{"id":1701,"date":"2010-03-10T09:21:14","date_gmt":"2010-03-10T12:21:14","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1701"},"modified":"2010-03-10T09:21:14","modified_gmt":"2010-03-10T12:21:14","slug":"nietzsche-estava-certo-afirma-artaban","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/03\/10\/nietzsche-estava-certo-afirma-artaban\/","title":{"rendered":"Nietzsche estava certo, afirma Artaban"},"content":{"rendered":"<p>Pois no s\u00e1bado ele voltou a rondar por aqui. Chegou e foi logo dizendo, assim de chofre, sem nem ao menos anunciar sua presen\u00e7a: \u201cNietzsche estava certo\u201d. Virei-me e, surpreso por v\u00ea-lo mais uma vez em minha biblioteca, indaguei: \u201cComo \u00e9?\u201d Ele respondeu: \u201c\u00c9 isso mesmo, Nietzsche estava certo, Deus est\u00e1 morto\u201d.<\/p>\n<p>Pois l\u00e1 estava ele novamente, Artaban, o pr\u00f3prio. Rapaz, hoje \u00e9 s\u00e1bado, dia de coisas leves. Porque deves saber que o s\u00e1bado foi feito para coisas leves, tomar um caf\u00e9 sem pressa, folhear alguns livros mais ou menos aleatoriamente, depois sair por a\u00ed, flanando por livrarias, sebos e lojas de disco, encontrar amigos, conversar amenidades jogando conversa fora, coisas assim sem maiores compromissos com, digamos, o lado pesado da vida. E a\u00ed me aparece Artaban pra baldear o coreto. E falar de Nietzsche, logo dele, o fil\u00f3sofo das marteladas. Anunciando que Deus est\u00e1 morto.<\/p>\n<p>Artaban \u00e9 um inconformado. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 bem essa a palavra que lhe cabe. Ele \u00e9 um sujeito dif\u00edcil de qualificar. Algo assim como&#8230; como o que?&#8230; como um sujeito que n\u00e3o cabe na vida, que n\u00e3o cabe no mundo, enfim, que n\u00e3o cabe em si mesmo. H\u00e1 uma disson\u00e2ncia entre ele e si mesmo, o que, por sua vez, o leva a ser sempre dissonante em rela\u00e7\u00e3o a tudo. Ele n\u00e3o percebeu ainda que a sua ess\u00eancia \u00e9 o paradoxo, que ele, ali\u00e1s, equivocadamente, considera contradi\u00e7\u00e3o. \u00c9 por confundir paradoxo com contradi\u00e7\u00e3o que vive nessa disparidade, arrastando por a\u00ed afora o fardo de sentir-se o que n\u00e3o \u00e9 e nunca se sentir o que, de fato, \u00e9.<\/p>\n<p>Ele n\u00e3o percebeu ainda que uma fic\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode morrer. O problema \u00e9 que ele \u00e9 um daqueles tipos que sempre se mete onde n\u00e3o \u00e9 chamado. Um tipo intrometido. Ele quer estar entre os escolhidos. N\u00e3o sabe que, no m\u00e1ximo, seria um dos chamados, mas, nunca, um dos escolhidos. Pobre diabo, esse Artaban. Ele n\u00e3o sabe que o grande \u00eaxtase seria se adequar totalmente \u00e0 normalidade dos dias, com tudo que isso possa implicar. Mas ele anseia pelos extremos. Artaban \u00e9 um danado. E essa categoria, digo, a dos danados, \u00e9 uma categoria muito perigosa, por ser composta por tipos demasiado renitentes. Mas ningu\u00e9m corre perigo perto deles. Os danados s\u00f3 s\u00e3o perigosos para si mesmos, o \u00fanico mal que podem causar \u00e9 a si mesmos. Mas, de sa\u00edda, devo advertir que a desgra\u00e7a est\u00e1 feita, pois o grande mal foi terem nascido, o que os precipitou pelo resto dos dias nessa corda bamba que \u00e9 a vida.<\/p>\n<p>Porque os danados s\u00e3o assim, vivem se equilibrando numa corda bamba.<\/p>\n<div id=\"attachment_1709\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignright\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1709\" class=\"size-thumbnail wp-image-1709\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/44\/2010\/03\/nietzsche_0211-150x150.jpg\" alt=\"Firedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)\" width=\"150\" height=\"150\" \/><p id=\"caption-attachment-1709\" class=\"wp-caption-text\">Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900)<\/p><\/div>\n<p>Nada lhes \u00e9 suficiente, pelo puro e simples fato de que eles n\u00e3o sabem o que querem. Na verdade, n\u00e3o sabem o que s\u00e3o, digo, n\u00e3o sabem quem s\u00e3o. Os danados n\u00e3o t\u00eam um centro. Descentrados, pois, vivem errantes pela vida provocando dana\u00e7\u00f5es. A\u00ed vem Artaban, um dos danados, querer se ombrear com gente da estirpe de Wilhelm Nietzsche. N\u00e3o sabe que Nietzsche n\u00e3o \u00e9 companhia desej\u00e1vel para fracotes como ele. Nietzsche foi um dos danados. Os danados n\u00e3o t\u00eam medo de se lascar. E Nietzsche se lascou.<\/p>\n<p>Artaban morre de medo. A\u00ed se encolhe todo. Depois de tantos anos de conv\u00edvio com Artaban, s\u00f3 recentemente percebi uma coisa: o grande medo que ele sente \u00e9 de si mesmo. E por isso vive adiando. Ah!, sim, Artaban adia demais. Ele n\u00e3o \u00e9. Incapaz de ser, est\u00e1 sempre em outro lugar, e est\u00e1 sempre em outro que n\u00e3o em si mesmo. Artaban me deixa confuso. Na verdade, para ser bem sincero, devo dizer que na maioria das vezes ele quase me faz enlouquecer. Vixe! O que foi que eu disse? Palavra \u00e9 pesada demais, essa: enlouquecer. Mas \u00e9 verdade. \u00c9 por isso que \u00e0s vezes evito sua companhia. Mas ele \u00e9 um destes tipos renitentes que n\u00e3o pedem licen\u00e7a. Ele chega e se instala como quem veio para ficar. Quando isso acontece, s\u00f3 me resta aquiescer e ouvir o que ele tem a dizer. E eu que cuide para n\u00e3o me danar que nem ele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pois no s\u00e1bado ele voltou a rondar por aqui. 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