{"id":1784,"date":"2010-04-06T11:21:53","date_gmt":"2010-04-06T14:21:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=1784"},"modified":"2010-04-06T11:21:53","modified_gmt":"2010-04-06T14:21:53","slug":"a-aposta-de-pascal-na-religiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/04\/06\/a-aposta-de-pascal-na-religiao\/","title":{"rendered":"A aposta de Pascal na religi\u00e3o"},"content":{"rendered":"<div><em><span style=\"color: #800080\"><\/span><\/em><\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\"><\/p>\n<div id=\"attachment_1785\" style=\"width: 317px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-1785\" class=\"size-full wp-image-1785\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/04\/blaise-pascal.jpg\" alt=\"Blaise Pascal (\" width=\"307\" height=\"455\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/04\/blaise-pascal.jpg 307w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/04\/blaise-pascal-300x445.jpg 300w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/04\/blaise-pascal-120x178.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 307px) 100vw, 307px\" \/><p id=\"caption-attachment-1785\" class=\"wp-caption-text\">Blaise Pascal (1623-1662)<\/p><\/div>\n<p>Se n\u00e3o se devesse fazer nada sen\u00e3o pelo certo, nada se deveria fazer pela religi\u00e3o: pois ela n\u00e3o \u00e9 certa. Mas quantas coisas s\u00e3o feitas pelo incerto, as viagens mar\u00edtimas, as batalhas! Digo, pois, que n\u00e3o se deveria fazer absolutamente nada, pois nada \u00e9 certo; e que h\u00e1 mais certeza na religi\u00e3o do que na possibilidade de vermos o dia de amanh\u00e3: pois n\u00e3o \u00e9 certo que veremos o dia de amanh\u00e3, mas \u00e9 bem poss\u00edvel que n\u00e3o o vejamos. O mesmo n\u00e3o se pode dizer da religi\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 certo que seja verdadeira; mas quem ousar\u00e1 dizer que \u00e9 certamente poss\u00edvel que n\u00e3o o seja? Ora, quando se trabalha pelo dia de amanh\u00e3, isto \u00e9, pelo incerto, procede-se judiciosamente: pois, de acordo com a regra das probabilidades que ficou demonstrada, \u00e9 necess\u00e1rio trabalhar pelo incerto.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/span><\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Santo Agostinho viu que se trabalha pelo incerto no mar, numa batalha etc.; mas n\u00e3o conheceu a regra das probabilidades, que demonstra que assim se deve fazer. Montaigne viu que os homens se ofendem diante de um esp\u00edrito coxo e que o costume \u00e9 todo-poderoso; mas n\u00e3o viu a raz\u00e3o desse efeito.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Todas essas pessoas viram os efeitos, mas n\u00e3o as causas; em confronto com os que descobriram as causas, s\u00e3o como aqueles que s\u00f3 t\u00eam olhos em compara\u00e7\u00e3o com os que possuem o esp\u00edrito; porque os efeitos s\u00e3o por assim dizer sens\u00edveis, e as causas s\u00f3 s\u00e3o percept\u00edveis para o esp\u00edrito. E, embora os efeitos desta sorte sejam tamb\u00e9m vistos pelo esp\u00edrito, em confronto com o esp\u00edrito que v\u00ea as causas, esse esp\u00edrito \u00e9 como os sentidos corporais em confronto com o esp\u00edrito.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Blaise Pascal<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #000080\"><span style=\"color: #800080\"><em>[Pascal, Blaise. <\/em><strong>Pensamentos<\/strong><\/span><em><span style=\"color: #800080\">. Tradu\u00e7\u00e3o de Pietro Nassetti. &#8211; S\u00e3o Paulo: Martin Claret, 2003, silogismo 212 (234), p. 139<\/span>.]<\/em>\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Ouvi falar de pascal pela primeira vez quando, ainda na faculdade, um colega de curso, o Jos\u00e9 Marcos de Castro, indagou, durante uma conversa em que fal\u00e1vamos de filosofia: \u201cVasco, voc\u00ea j\u00e1 leu Pascal?\u201d ante minha resposta negativa, ele completou, tomado por grande entusiasmo: \u201cVoc\u00ea precisa ler Pascal. Tem aquela frase dele, muito citada, \u2018O cora\u00e7\u00e3o tem raz\u00f5es que a pr\u00f3pria raz\u00e3o desconhece\u2019, mas h\u00e1 coisas muito mais profundas. Voc\u00ea precisa ler os Pensamentos\u201d. Guardei comigo a sugest\u00e3o. Eu esperaria ainda muitos anos at\u00e9 que tivesse a oportunidade de mergulhar nos aforismos pascalinos. Nele eu encontraria id\u00e9ias que fariam eco a muitas das minhas d\u00favidas e inquieta\u00e7\u00f5es, especialmente no que tange \u00e0quela que, segundo Pascal, constitui a quest\u00e3o mais importante de que deveria se ocupar qualquer pessoa: o sentido da vida, que, por sua vez, remete a dois outros inevit\u00e1veis enigmas, a exist\u00eancia de Deus e a imortalidade da alma.<\/p>\n<p>Blaise Pascal (Clermont-Ferrand, 1623-Paris, 1662) foi f\u00edsico, matem\u00e1tico, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo. Apesar de ter vivido apenas 39 anos, deu grandes contribui\u00e7\u00f5es \u00e0 f\u00edsica e \u00e0 matem\u00e1tica, mas n\u00e3o me deterei aqui nestes aspectos de sua obra, pois me importa mais falar dele como te\u00f3logo. Pascal conta-se entre estes raros indiv\u00edduos que fizeram da busca de Deus uma quest\u00e3o constelar de sua vida, ou seja, tudo o mais girava em torno dela. N\u00e3o lhe era suficiente acreditar por acreditar, ou seja, professar uma religi\u00e3o calcada numa f\u00e9 morna e ins\u00edpida comum \u00e0queles que, por comodismo, rejeitam a d\u00favida e as quest\u00f5es com as quais ela, a f\u00e9, se levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias, inevitavelmente confrontar\u00e1 o sujeito.<\/p>\n<p>Da\u00ed por que afirmar\u00e1, com propriedade e conhecimento de causa: \u201cS\u00f3 posso sentir compaix\u00e3o pelos que gemem sinceramente, dilacerados por essa d\u00favida que consideram como a \u00faltima das infelicidades e, n\u00e3o se poupando a nenhum esfor\u00e7o para livrar-se dela, fazem dessa busca a sua principal e mais s\u00e9ria ocupa\u00e7\u00e3o\u201d (silogismo 174 (194), p. 118).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Se n\u00e3o se devesse fazer nada sen\u00e3o pelo certo, nada se deveria fazer pela religi\u00e3o: pois ela n\u00e3o \u00e9 certa. 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