{"id":2391,"date":"2010-10-07T06:21:19","date_gmt":"2010-10-07T09:21:19","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2391"},"modified":"2010-10-07T06:21:19","modified_gmt":"2010-10-07T09:21:19","slug":"destino-e-livre-arbitrio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/10\/07\/destino-e-livre-arbitrio\/","title":{"rendered":"Destino e livre-arb\u00edtrio"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\"><a rel=\"attachment wp-att-2395\" href=\"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/destino-e-livre-arbitrio\/bonhoeffer_1\/\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-thumbnail wp-image-2395\" src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/themes\/veen\/assets\/images\/transparent.gif\" data-lazy=\"true\" data-src=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/10\/Bonhoeffer_1-150x150.jpg\" alt=\"\" width=\"150\" height=\"150\" data-srcset=\"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/10\/Bonhoeffer_1-150x150.jpg 150w, https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-content\/uploads\/sites\/29\/2010\/10\/Bonhoeffer_1-200x200.jpg 200w\" data-sizes=\"auto, (max-width: 150px) 100vw, 150px\" \/><\/a>Muitas vezes refleti aqui sobre onde estariam os limites entre a necess\u00e1ria resist\u00eancia contra o \u201cdestino\u201d e a igualmente necess\u00e1ria submiss\u00e3o. (&#8230;) Creio que realmente devemos empreender coisas grandes e pr\u00f3prias, mas ao mesmo tempo fazer o que \u00e9 \u00f3bvia e universalmente necess\u00e1rio; precisamos enfrentar o \u201cdestino\u201d \u2013 o fato de esse conceito ser \u201cneutro\u201d me parece importante \u2013 com a mesma determina\u00e7\u00e3o com que devemos nos submeter a ele em tempo oportuno. S\u00f3 se pode falar de \u201ccondu\u00e7\u00e3o\u201d para al\u00e9m desse duplo processo; Deus n\u00e3o vem ao nosso encontro apenas como um tu, mas tamb\u00e9m \u201cdisfar\u00e7ado\u201d de \u201cisso\u201d; portanto, a minha quest\u00e3o trata, no fundo, de como podemos achar um \u201ctu\u201d nesse \u201cisso\u201d (\u201cdestino\u201d), ou em outras palavras \u2013 (&#8230;) \u2013 como o \u201cdestino\u201d torna-se de fato \u201ccondu\u00e7\u00e3o\u201d.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Dietrich Bonhoeffer<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Bonhoeffer, Dietrich.<\/em> <strong>Resist\u00eancia e submiss\u00e3o: cartas e anota\u00e7\u00f5es escritas na pris\u00e3o<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o de N\u00e9lio Schneider. S\u00e3o Leopoldo, RS: Sinodal, 2003, Carta para Eberhard Bethge, p. 306-307.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Fiquei profundamente impressionado quando li as primeiras p\u00e1ginas do volume das cartas e anota\u00e7\u00f5es escritas pelo te\u00f3logo protestante Dietrich Bonhoeffer ao longo dos 23 meses em que permaneceu preso pela pol\u00edcia nazista alem\u00e3, antes de ser executado, \u00e0s v\u00e9speras da capitula\u00e7\u00e3o do regime totalit\u00e1rio de Hitler. Minha descoberta de Bonhoeffer aconteceu em 2004. Desde ent\u00e3o, a curtos intervalos de tempo, retorno \u00e0 leitura de suas cartas e anota\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Curioso nesse retorno que sempre fa\u00e7o ao te\u00f3logo alem\u00e3o \u00e9 o sentimento contradit\u00f3rio que experimento cada vez que o leio. Incomoda-me profundamente comparar sua vida com o fim tr\u00e1gico que o destino lhe reservou. Homem de uma integridade admir\u00e1vel, dotado de um fino senso \u00e9tico e moral, profundamente sens\u00edvel \u00e0 condi\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil e sofredora da humanidade, e, sobretudo, de uma coer\u00eancia a toda prova, custa-me pensar que este homem, que, al\u00e9m de tudo isso, dedicou boa parte de sua vida \u00e0 dissemina\u00e7\u00e3o da mensagem de Cristo, tenha tido um fim t\u00e3o tr\u00e1gico e t\u00e3o precoce, pois foi morto quando contava apenas 39 anos. Mais tr\u00e1gico e perturbador ainda \u00e9 saber que por uma diferen\u00e7a de um ou dois dias sua vida poderia ter sido poupada.