{"id":233,"date":"2009-07-28T06:21:28","date_gmt":"2009-07-28T11:21:28","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=233"},"modified":"2009-07-28T06:21:28","modified_gmt":"2009-07-28T11:21:28","slug":"carl-gustav-jung-ou-a-ousadia-de-tornar-se-o-que-se-e","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2009\/07\/28\/carl-gustav-jung-ou-a-ousadia-de-tornar-se-o-que-se-e\/","title":{"rendered":"Carl Gustav Jung ou A ousadia de tornar-se o que se \u00e9"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #000080\">Minhas obras podem ser consideradas como esta\u00e7\u00f5es de minha vida; constituem a express\u00e3o mesma do meu desenvolvimento interior, pois consagrar-se aos conte\u00fados do inconsciente forma o homem e determina sua evolu\u00e7\u00e3o, sua metamorfose. Minha vida \u00e9 minha a\u00e7\u00e3o, meu trabalho consagrado ao esp\u00edrito \u00e9 minha vida; seria imposs\u00edvel separar um do outro. Todos os meus escritos s\u00e3o, de certa forma, tarefas que me foram impostas de dentro. Nasceram sob a press\u00e3o de um destino. O que escrevi transbordou de minha interioridade. Cedi a palavra ao esp\u00edrito que me agitava.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">Carl Gustav Jung<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #000080\">[Mem\u00f3rias, Sonhos, Reflex\u00f5es. Reunidas e editadas por Aniela Jaff\u00e9. Trad. de Dora Ferreira da Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, s\/d, p. 194]<\/span><\/em><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>A primeira vez que ouvi algu\u00e9m falar em Jung foi em 1976, quando tinha quinze anos de idade e residia ainda em Massap\u00ea. Um amigo que j\u00e1 n\u00e3o se encontra entre n\u00f3s, M\u00e1rio Cunha, mostrou-me uma pequena biografia de Jung escrita pela Dra. Nise da Silveira. O exemplar pertencia ao seu irm\u00e3o, Jos\u00e9 Auri.\u00a0 Aquele livro de capa amarela nunca me saiu da mem\u00f3ria. Somente h\u00e1 uns dois anos consegui adquirir um para mim, encontrado em um sebo.<\/p>\n<p>Sem que eu o soubesse, naquela ocasi\u00e3o, ainda na minha adolesc\u00eancia, me era apresentada uma figura que estava fadada a desempenhar importante papel futuramente em minha vida. Ao iniciar o curso de psicologia, Jung seria um dos primeiros te\u00f3ricos a despertar meu interesse. Apesar do reconhecimento que tenho pela genialidade de Freud, seria Jung o te\u00f3rico que eu tomaria como refer\u00eancia a partir do in\u00edcio dos anos oitenta, retornando sempre \u00e0s suas obras, a partir de ent\u00e3o, a intervalos mais ou menos regulares.<\/p>\n<p>Jung nasceu na Su\u00ed\u00e7a em 1875 e faleceu em 1961, ano do meu nascimento. A primeira descoberta do valor da obra junguiana me veio com a leitura de sua autobiografia, &#8220;Mem\u00f3ria, Sonhos e Reflex\u00f5es&#8221;, em 1982. A leitura desse livro me impressionou muito, provocando-me profundas transforma\u00e7\u00f5es. Ao longo das duas d\u00e9cadas seguintes eu retornaria sempre a ele. Tenho comigo dois exemplares do mesmo livro. O primeiro est\u00e1 t\u00e3o deteriorado pelos constantes manuseios, anota\u00e7\u00f5es e grifos, que senti a necessidade de adquirir um segundo exemplar. \u00a0<\/p>\n<p>O que me fascina e atrai em Jung \u00e9 a imbrica\u00e7\u00e3o perfeita e completa entre sua vida e obra, n\u00e3o se podendo considerar uma separada da outra. Jung teve o privil\u00e9gio de conseguir transformar os aspectos mais singulares de sua vida em teoria. Ao teorizar sobre alguns acontecimentos e h\u00e1bitos, muitas vezes ins\u00f3litos, Jung conseguiu atribuir um sentido ao que, do contr\u00e1rio, poderia t\u00ea-lo feito resvalar n\u00e3o apenas para a neurose, mas at\u00e9 mesmo para uma poss\u00edvel psicose.<\/p>\n<p>Ele se permitiu ousar. Mas n\u00e3o se permitiu ousar apenas teoricamente. Ele ousou na pr\u00f3pria vida. N\u00e3o hesitou em p\u00f4r em risco sua idoneidade como cientista e terapeuta. Conferiu um valor todo especial a assuntos tidos como carentes de valor cient\u00edfico ou acad\u00eamico, como, por exemplo, a astrologia e o tar\u00f4. Tamb\u00e9m n\u00e3o se furtou ao fasc\u00ednio pelo I Ching, o milenar or\u00e1culo chin\u00eas, \u00e0 \u00e9poca ainda inexplorado pelos ocidentais.<\/p>\n<p>Ele fez de tudo: consultou o I Ching e o Tar\u00f4, fez mapas astrais, vasculhou os s\u00edmbolos esot\u00e9ricos da alquimia, dialogou com esp\u00edritos, se arriscou pelos meandros obscuros da ufologia, dedicou-se ao estudo de antigas religi\u00f5es, se aventurou entre os \u00edndios pueblos e aportou na \u00cdndia para conhecer, <em>in loco<\/em>, suas milenares tradi\u00e7\u00f5es religiosas. Consta que, quando de sua morte, aos 86 anos, estava em andamento a leitura que vinha fazendo do &#8220;Livro tibetano dos Mortos&#8221;.<\/p>\n<p>\u00c9 isso o que faz de mim um eterno apaixonado por esse Mestre que tomei como exemplo a ser seguido: sua coragem em dar vaz\u00e3o \u00e0s suas curiosidades e fantasias. E, a par disso, a grande capacidade de transformar toda essa miscel\u00e2nea em teoria pass\u00edvel de ser estudada por outros que resolvam seguir-lhe as pegadas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Minhas obras podem ser consideradas como esta\u00e7\u00f5es de minha vida; constituem a express\u00e3o mesma do meu desenvolvimento interior, pois consagrar-se aos conte\u00fados do inconsciente forma&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[17],"tags":[],"class_list":["post-233","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-44-o-que-aprendi-com-os-mestres"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=233"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/233\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=233"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=233"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=233"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}