{"id":2418,"date":"2010-10-21T08:41:08","date_gmt":"2010-10-21T11:41:08","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2418"},"modified":"2010-10-21T08:41:08","modified_gmt":"2010-10-21T11:41:08","slug":"crise-da-meia-idade-rito-de-iniciacao-a-maturidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/10\/21\/crise-da-meia-idade-rito-de-iniciacao-a-maturidade\/","title":{"rendered":"Crise da meia-idade: rito de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade"},"content":{"rendered":"<div><em><span style=\"color: #800080\">\u00a0<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span style=\"color: #800080\">\u00a0<\/span><\/em><\/div>\n<div><em><span style=\"color: #800080\"><\/span><\/em><\/div>\n<p><em><span style=\"color: #800080\"><\/p>\n<div class=\"mceTemp\">Resistimos \u00e0 nossa trilha, ao nosso destino, por causa do medo. E nunca \u00e9 demais enfatizar o medo e o tremor que podemos sentir quando recebemos o chamado para deixar para tr\u00e1s a seguran\u00e7a. Essa \u00e9, para a maior parte de n\u00f3s, uma experi\u00eancia assustadora: estamos desesperados para saber que as coisas v\u00e3o dar certo, mas tudo o que conseguimos ver \u00e9 o abismo. A jornada exige que nos desapeguemos dos fundamentos de quem fomos e do que temos acreditado sobre n\u00f3s mesmos e sobre a vida. Queremos ter a certeza de que n\u00e3o seremos aniquilados pelo caminho.<\/div>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p><\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Kathleen A. Brehony<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Brehony, Kathleen A.<\/em> <strong>Despertando na meia-idade: tomando consci\u00eancia do seu potencial de conhecimento e mudan\u00e7a<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o Thereza Christina F. Stummer. \u2013 S\u00e3o Paulo: Paulus, 1999, p. 45.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em todas as sociedades humanas encontramos relatos que falam do her\u00f3i que ouve um chamado para que deixe sua terra e se aventure por regi\u00f5es distantes em busca de algo valioso. Em geral, o her\u00f3i que parte nessa busca tem que enfrentar muitas dificuldades e perigos, n\u00e3o raras vezes manifestados sob a forma de monstros ou for\u00e7as mal\u00e9ficas. Em todos esses relatos, vencidas as dificuldades, durante as quais o her\u00f3i tem que demonstrar o seu valor, o aventureiro retorna \u00e0 sua terra, \u00e0 sua casa, portando algo valioso para si e para os outros. Um dos mais belos exemplos dessa categoria de mitos nos foi legado pela\u00a0cultura grega, com o mito de <em>Jas\u00e3o e o velo de ouro<\/em>.<\/p>\n<p>O que escrevi acima constitui uma s\u00edntese do chamado<em> mito do her\u00f3i<\/em>, largamente estudado pelo grande mit\u00f3logo Joseph Campbell. Antes dele, o psic\u00f3logo su\u00ed\u00e7o Carl Gustav Jung dedicou alguns estudos ao tema. Na verdade, essa jornada heroica por terras desconhecidas \u00e9 vivida por todos, mesmo que disso n\u00e3o nos apercebamos. Se pararmos para pensar na hist\u00f3ria de vida de cada um de n\u00f3s, perceberemos que houve momentos em que sentimos um forte apelo a mudar de vida, a fazer algo diferente, a <em>dar uma guinada<\/em>, como se diz popularmente. De acordo com Jung, uma das fases da vida em que tal chamado se faz sentir de forma mais forte, mais imperativa, situa-se entre os 35 e os 50 anos, quando a maioria das pessoas est\u00e1 atravessando a fase da vida que se tornou conhecida como<em> meia-idade<\/em>.<\/p>\n<p>Nessa fase, de uma forma ou de outra, a maioria das pessoas come\u00e7a a se colocar uma s\u00e9rie de quest\u00f5es que demandam uma resposta. Geralmente s\u00e3o quest\u00f5es que repercutem profundamente na dimens\u00e3o existencial da pessoa. A maior de todas elas, seguramente, \u00e9 a que diz respeito ao sentido da vida. Quer queiramos ou n\u00e3o admitir, a finitude se coloca como perspectiva nesta fase da vida. Dessa percep\u00e7\u00e3o surge a inevit\u00e1vel quest\u00e3o: <em>qual o sentido da minha vida?<\/em> \u00c9 a essa quest\u00e3o que a maioria das pessoas, j\u00e1 estando a esta altura com uma vida relativamente estabilizada, ter\u00e1 que responder.<\/p>\n<p>O pior \u00e9 que essa n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o que nos coloquemos ociosamente, por simples curiosidade. Ela brota do \u00e2mago de n\u00f3s mesmos, como um eco que se faz ouvir emanando das profundezas do ser. Geralmente ela vem acompanhada por sentimentos difusos e indefinidos, como insatisfa\u00e7\u00e3o, sensa\u00e7\u00e3o de vazio e falta de sentido, t\u00e9dio e, em casos mais graves, depress\u00e3o. Da resposta que o sujeito der a toda essa situa\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica em que se v\u00ea metido, depender\u00e1 a segunda metade da sua vida.<\/p>\n<p>Como apregoa Jung, quando algu\u00e9m come\u00e7a a se sentir conforme acima descrito \u00e9 ind\u00edcio de que for\u00e7as inconscientes est\u00e3o se fazendo notar. Geralmente algumas dimens\u00f5es da exist\u00eancia que foram negligenciadas durante a primeira metade da vida est\u00e3o clamando para serem considerados. Ao contr\u00e1rio do que muitos poderiam supor, este momento de crise n\u00e3o deve ser encarado como uma dificuldade, mas como uma grande oportunidade para que o sujeito cres\u00e7a, se permitindo dar o grande salto que o far\u00e1 ter acesso \u00e0 segunda idade adulta, quando come\u00e7a, de fato, a grande aventura da vida. Nesse momento, resistir ao imperativo da mudan\u00e7a de nada vai servir, pois ser\u00e1 apenas uma forma de adiar o enfrentamento de uma situa\u00e7\u00e3o que pode se revelar\u00a0tanto fonte de cura quanto de doen\u00e7a, dependendo apenas de como os desafios forem encarados.<\/p>\n<p>Para os que conseguem vivenciar a crise da meia-idade como um rito de inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 maturidade, os resultados podem ser surpreendentes. Nos pr\u00f3ximos meses, pretendo postar outros textos dando continuidade a este assunto que me causa imenso fasc\u00ednio, o qual venho estudando h\u00e1 alguns anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Resistimos \u00e0 nossa trilha, ao nosso destino, por causa do medo. E nunca \u00e9 demais enfatizar o medo e o tremor que podemos sentir quando recebemos o chamado para deixar para tr\u00e1s a seguran\u00e7a. Essa \u00e9, para a maior parte de n\u00f3s, uma experi\u00eancia assustadora: estamos desesperados para saber que as coisas v\u00e3o dar certo, mas tudo o que conseguimos ver \u00e9 o abismo. A jornada exige que nos desapeguemos dos fundamentos de quem fomos e do que temos acreditado sobre n\u00f3s mesmos e sobre a vida. Queremos ter a certeza de que n\u00e3o seremos aniquilados pelo caminho.<\/p>\n<p>Kathleen A. Brehony<\/p>\n<p>[Brehony, Kathleen A. Despertando na meia-idade: tomando consci\u00eancia do seu potencial de conhecimento e mudan\u00e7a. Tradu\u00e7\u00e3o Thereza Christina F. 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