{"id":2003,"date":"2010-08-25T11:11:08","date_gmt":"2010-08-25T14:11:08","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2003"},"modified":"2010-08-25T11:11:08","modified_gmt":"2010-08-25T14:11:08","slug":"os-minusculos-prazeres-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/08\/25\/os-minusculos-prazeres-da-vida\/","title":{"rendered":"Os min\u00fasculos prazeres da vida"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-2006\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/os-minusculos-prazeres-da-vida\/primeiro-gole-da-cerveja\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2006\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/08\/Primeiro-gole-da-cerveja.jpg\" alt=\"\" width=\"280\" height=\"280\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/08\/Primeiro-gole-da-cerveja.jpg 280w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/08\/Primeiro-gole-da-cerveja-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/08\/Primeiro-gole-da-cerveja-120x120.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 280px) 100vw, 280px\" \/><\/a>Mas pouco importa. O que conta \u00e9 o momento da pequena frase. E se a gente fosse&#8230; \u00c9 bom, a vida no condicional, como antigamente nas brincadeiras de crian\u00e7a: \u201cFaz de conta que voc\u00ea \u00e9&#8230;\u201d Uma vida inventada, que contraria as certezas. Uma vida quase: esse frescor, ao alcance da m\u00e3o. Uma fantasia modesta, dedicada \u00e0 degusta\u00e7\u00e3o transposta dos ritos dom\u00e9sticos. Uma brisa de folia bem-comportada que muda tudo sem nada mudar.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Philippe Delerm<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Delerm, Philippe. <strong>E se a gente fosse comer l\u00e1 fora<\/strong>. Em:<\/em> <strong>O primeiro gole da cerveja e outros min\u00fasculos prazeres<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de Leny Werneck. \u2013 Rio de Janeiro: Rocco, 2000, p. 26. \u2013 (Prazeres &amp; sabores)]<\/em><\/span><\/p>\n<p>H\u00e1 alguns anos eu me encontrava no aeroporto de Aracaju aguardando o voo que me traria de volta a Fortaleza, quando resolvi experimentar um dos prazeres que j\u00e1 se tornou para mim habitual nestas ocasi\u00f5es: \u00a0entrar na livraria La Selva \u2013 sempre encontradas em aeroportos \u2013 e dar uma olhada nos livros. Vez por outra trago para casa alguma nova aquisi\u00e7\u00e3o. Pois bem, foi no ex\u00edguo espa\u00e7o da La Selva, no sagu\u00e3o de embarque do aeroporto, que \u00a0descobri numa prateleira um livro cujo t\u00edtulo de imediato me atraiu: <em>O primeiro gole da cerveja<\/em>. \u00a0Quando o tomei em minhas m\u00e3os percebi que o t\u00edtulo continuava, escrito em tipos menores:<em> e outros min\u00fasculos prazeres<\/em>.<\/p>\n<p>Virei a capa e dei uma lida no que estava escrito na orelha: \u201cBeber uma cerveja, comprar doces, andar com alpargatas na chuva, tomar um gostoso banho de banheira, sorver um vinho do porto, ouvir os ru\u00eddos de uma bicicleta&#8230; O que h\u00e1 de excepcional nisso? Nada\u201d. O texto continuava: \u201cAs pequenas cr\u00f4nicas de Philippe Delerm, no entanto, revelam que por tr\u00e1s de cada ato aparentemente banal, se esconde um mundo de possibilidades prazerosas, que \u00e9 vital aproveitar em sua plenitude\u201d. \u00a0<\/p>\n<p>Dei uma olhada nos t\u00edtulos das cr\u00f4nicas e fui direito \u00e0 que dava t\u00edtulo ao livro. Uma del\u00edcia! Uma maravilha! Com que prazer li aquela cr\u00f4nica, \u00e0 qual retornaria por diversas vezes \u2013 o que ainda hoje fa\u00e7o, \u00a0passados j\u00e1 quase dez anos desde que adquiri o livro. Para quem tem na degusta\u00e7\u00e3o de um copo de cerveja um dos raros prazeres da vida, n\u00e3o poderia ter encontrado mesmo nada mais atraente do que a bela descri\u00e7\u00e3o do primeiro gole sorvido pelos afei\u00e7oados desse l\u00edquido maravilhosos a que Delerm atribui a alcunha de \u201couro espumante\u201d.