{"id":158,"date":"2009-07-21T06:21:45","date_gmt":"2009-07-21T11:21:45","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=158"},"modified":"2009-07-21T06:21:45","modified_gmt":"2009-07-21T11:21:45","slug":"montaigne-o-mestre-do-ensaio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/07\/21\/montaigne-o-mestre-do-ensaio\/","title":{"rendered":"Montaigne, o Mestre do ensaio"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000080\"><em>Em verdade o homem \u00e9 de natureza muito pouco definida, estranhamente desigual e diverso. Dificilmente o julgar\u00edamos de maneira decidida e uniforme.<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><em>Montaigne<\/em><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><em>[Ensaios. Trad., pref\u00e1cio e notas lingu\u00edsticas interprativas de S\u00e9rgio Milliet. Rio de Janeiro: Ediouro, s\/d, p. 76]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Michel de Montaigne, nascido em 1533 e falecido em 1592, \u00e9 um dos escritores franceses mais c\u00e9lebres e, ainda hoje, mais admirados. Deve-se a ele a inven\u00e7\u00e3o do ensaio, g\u00eanero liter\u00e1rio dos mais influentes ao longo da hist\u00f3ria da literatura, caracterizado pela informalidade e o intimismo.\u00a0 \u00a0<\/p>\n<p>A primeira edi\u00e7\u00e3o dos Ensaios, de Montaigne, data de 1580. No texto introdut\u00f3rio \u00e0 obra, adverte o autor: &#8220;Se houvesse almejado os favores do mundo, ter-me-ia enfeitado e me apresentaria sob uma forma mais cuidada, de modo a produzir melhor efeito. Prefiro, por\u00e9m, que me vejam na minha simplicidade natural, sem artif\u00edcio de nenhuma esp\u00e9cie, porquanto \u00e9 a mim mesmo que pinto&#8221;, concluindo, a seguir: &#8220;Assim, leitor, sou eu mesmo a mat\u00e9ria deste livro, o que ser\u00e1 talvez raz\u00e3o suficiente para que n\u00e3o empregues teus lazeres em assunto t\u00e3o f\u00fatil e de t\u00e3o m\u00ednima import\u00e2ncia&#8221; (p. 74).\u00a0<\/p>\n<p>Apesar da advert\u00eancia, Ensaios se tornaria um dos livros mais lidos a partir de ent\u00e3o, mereccendo sucessivas edi\u00e7\u00f5es s\u00e9culos afora, sendo traduzido em v\u00e1rias l\u00ednguas. Embora Montaigne afirme ser ele pr\u00f3prio a mat\u00e9ria do livro, o autor trata dos mais diversos assuntos que se possa imaginar, sempre com profunda percuci\u00eancia.\u00a0<\/p>\n<p>H\u00e1 trechos dos Ensaios aos quais sempre retorno, descobrindo, a cada vez, novos horizontes a partir das reflex\u00f5es propostas pelo autor. Uma das passagens que muito me tem levado a refletir, e \u00e0 qual sempre retorno, \u00e9 o Cap\u00edtulo XIV do Livro Primeiro, intitulado: &#8220;O bem e o mal s\u00f3 o s\u00e3o, as mais das vezes, pela id\u00e9ia que deles temos&#8221;.<\/p>\n<p>Montaigne inicia a reflex\u00e3o sobre o tema afirmando: &#8220;Os homens, diz antigo ditado grego, atormentam-se com a id\u00e9ia que t\u00eam das coisas e n\u00e3o com as coisas em si&#8221;.<\/p>\n<p>E, mais adiante: &#8220;Se as coisas que tememos tivessem um car\u00e1ter pr\u00f3prio, a todos se imporiam de igual maneira, produzindo id\u00eanticas consequ\u00eancias. Todos os homens s\u00e3o, efetivamente, da mesma esp\u00e9cie e, com pequenas diferen\u00e7as, providos de \u00f3rg\u00e3os semelhantes, instrumentos de concep\u00e7\u00e3o e julgamento. A diversidade de opini\u00f5es acerca das coisas mostra claramente que atuam sobre n\u00f3s segundo um dado estado de esp\u00edrito&#8221; (p. 94).\u00a0<\/p>\n<p>Disso infere-se que o que importa n\u00e3o \u00e9, exatamente, o que nos acontece, mas a interpreta\u00e7\u00e3o, a cor que atribu\u00edmos ao acontecimento: &#8220;Os efeitos externos tiram cor e sabor de nossa constitui\u00e7\u00e3o interna, como as roupas que usamos nos aquecem n\u00e3o com seu calor pr\u00f3prio, mas com o nosso, que conservam e desenvolvem. Se com elas cobr\u00edssemos um corpo frio, inverso seria o resultado. Desse modo conservam-se a neve e o gelo. Todas as coisas dependem da maneira por que s\u00e3o encaradas: o estudo \u00e9 motivo de tormento para o pregui\u00e7oso; o beberr\u00e3o sofre sem vinho; a frugalidade \u00e9 um supl\u00edcio para o comil\u00e3o; o exerc\u00edcio uma tortura para o delicado ocioso etc. As coisas n\u00e3o s\u00e3o nem dolorosas nem dif\u00edceis em si. Para julgar de sua eleva\u00e7\u00e3o e grandeza \u00e9 necess\u00e1rio uma alma com essas qualidades, sem o que lhes atribuir\u00edamos nossos pr\u00f3rpios defeitos. Um remo \u00e9 reto, e no entanto quando mergulha na \u00e1gua parece curvo. N\u00e3o basta ver a coisa, importa como v\u00ea-la&#8221; (p. 103).\u00a0<\/p>\n<p>A felicidade seria, segundo a concep\u00e7\u00e3o montaigniana,\u00a0 uma quest\u00e3o de foro \u00edntimo, motivo pelo qual afirma: &#8220;Estamos bem ou mal neste mundo segundo o que pensamos: contente est\u00e1 quem se acredita contente e n\u00e3o aquele que os outros imaginam contente. Nossa cren\u00e7a \u00e9 que faz seja ou n\u00e3o seja real a felicidade&#8221; (p.103).<\/p>\n<p>A conclus\u00e3o inevit\u00e1vel a que somos levados \u00e9 que, em certa medida, somos art\u00edfices do nosso pr\u00f3prio destino, pois o que o determina \u00e9, em \u00faltima inst\u00e2ncia, muito mais que as experi\u00eancias que a vida nos oferece, a forma como reagimos a elas: &#8220;Pois o destino&#8221; dir\u00e1 Montaigne, &#8220;apenas suscita o incidente; a n\u00f3s \u00e9 que cabe determinar a qualidade de seus efeitos&#8221; (p. 94).<\/p>\n<p>Michel de Montaigne inscreve-se, para mim, na galeria dos Mestres aos quais sempre retorno em busca de conforto e lenitivo cada vez que a vida me coloca situa\u00e7\u00f5es para as quais nem sempre encontro uma sa\u00edda ou explica\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em verdade o homem \u00e9 de natureza muito pouco definida, estranhamente desigual e diverso. 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