{"id":1652,"date":"2010-02-24T02:49:57","date_gmt":"2010-02-24T05:49:57","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1652"},"modified":"2010-02-24T02:49:57","modified_gmt":"2010-02-24T05:49:57","slug":"edipo-errante-visita-artaban","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/02\/24\/edipo-errante-visita-artaban\/","title":{"rendered":"\u00c9dipo errante visita Artaban"},"content":{"rendered":"<div id=\"attachment_1661\" style=\"width: 310px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1661\" class=\"size-full wp-image-1661\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/02\/ciencia11.jpg\" alt=\"\u00c9dipo e a esfinge. Gustave Moreau (1826-1898)\" width=\"300\" height=\"585\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/02\/ciencia11.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/02\/ciencia11-120x234.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/><p id=\"caption-attachment-1661\" class=\"wp-caption-text\">\u00c9dipo e a esfinge. Gustave Moreau (1826-1898)<\/p><\/div>\n<p>Ele voltou. Esta\u00a0manh\u00e3 ele resolveu, como se costuma dizer, dar o ar de sua gra\u00e7a.\u00a0 Esta madrugada, para ser mais preciso. Duas horas da madrugada, hora em que o sil\u00eancio \u00e9 t\u00e3o intenso que chega a doer, disso sabem\u00a0os insones.\u00a0 Pois ele\u00a0\u00a0andou rondando por aqui em torno da minha mesa por volta das duas horas. &#8220;Porque&#8221;, disse-me ele,&#8221;desistir tamb\u00e9m \u00e9 uma virtude, at\u00e9 mesmo uma arte. Por isso, \u00e0s vezes \u00e9 preciso desistir. \u00c9 preciso abdicar. Quando a gente se d\u00e1 conta de que a suposta palavra que, enfim, salvaria e nos resgataria da tenta\u00e7\u00e3o da grande dana\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existe, a sa\u00edda \u00e9 desistir. Ou se deixar levar&#8221;.<\/p>\n<p>Ah!, esses insond\u00e1veis pensamentos que nos assolam vez em quando&#8230; Pois \u00e9. Pois \u00e9 \u00e9 quando nada mais resta a dizer e percebe-se que a conversa chegou ao fim, e que qualquer tentativa de di\u00e1logo ser\u00e1 v\u00e3. Ent\u00e3o apela-se para o pois \u00e9. Ele andou lendo aquelas velhas fic\u00e7\u00f5es, e por isso andou tendo uns acessos de sensa\u00e7\u00f5es clariceanas. Mas claricear, principalmente de madrugada,\u00a0n\u00e3o \u00e9 para qualquer um, isso ele o sabe muito bem. Mas do que gostaria mesmo era de claricear, escrevendo assim ao sabor do momento, se deixando levar pelo toque suave dos dedos no teclado, seguindo o ritmo natural que as pr\u00f3prias palavras&#8230; assim, assim, interrompendo quando a palavra seguinte n\u00e3o viesse.<\/p>\n<p>Artaban, Artaban, para onde segues com teus ritos e mitos? Teus santos est\u00e3o todos surdos, e tuas velas todas apagadas. Foi-se o tempo dos grandes iniciados. H\u00e1 gurus demais em evid\u00eancia, e quando a oferta supera a demanda, a aut\u00eantica demanda n\u00e3o \u00e9 suprida. Ningu\u00e9m se faz disc\u00edpulo quando h\u00e1 mestres em excesso, e o poder dos taumaturgos de esquina sobre Deus tanto fascina quanto ludibria os incautos e desavisados. Palavra besta, essa, incautos&#8230; os incautos merecem pagar o pre\u00e7o da sua estupidez.<\/p>\n<p>Entendo Rimbaud. Oh!, sim, como me sinto pr\u00f3ximo a Rimbaud. O verso daquela can\u00e7\u00e3o n\u00e3o t\u00e3o velha expressa n\u00e3o mais que um equ\u00edvoco, pois n\u00e3o se volta mais puro do c\u00e9u, se volta mais puro \u00e9 do inferno. Sem uma temporada no inferno ningu\u00e9m pode almejar a purifica\u00e7\u00e3o. Ah!, meu velho Artaban, teus anseios ca\u00edram todos por terra e entre o conquistador e o vencido a diferen\u00e7a \u00e9 bem pouca. Teus \u00eddolos, teus \u00eddolos&#8230; e aqueles s\u00f4fregos momentos em que te entregavas \u00e0 mais est\u00fapida e desmedida embriaguez, rodopiando sobre ti mesmo \u00e9brio de entusiasmo&#8230; por uma vida que n\u00e3o se consumou. A embriaguez do \u00eaxtase ainda \u00e9 para ti uma tenta\u00e7\u00e3o tanto quanto a ascese. Ah!, meu caro Artaban, a tenta\u00e7\u00e3o da ascese, e essa \u00e2nsia pelos abismos da m\u00edstica. Sondas os abismos da ascese e da m\u00edstica mas n\u00e3o te decides pelo grande e fatal mergulho.<\/p>\n<p>Por isso entendo Rimbaud. <em>Tertium non datur!<\/em> Dividido entre o apol\u00edneo e o dinios\u00edaco, mas incapaz de optar por um ou outro, deixas-te postar na vil fileira dos mornos, daqueles que, ao final e ao cabo, ser\u00e3o vomitados, n\u00e3o merecendo que seu nome seja inscrito no livro da vida, no grande e terr\u00edvel Livro da Vida, cuja letras s\u00e3o gravadas a fogo. Meu desolado amigo Artaban, teu reino n\u00e3o \u00e9 deste mundo&#8230; nem, tampouco, do outro. Teu reino \u00e9 o reino dos que abdicaram. Mas os que abdicaram n\u00e3o t\u00eam reino, \u00c9dipos errantes que s\u00e3o. Teu reino, Artaban&#8230;, teu reino&#8230; \u00c9dipo errante que \u00e9s, t\u00e3o errante\u00a0que nemhum solo \u00e9 suficientemente plano para dar descanso aos teus p\u00e9s furados.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ele voltou. 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