<\/p>\n<p>Na pris\u00e3o, Bonhoeffer indagava-se sobre o destino e sobre a manifesta\u00e7\u00e3o de Deus nesse mesmo destino, o destino humano, o itiner\u00e1rio de uma vida. Qual \u00e9 a interfer\u00eancia de Deus no destino?\u00a0Uma outra pergunta, que antece\u00a0essa, igualmente inquietante, n\u00e3o pode silenciar: existe um destino a ser cumprido? Quais s\u00e3o os limites do livre-arb\u00edtrio na determina\u00e7\u00e3o dos fatos de que \u00e9 feita uma vida? At\u00e9 que ponto nos \u00e9 dado escolher e at\u00e9 que ponto somos impelidos, \u00e0 revelia de n\u00f3s mesmos, a cumprir um determinado itiner\u00e1rio de vida? Em suam: Deus efetivamente interfere no destino humano?<\/p>\n<p>Ante tais indaga\u00e7\u00f5es, o espa\u00e7o que sobra para o mist\u00e9rio \u00e9 muito maior do que o que se consegue ter para a elucida\u00e7\u00e3o das quest\u00f5es. Ainda assim o homem segue, prossegue, insistindo em crer num Deus que, n\u00e3o raras vezes, se faz notar muito mais pela aus\u00eancia do que pela presen\u00e7a. Numa outra carta \u00a0endere\u00e7ada a Eberhard Bethge, escrita na pris\u00e3o em 16 de julho de 1944, encontramos algumas das palavras mais pungentes de Bonhoeffer, palavras sobre as quais tenho refletido desde que as li pela primeira vez:<\/p>\n<p><em>E n\u00e3o podemos ser honestos sem reconhecer que temos de viver no mundo \u2013 <\/em>etsi deus non deratur<em>. E reconhecemos justamente isto \u2013 perante Deus! Deus mesmo nos obriga a esse reconhecimento. Assim, nossa maioridade nos leva a um reconhecimento mais veraz de nossa situa\u00e7\u00e3o perante Deus. Deus nos faz saber que temos de viver como pessoas que d\u00e3o conta da vida sem Deus. O Deus que est\u00e1 conosco \u00e9 o Deus que nos abandona (Mc 15.34)! O Deus que faz com que vivamos no mundo sem a hip\u00f3tese de trabalho Deus \u00e9 o Deus perante o qual nos encontramos continuamente. Perante e com Deus vivemos sem Deus<\/em> (p. 487).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes refleti aqui sobre onde estariam os limites entre a necess\u00e1ria resist\u00eancia contra o \u201cdestino\u201d e a igualmente necess\u00e1ria submiss\u00e3o. (&#8230;) Creio que realmente devemos empreender coisas grandes e pr\u00f3prias, mas ao mesmo tempo fazer o que \u00e9 \u00f3bvia e universalmente necess\u00e1rio; precisamos enfrentar o \u201cdestino\u201d \u2013 o fato de esse conceito ser \u201cneutro\u201d me parece importante \u2013 com a mesma determina\u00e7\u00e3o com que devemos nos submeter a ele em tempo oportuno. S\u00f3 de pode falar de \u201ccondu\u00e7\u00e3o\u201d para al\u00e9m desse duplo processo; Deus n\u00e3o vem ao nosso encontro apenas como um tu, mas tamb\u00e9m \u201cdisfar\u00e7ado\u201d de \u201cisso\u201d; portanto, a minha quest\u00e3o trata, no fundo, de como podemos achar um \u201ctu\u201d nesse \u201cisso\u201d (\u201cdestino\u201d), ou em outras palavras \u2013 (&#8230;) \u2013 como o \u201cdestino\u201d torna-se de fato \u201ccondu\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nDietrich Bonhoeffer<br \/>\n[Bonhoeffer, Dietrich. Resist\u00eancia e submiss\u00e3o: cartas e anota\u00e7\u00f5es escritas na pris\u00e3o. Tradu\u00e7\u00e3o de N\u00e9lio Schneider. 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