{"id":1718,"date":"2010-03-16T08:47:39","date_gmt":"2010-03-16T11:47:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1718"},"modified":"2010-03-16T08:47:39","modified_gmt":"2010-03-16T11:47:39","slug":"a-sincronicidade-e-uma-falacia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/03\/16\/a-sincronicidade-e-uma-falacia\/","title":{"rendered":"A sincronicidade \u00e9 uma fal\u00e1cia"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA sincronicidade \u00e9 uma fal\u00e1cia\u201d, ecoou nos meus ouvidos a frase l\u00edmpida e seca, vindo de fora da biblioteca. Antes mesmo, por\u00e9m, que o ente de quem partira a afirma\u00e7\u00e3o perempt\u00f3ria aparecesse na porta eu j\u00e1 sabia de quem se tratava: pelo tom da voz e pela forma como as palavras foram pronunciadas n\u00e3o poderia ser outro: o velho e renitente Artaban aparecia para mais uma de suas insistentes e inc\u00f4modas visitas. Suas palavras me chegaram quase como um insulto. Ele sabe da alta conta em que tenho o conceito junguiano de sincronicidade. E isso tanto \u00e9 fato que escolhi essa palavra para nomear o blog em que este texto est\u00e1 sendo postado.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 uma fal\u00e1cia, sim\u201d, prosseguiu Artaban adentrando a porta entreaberta da biblioteca, \u201ce n\u00e3o uma das menores fal\u00e1cias junguianas\u201d. \u201cO conceito de sincronicidade \u00e9 um engodo\u201d, disse. \u201cSaiba que, se submetido a um teste estat\u00edstico, ele n\u00e3o se sustenta\u201d. Eu estava pasmo. Fiquei olhando para ele, agora ali postado ante o bir\u00f4 em que me encontrava lendo, tantalizado. A surpresa foi tamanha que eu n\u00e3o sabia o que dizer. Pareceu-me que aquela ins\u00f3lita figura resolvera deliberadamente desconstruir tudo em que acredito. H\u00e1 menos de uma semana apareceu por aqui me jogando Nietzsche na cara, agora, o escolhido fora Jung e, como se n\u00e3o bastasse, ele escolhera para atacar um dos conceitos do Mestre su\u00ed\u00e7o de que mais gosto.<\/p>\n<p>Recomposto, depois de respirar profundamente, encarei-o, enfim: \u201cEnt\u00e3o a sincronicidade \u00e9 uma fal\u00e1cia?\u201d, indaguei. \u201cSim, caro amigo\u201d, redarguiu Artaban, \u201cessa hist\u00f3ria de sincronicidade, de que n\u00e3o existe acaso e outras baboseiras mais \u00e9 tudo conversa pra boi dormir. Est\u00e1 mais do que na hora de acordares e encarares os fatos da vida objetivamente. E saibas que, se objetivamente e com isen\u00e7\u00e3o te colocares diante da realidade, muitos desses conceitos junguianos que sempre tiveste em alta conta caem por terra. Ali\u00e1s, por boa parte da comunidade cient\u00edfica o tal mestre su\u00ed\u00e7o a quem tanto reverencias nunca foi levado muito a s\u00e9rio, sabes bem disso\u201d.\u00a0<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o sabia o que dizer. Estava mesmo paralisado ante a ousadia do meu recalcitrante amigo. Deveria defender os pontos de vista em que h\u00e1 muito passei a acreditar? Deveria aceitar a provoca\u00e7\u00e3o e contra-argumentar? Senti vontade de faz\u00ea-lo, mas apenas uma d\u00e9bil vontade. Artaban, eu tinha que admitir, estava tocando num ponto nevr\u00e1lgico do meu sistema de cren\u00e7as. Para ser bem sincero, ultimamente tenho questionado alguns conceitos e cren\u00e7as sobre os quais fui estruturando minha vis\u00e3o de mundo. Ora, em tal circunst\u00e2ncia, como contestar os arrazoados de Artaban? Senti-me encurralado. Enquanto, ensimesmado, me deixava levar por essas inc\u00f4modas rumina\u00e7\u00f5es, Artaban se aproximou da estante e passou os dedos vagarosamente pela cole\u00e7\u00e3o das obras completas de Carl Gustav Jung. Depois pegou um dos volumes da correspond\u00eancia do psiquiatra su\u00ed\u00e7o e, sem se virar para mim, leu em alto e bom som o trecho de uma das cartas em que Jung fala de subjetividade e consci\u00eancia do pr\u00f3prio valor. Fiz que n\u00e3o ouvi e enfiei a cara no volumoso \u201cA for\u00e7a das coisas\u201d, que eu tinha em m\u00e3os quando Artaban adentrara a biblioteca.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Ent\u00e3o fechei o livro e falei: \u201cArtaban, e o meu blog? Sabes que o denominei sincronicidade. E todos os temas de que nele tenho tratado de alguma forma est\u00e3o ligados a esse conceito. Olha, queres saber de uma coisa?, deixa-me em paz e fica l\u00e1 com tuas conclus\u00f5es e certezas que eu fico com as minhas. Tuas visitas inesperadas me t\u00eam perturbado um bocado. V\u00ea que j\u00e1 nem consigo escrever os textos di\u00e1rios para postagem no blog. E devo isso especialmente \u00e0s tuas inconvenientes intromiss\u00f5es. Sabes que h\u00e1 um lastro de vinte outras categorias sobre as quais posso escrever, mas parece que agora resolveste atrair toda aten\u00e7\u00e3o para ti. Para teu governo, \u00e9 bom te convenceres de que a 21\u00aa. categoria \u00e9 apenas mais uma, t\u00e3o importante quanto qualquer das demais\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAh!, \u00e9? Meu caro amigo\u201d, interpelou Artaban, \u201csaiba que se h\u00e1 algum equ\u00edvoco no nosso di\u00e1logo, esse deve ser creditado a ti e n\u00e3o a mim, pois, sem que te desses conta, criaste vinte outras categorias apenas como pretexto para a vig\u00e9sima primeira, objetivo m\u00e1ximo de tuas reflex\u00f5es. \u00c0 revelia de ti mesmo, elas te foram postas como iscas, e tu ca\u00edste direitinho. Mas n\u00e3o te perturbes tanto, no tempo certo&#8230;\u201d Interrompendo a frase,\u00a0 Artaban deu meia-volta e saiu, sem nem dizer um at\u00e9 logo, deixando-me de queixo ca\u00eddo, feito um tolo, sem saber exatamente o que pensar de suas impertinentes palavras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA sincronicidade \u00e9 uma fal\u00e1cia\u201d, ecoou nos meus ouvidos a frase l\u00edmpida e seca, vindo de fora da biblioteca. 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