{"id":2430,"date":"2010-10-22T23:00:07","date_gmt":"2010-10-23T02:00:07","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2430"},"modified":"2010-10-22T23:00:07","modified_gmt":"2010-10-23T02:00:07","slug":"a-palavra-minha-isca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/10\/22\/a-palavra-minha-isca\/","title":{"rendered":"A palavra como isca"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Muitas vezes at\u00e9 hoje tinha pegado na pena para escrever, contudo desistia, tomado pelo medo: \u00e9 que sinto grande temor \u2013 pe\u00e7o a Deus que me perdoe, mas sinto mesmo grande temor das letras do alfabeto, pois s\u00e3o g\u00eanios astutos, impudentes e perigosos; se abres o tinteiro, tu as liberas e elas fogem \u2013 e, ent\u00e3o, como subjug\u00e1-las? Animam-se, unem-se, separam-se, n\u00e3o d\u00e3o ouvidos ao que lhes ordenas, alinham-se no papel, negras, com suas caudas e seus chifres. \u00c9 em v\u00e3o que apelas para elas e lhes suplicas, pois s\u00e3o donas de sua vontade. Dan\u00e7am saltitantes, acasalam-se impudentemente diante de ti, revelam astuciosamente o que n\u00e3o querias confessar e recusam-se a unir aquilo que de mais profundo de teu \u00edntimo luta para sair e falar aos homens.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Nikos Kazantz\u00e1kis<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Kazantz\u00e1kis, Nikos.<\/em> <strong>O Pobre de Deus<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o \u00cdsis Borges Belchior da Fonseca. \u2013 S\u00e3o Paulo: Arx, 2002, p. 20.]<\/em> \u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>Escrever \u00e9 para mim muito mais que tenta\u00e7\u00e3o, que obriga\u00e7\u00e3o, que prazer, que tudo o que se possa imaginar em termos de adjetiva\u00e7\u00f5es. Escrever para mim \u00e9 um imperativo, uma necessidade quase t\u00e3o vital quanto comer. Se eu n\u00e3o escrever, se n\u00e3o fizer vir a lume o que est\u00e1 dentro de mim em estado j\u00e1 fecundado e pronto para nascer eu fene\u00e7o, eu n\u00e3o vivo. Escrever para mim \u00e9 quase t\u00e3o vital quanto respirar. Tenho que me conter e resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de eliminar deste texto o quase que j\u00e1 usei por duas vezes. \u00c9 que n\u00e3o quero atribuir ao ato de escrever um paroxismo tal que chegaria mesmo a aproxim\u00e1-lo do mais puro viver. Mas viver sem escrever seria quase n\u00e3o viver, algo assim como desviver.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o escrevo. Sucumbo ao \u00a0imperativo dos anjos e dem\u00f4nios tresloucados que me habitam e se agitam dentro de mim quando vem o \u00edmpeto de dar vaz\u00e3o \u00e0 palavra. Anjos e dem\u00f4nios tresloucados \u00e9 o que elas s\u00e3o, as palavras, t\u00e3o malditas quanto benditas, t\u00e3o beatificantes quanto satanizantes. Ensandecidas, elas se precipitam num louco desvario. Por isso escrever \u00e9 t\u00e3o perigoso, se n\u00e3o se tem cuidado as palavras ganham vida pr\u00f3pria e a\u00ed s\u00f3 Deus sabe o que pode acontecer. \u00a0<\/p>\n<p>As palavras escondem, mas muito mais revelam. Elas exp\u00f5em a alma de quem escreve. E a\u00ed, se n\u00e3o se tem cuidado, corre-se o risco de chegar a um ponto em que nada mais nos reste de n\u00f3s mesmos, puro avesso revelado. Mas mesmo sabendo do perigo que corro, ainda assim escrevo, eu, que do avesso do avesso que revelo fiz minha identidade, meu modo canhestro e gauche de ser. \u00c9 neste avesso que me escondo e fa\u00e7o da palavra a isca que vai fisgar o incauto leitor.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes at\u00e9 hoje tinha pegado na pena para escrever, contudo desistia, tomado pelo medo: \u00e9 que sinto grande temor \u2013 pe\u00e7o a Deus que me perdoe, mas sinto mesmo grande temor das letras do alfabeto, pois s\u00e3o g\u00eanios astutos, impudentes e perigosos; se abres o tinteiro, tu as liberas e elas fogem \u2013 e, ent\u00e3o, como subjug\u00e1-las? Animam-se, unem-se, separam-se, n\u00e3o d\u00e3o ouvidos ao que lhes ordenas, alinham-se no papel, negras, com suas caudas e seus chifres. \u00c9 em v\u00e3o que apelas para elas e lhes suplicas, pois s\u00e3o donas de sua vontade. Dan\u00e7am saltitantes, acasalam-se impudentemente diante de ti, revelam astuciosamente o que n\u00e3o querias confessar e recusam-se a unir aquilo que de mais profundo de teu \u00edntimo luta para sair e falar aos homens.<br \/>\nNikos Kazantz\u00e1kis<br \/>\n[Kazantz\u00e1kis, Nikos. O Pobre de Deus. Tradu\u00e7\u00e3o \u00cdsis Borges Belchior da Fonseca. \u2013 S\u00e3o Paulo: Arx, 2002, p. 20.]   <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[],"class_list":["post-2430","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-02-arcano-ii-no-principio-era-o-verbo"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2430","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2430"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2430\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2430"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2430"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2430"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}