{"id":1721,"date":"2010-03-16T09:21:08","date_gmt":"2010-03-16T12:21:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1721"},"modified":"2010-03-16T09:21:08","modified_gmt":"2010-03-16T12:21:08","slug":"o-demonio-meridiano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/03\/16\/o-demonio-meridiano\/","title":{"rendered":"O dem\u00f4nio meridiano"},"content":{"rendered":"<p>\u201cQue se passa? Resolveu se acovardar? Que hist\u00f3ria \u00e9 essa de postar um texto e depois exclu\u00ed-lo?\u201d Ergui os olhos e l\u00e1 estava ele, novamente, \u00e0 porta da biblioteca. Diabo de sujeitinho insistente, esse Artaban. Quando interrompi a leitura em que estava imerso e o fitei, ele me encarou, olhos nos olhos. Acho que corei, sei l\u00e1, s\u00f3 sei que fiquei meio desconcertado com as palavras que ele pronunciara, como sempre, sem aviso pr\u00e9vio. Depois de me fitar por n\u00e3o mais que alguns segundos, que, no entanto, tiveram para mim a dura\u00e7\u00e3o de uma eternidade, entrou, empertigando-se defronte ao bir\u00f4, diferentemente do que costumava fazer, pois nunca antes ele se postara assim t\u00e3o afrontosamente diante de mim. \u201cOlhe, rapaz\u201d, disparou com sua voz firme e acusativa, \u201cestou decepcionado com voc\u00ea. Eu nunca pensei que tal coisa pudesse acontecer. Como \u00e9 que pode?, postar um texto para, poucas horas depois, exclu\u00ed-lo&#8230; Estou mesmo surpreso com sua atitude. Parece que eu ando incomodando mesmo, n\u00e3o \u00e9?\u201d<\/p>\n<p>Artaban n\u00e3o estava para prosa. Referia-se ao texto que eu escrevera a semana passada, falando da ocasi\u00e3o em que ele aqui estivera e contestara o conceito junguiano de sincronicidade. Depois que ele saiu, escrevi um texto relatando nossa conversa e o postei no blog. Entretanto, me senti t\u00e3o perturbado que, \u00e0 noite, ao retornar do trabalho, resolvi exclu\u00ed-lo, n\u00e3o sem certo pesar, pois n\u00e3o me \u00e9 comum proceder dessa maneira. Mas eu estava t\u00e3o incomodado com o relato que fizera que n\u00e3o consegui manter o texto postado.<\/p>\n<p>Por enquanto, eu n\u00e3o pronunciara ainda uma \u00fanica palavra. Artaban, hirto diante do bir\u00f4, me deixava sem a\u00e7\u00e3o. Eu n\u00e3o sabia o que pensar nem o que fazer naquela situa\u00e7\u00e3o, estava mesmo encurralado. Mas Artaban era inclemente quando se tratava de confrontar as minhas convic\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o se fez de rogado. Indiferente \u00e0 minha express\u00e3o de desespero, prosseguiu: \u201cQue raio de convic\u00e7\u00e3o \u00e9 essa que n\u00e3o resiste a um confronto? Vejo que o alicerce sobre o qual edificaste tua vis\u00e3o de mundo parece bem fr\u00e1gil, n\u00e3o \u00e9 meu caro amigo? V\u00ea a leseira em que te encontras&#8230; Est\u00e1s t\u00e3o confuso que nem consegues escrever. Olha que agora tens um compromisso com teus leitores. N\u00e3o se brinca com as palavras. Escrever \u00e9 coisa s\u00e9ria. Eu sei o que anda te perturbando. N\u00e3o s\u00e3o apenas as minhas observa\u00e7\u00f5es que te incomodam. Aquilo que disse Simone Weil sobre a responsabilidade de escrever&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Por um momento parou de falar. A exemplo do que fizera quando aparecera por aqui na semana passada, se encaminhou em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 estante e pegou o volume tr\u00eas da correspond\u00eancia de Jung. Abriu o livro aleatoriamente e leu, em voz alta, uma carta de Jung ao Reverendo Morton Kelsey, pastor de uma igreja episcopal americana. A carta era a resposta de Jung a uma carta enviada pelo pastor na qual este tecera alguns coment\u00e1rios sobre o livro \u201cResposta a J\u00f3\u201d, obra que est\u00e1 elencada entre as mais pol\u00eamicas de quantas foram escritas pelo psiquiatra su\u00ed\u00e7o.<\/p>\n<p>Depois de ler a carta, Artaban fechou o livro, pondo-o de volta na prateleira de onde o tirara. Virou-se para mim e disse: \u201cN\u00e3o vou mais me demorar. Vim aqui com um objetivo: dizer-te que reconsidere tua atitude tomada h\u00e1 alguns dias quando resolveste excluir o texto sobre a sincronicidade. Deixa de bobagem e vai em frente. O ato foi cometido, no momento em que escreveste o relato. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 por que retroceder. Que medo \u00e9 este que toma conta de ti agora, te deixando paralisado? Faze o que tens que fazer. Posta novamente o texto, e deixa que as palavras, qual sementes lan\u00e7adas em solo f\u00e9rtil e bem adubado, produzam, a seu tempo, os frutos necess\u00e1rios. A verdade n\u00e3o pode ser escamoteada. N\u00e3o \u00e9 por te furtares a encarar de frente as quest\u00f5es que te s\u00e3o postas que te safar\u00e1s do inevit\u00e1vel confronto com a verdade. Eu s\u00f3 te digo uma coisa: quem pensa que se protege por evitar o confronto com suas d\u00favidas est\u00e1 armando uma cilada na qual, mais ou cedo ou mais tarde, cair\u00e1. Se n\u00e3o te deste conta ainda, quero te advertir de que o <em>dem\u00f4nio meridiano<\/em> est\u00e1 te rondando \u00e0 espera que o enfrentes; desse confronto, meu bom amigo, estejas certo, n\u00e3o poder\u00e1s fugir. Enfrenta-o logo e n\u00e3o proteles o que n\u00e3o pode mais ser protelado, pois j\u00e1 est\u00e1s atrasado em rela\u00e7\u00e3o a ti mesmo\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cQue se passa? Resolveu se acovardar? 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