<\/p>\n<p>Na frase que abre o primeiro par\u00e1grafo da cr\u00f4nica o autor resume, em poucas palavras, o objeto de seu texto, quando escreve: \u201c\u00c9 o \u00fanico que conta\u201d. E prossegue: \u201cOs outros, cada vez mais longos, cada vez mais an\u00f3dinos, d\u00e3o apenas frouxo amolecimento, sensa\u00e7\u00e3o de abund\u00e2ncia esbanjada. O \u00faltimo, talvez, encerra a desilus\u00e3o do fim de um falso poder\u201d.<\/p>\n<p>Feita esta breve introdu\u00e7\u00e3o, passa a falar do deleitoso prazer proporcionado pelo primeiro gole: \u201cMas o primeiro gole! Gole? A coisa come\u00e7a muito acima da garganta. Esse ouro espumante vem pelos l\u00e1bios, frescura \u00a0ampliada pela espuma que passa depois, lentamente, pelo c\u00e9u da boca, uma felicidade filtrada de amargor. Como parece longo, esse primeiro gole! Ele \u00e9 bebido \u00e0s pressas, com uma avidez falsamente instintiva. Na verdade, tudo est\u00e1 escrito: a quantidade, esse nem de mais nem de menos que faz a sedu\u00e7\u00e3o ideal; o bem-estar imediato, acentuado por um suspiro, um estalar de l\u00edngua ou um sil\u00eancio equivalente; a sensa\u00e7\u00e3o enganosa de um prazer que se abre at\u00e9 o infinito&#8230;\u201d<\/p>\n<p>No final, conclui: \u201cMas diante da pequena mesa branca salpicada de sol, o alquimista decepcionado salva apenas as apar\u00eancias e bebe mais e mais cerveja com menos e menos alegria. \u00c9 uma felicidade amarga: bebemos para esquecer o primeiro gole\u201d (p. 29-30).<\/p>\n<p>Philippe Delerm, nascido em 1950, \u00e9 um dos autores mais lidos na Fran\u00e7a, tendo publicado romances, novelas, ensaios, cr\u00f4nicas e <a rel=\"attachment wp-att-2007\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/os-minusculos-prazeres-da-vida\/080312_delerm\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-2007\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/08\/080312_Delerm.jpg\" alt=\"\" width=\"257\" height=\"193\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/08\/080312_Delerm.jpg 257w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/08\/080312_Delerm-120x90.jpg 120w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 257px) 100vw, 257px\" \/><\/a>\u00a0obras infanto-juvenis. O livro aqui comentado granjeou-lhe o pr\u00eamio Grandgousier. J\u00e1 tive oportunidade de mencionar nesse blog uma categoria que criei para classificar determinados livros da minha biblioteca, categoria essa a que atribu\u00ed o nome de livros-talism\u00e3. Pois bem, O primeiro gole da cerveja e outros min\u00fasculos prazeres \u00e9 um dos que ocupa hoje um lugar entre os livros dessa prateleira especial.<\/p>\n<p>\u00c9 sempre motivo de grande prazer ler as pequenas e deliciosas cr\u00f4nicas de Delerm. \u00a0Al\u00e9m da que foi aqui comentada, eu poderia citar diversas outras de que gosto muito, mas vou concluir mencionando uma, da qual citei um trecho em ep\u00edgrafe a este texto. Trata-se da cr\u00f4nica \u201cE se a gente fosse comer l\u00e1 fora\u201d, na qual o autor escreve uma frase que se tornou uma das minhas prediletas desse livro: \u201cUma vida inventada, que contraria as certezas\u201d (p.26).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mas pouco importa. O que conta \u00e9 o momento da pequena frase. E se a gente fosse&#8230; \u00c9 bom, a vida no condicional, como antigamente&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-2003","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-03-arcano-iii-digressoes-de-um-bibliofilo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2003","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2003"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2003\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2003"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2003"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2003"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}