarado. O soci\u00f3logo foi um dos integrantes do grupo franc\u00eas que veio ao Brasil em 1938 para compor o quadro de professores da rec\u00e9m-criada USP. N\u00e3o tardou muito para que se tornasse um apaixonado pelo pa\u00eds. Aqui Bastide encontraria um campo f\u00e9rtil de estudos, que lhe forneceriam elementos para diversas publica\u00e7\u00f5es. Fascinado pelo candombl\u00e9, muito mais que apenas um estudioso dessa tradi\u00e7\u00e3o religiosa africana trazida para o Brasil, Bastide se tornaria, a exemplo do que aconteceu com Pierre Verger, um iniciado.<\/p>\n<p>Roger Bastide era um poeta. Fazia antropologia e sociologia como quem faz<\/p>\n<div id=\"attachment_1496\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1496\" class=\"size-medium wp-image-1496\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/44\/2010\/01\/Roger-Bastide1-300x187.jpg\" alt=\"Roger Bastide numa festa dedicada a &quot;Yemanj\u00e1&quot;. (Foto: Di\u00e1rios Associados. Fonte: Imagens do Nordeste m\u00edstico em branco e preto.\" width=\"300\" height=\"187\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/01\/Roger-Bastide1-300x187.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/01\/Roger-Bastide1-768x480.jpg 768w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/01\/Roger-Bastide1-740x462.jpg 740w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/01\/Roger-Bastide1-120x75.jpg 120w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/01\/Roger-Bastide1.jpg 810w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1496\" class=\"wp-caption-text\">Roger Bastide numa festa dedicada a &quot;Yemanj\u00e1&quot;. (Foto: Di\u00e1rios Associados. Fonte: Imagens do Nordeste m\u00edstico em branco e preto.<\/p><\/div>\n<p>poesia. Leio seus textos com inenarr\u00e1vel deleite po\u00e9tico. Depois de estudar em profundidade o candombl\u00e9 da Bahia, o soci\u00f3logo realizou estudos tamb\u00e9m em Recife. N\u00e3o precisou muito para que se visse tomado de fasc\u00ednio pelo Nordeste brasileiro. O que o atra\u00eda era, sobretudo, o misticismo peculiar ao povo nordestino. Por isso, al\u00e9m do candombl\u00e9, adentrou tamb\u00e9m a religiosidade popular, participando de prociss\u00f5es e visitando igrejas. Tamb\u00e9m os maracatus, tradi\u00e7\u00e3o tipicamente nordestina, foram objeto de interesse do pesquisador.<\/p>\n<p>A consequ\u00eancia dessa explora\u00e7\u00e3o pelos meandros das tradi\u00e7\u00f5es m\u00edsticas do Nordeste seria a publica\u00e7\u00e3o, em 1945, do livro <em>Imagens do Nordeste m\u00edstico em branco e preto<\/em>. Tenho um exemplar desse livro que, para mim, tem um valor especial, pois pertenceu \u00e0 biblioteca particular do prof. Aderbal Freire, me tendo sido presenteado por sua filha, minha amiga Dulce Freire. Nele, Bastide comenta suas incurs\u00f5es pelos terreiros de candombl\u00e9 da Bahia, pelas igrejas de Salvador e Recife, pelas prociss\u00f5es e maracatus. H\u00e1 trechos que, por mais que eu leia, sempre me fazem experimentar a mesma emo\u00e7\u00e3o de quando os li pela primeira vez, a come\u00e7ar pelas palavras com que o autor abre o primeiro cap\u00edtulo, lindamente po\u00e9ticas:<\/p>\n<p>\u201cOs veleiros balan\u00e7am-se molemente sobre a \u00e1gua negra do porto. Os mastros se retorcem, \u00e1rvores ainda cheias de reminisc\u00eancias das florestas tropicais, mais do que verdadeiros mastros. Chega-se a ficar surpreendido de n\u00e3o ver brotar folhas daqueles mastros. Deitados na ponte, alguns marinheiros, de olhos abertos, se embebem, se alimentam do azul que os rodeia, transportam todo o azul do c\u00e9u para os seus cora\u00e7\u00f5es nost\u00e1lgicos. Seus barcos t\u00eam nomes de mulheres ou de santos, e os nomes s\u00e3o os mesmos, pois n\u00e3o sabem mais se amam os santos com um amor carnal ou se sentem um amor espiritual por suas mulheres\u201d (p. 13).<\/p>\n<p>Para concluir, deixo aos leitores um trecho em que Bastide estabelece um paralelo entre os candombl\u00e9s e as igrejas, palavras que constituem, tamb\u00e9m, um convite \u00e0 aventura de se deixar envolver pelo misticismo nordestino:<\/p>\n<p>\u201cQuando se visita igrejas e candombl\u00e9s, mesmo contra a vontade, uma analogia se imp\u00f5e ao nosso esp\u00edrito entre as duas metodologias do \u00eaxtase. L\u00e1 em baixo, no vale de um verde intenso, entre palmeiras, bananeiras, matagais espessos que t\u00eam o nome de santos ou de \u201corix\u00e1\u201d, espadas de Ogum ou pau santo, tapete de Oxal\u00e1 ou chagas de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, o t\u00e3-t\u00e3 dos negros penetra pelos ouvidos, pelo nariz e pela boca, bate no est\u00f4mago, imp\u00f5e seu ritmo ao corpo e ao esp\u00edrito. Aqui \u00e9 o t\u00e3-t\u00e3 do ouro e dos adornos que nos penetra, n\u00e3o mais pelos ouvidos mas pela vista, mas que, no entanto, tamb\u00e9m n\u00e3o nos abandona, como acontece com o outro, o dos santu\u00e1rios fetichistas. \u00c9 debalde que fechamos os olhos procurando escapar a eles: como quando se olha para o sol durante muito tempo, manchas luminosas, placas vermelhas e amarelas giram em nosso c\u00e9rebro. Reabrimos as p\u00e1lpebras e n\u00e3o sabemos onde descansar o esp\u00edrito. A luz que brinca sobre as colunas baixas, que se aninha numa vinha negra, numa folha verde, num p\u00e1ssaro hier\u00e1tico, num sorriso de anjo, nos conduz a outro ponto brilhante, at\u00e9 que todos se p\u00f5em a dan\u00e7ar e a girar, at\u00e9 que por fim nossa pr\u00f3pria cabe\u00e7a gira. Libertamo-nos de tudo quanto h\u00e1 de profano em n\u00f3s; imposs\u00edvel tentar ligar duas id\u00e9ias, coordenar um pensamento: estamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o da mais terr\u00edvel das aventuras\u201d (p. 27).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Outros falar\u00e3o sobre o dinamismo de um povo voltado para o futuro, os melhoramentos surgidos no dom\u00ednio da agricultura, a pesquisa do petr\u00f3leo e minerais,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[],"class_list":["post-1493","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-18-arcano-xviii-nordeste-e-uma-ficcao"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1493","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1493"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1493\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1493"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1493"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1493"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}