{"id":2465,"date":"2010-10-25T06:49:08","date_gmt":"2010-10-25T09:49:08","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2465"},"modified":"2010-10-25T06:49:08","modified_gmt":"2010-10-25T09:49:08","slug":"chutando-o-pau-da-barraca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/10\/25\/chutando-o-pau-da-barraca\/","title":{"rendered":"Chutando o pau da barraca"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Quando algu\u00e9m chega \u00e0 meia-idade, ou, melhor dizendo, ao meio da vida, em geral a exist\u00eancia desta pessoa est\u00e1 organizada em padr\u00f5es psicol\u00f3gicos conhecidos, \u00e9 como se ela estivesse protegida pela fam\u00edlia e o trabalho. De repente acontece a crise: um dia a pessoa acorda e percebe que est\u00e1 sem g\u00e1s; a posse e o controle sobre a pr\u00f3pria vida soam inoperantes; o doce sabor da conquista parece amargo; os velhos padr\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o doem como calos nos p\u00e9s. A habilidade de valorizar as pr\u00f3prias conquistas \u2013 os filhos, o trabalho, as posi\u00e7\u00f5es de poder, as vit\u00f3rias \u2013 parece ter sido roubada, e a pessoa fica se perguntando o que foi que lhe aconteceu do dia para a noite. Aonde teriam ido parar todas aquelas coisas que lhe davam seguran\u00e7a, paz e sossego?<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Murray Stein<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Stein, Murray.<\/em> <strong>No meio da vida: uma perspectiva junguiana<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o Paula Maria Dip. \u2013 S\u00e3o Paulo: Paulus, 2007, p. 15. (Cole\u00e7\u00e3o amor e psique).]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Na semana passada postei neste blog um texto em que trato do tema da crise da meia-idade. Falei dos sentimentos difusos e contradit\u00f3rios que a maioria das pessoas experimenta quando chega este momento da vida. A sensa\u00e7\u00e3o mais preponderante \u00e9 de vazio, de falta de sentido, que, nos casos mais extremos, pode precipitar uma crise depressiva. Apesar do caos em que a pessoa imerge, por\u00e9m, o momento pode ser auspicioso, dependendo de como a situa\u00e7\u00e3o for conduzida.<\/p>\n<p>Uma vez soada a sirene, o alerta, o primeiro racioc\u00ednio que a pessoa faz \u00e9 o seguinte: do jeito que tenho vivido n\u00e3o posso continuar. Decorre desse pensamento a conclus\u00e3o de que algo precisa ser mudado, e \u00e9 a\u00ed que as coisas se complicam, porque, na maioria das vezes, a pessoa intui que precisa mudar, mas quase sempre n\u00e3o tem muita certeza quanto a que aspecto de sua vida precisa ser modificado. As hip\u00f3teses se sucedem, sendo as duas \u00e1reas mais comuns o casamento e o trabalho. E, de fato, quase sempre um ou outro, quando n\u00e3o os dois, \u00e9 afetado nessa etapa da vida. As primeiras alternativas, portanto, s\u00e3o: romper o casamento e procurar outro(a) parceiro(a) e\/ou mudar de atividade profissional.<\/p>\n<p>As coisas, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o simples. Assumir uma nova rela\u00e7\u00e3o ou mudar de atividade profissional nem sempre resolve a situa\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 em jogo \u00e9 algo muito mais profundo, e uma simples troca poder\u00e1 n\u00e3o solucionar o problema. Na verdade, o que \u00e9 exigido nesta fase da vida \u00e9 uma mudan\u00e7a de atitude. N\u00e3o restam d\u00favidas de que h\u00e1 casos em que a vida afetiva ou profissional da pessoa se encontra t\u00e3o estagnada, que n\u00e3o resta outra alternativa sen\u00e3o romper. No entanto, n\u00e3o \u00e9 sempre assim.<\/p>\n<p>O que \u00e9 exigido nesta fase \u00e9 muito mais uma ressignifica\u00e7\u00e3o da vida, com tudo o que isso possa implicar de mudan\u00e7a de atitude. Jung insiste em afirmar que todos os casos de crise da meia-idade que ele tratou tinham como n\u00facleo o anseio por um sentido espiritual para a vida. A busca de um esteio no qual o pessoa possa, a partir de ent\u00e3o, ancorar sua exist\u00eancia de forma a encontrar para ela um sentido \u00e9 a grande meta da segunda metade da vida.<\/p>\n<p>Para quem tem um credo religioso e consegue ressignificar sua busca na perspectiva de tal credo, provavelmente a travessia se d\u00ea de uma forma mais tranquila, digamos, menos ca\u00f3tica. Isso, por\u00e9m, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o comum. Vivemos numa sociedade altamente secularizada em que as religi\u00f5es tradicionais j\u00e1 n\u00e3o respondem satisfatoriamente a este anseio, ao contr\u00e1rio do que acontecia antes. Isso cria algumas dificuldades para quem est\u00e1 imerso na busca por algo que confira um novo sentido \u00e0 vida. Nem tudo, por\u00e9m, est\u00e1 perdido. Para quem se entrega integralmente \u00e0 busca, o pr\u00f3prio inconsciente se encarrega de, gradativamente, ir fornecendo as pitas que devem ser seguidas, basta permanecer atento e aberto que, a seu tempo, portas se abrir\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio n\u00e3o esquecer, por\u00e9m, que, nesta fase da vida, talvez seja necess\u00e1rio mesmo chutar o pau da barraca. Mas apenas destruir a barraca n\u00e3o resolver\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso reconstruir uma nova barraca, provavelmente mais bela, em que possamos nos instalar confortavelmente enquanto aguardamos o outono da vida chegar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando algu\u00e9m chega \u00e0 meia-idade, ou, melhor dizendo, ao meio da vida, em geral a exist\u00eancia desta pessoa est\u00e1 organizada em padr\u00f5es psicol\u00f3gicos conhecidos, \u00e9 como se ela estivesse protegida pela fam\u00edlia e o trabalho. De repente acontece a crise: um dia a pessoa acorda e percebe que est\u00e1 sem g\u00e1s; a posse e o controle sobre a pr\u00f3pria vida soam inoperantes; o doce sabor da conquista parece amargo; os velhos padr\u00f5es de atua\u00e7\u00e3o doem como calos nos p\u00e9s. A habilidade de valorizar as pr\u00f3prias conquistas \u2013 os filhos, o trabalho, as posi\u00e7\u00f5es de poder, as vit\u00f3rias \u2013 parece ter sido roubada, e a pessoa fica se perguntando o que foi que lhe aconteceu do dia para a noite. Aonde teriam ido parar todas aquelas coisas que lhe davam seguran\u00e7a, paz e sossego?<br \/>\nMurray Stein<br \/>\n[Stein, Murray. No meio da vida: uma perspectiva junguiana. Tradu\u00e7\u00e3o Paula Maria Dip. \u2013 S\u00e3o Paulo: Paulus, 2007, p. 15. 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