{"id":2469,"date":"2010-10-26T06:49:08","date_gmt":"2010-10-26T09:49:08","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2469"},"modified":"2010-10-26T06:49:08","modified_gmt":"2010-10-26T09:49:08","slug":"o-anseio-humano-pelo-sagrado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/10\/26\/o-anseio-humano-pelo-sagrado\/","title":{"rendered":"O anseio humano pelo sagrado"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Nietzsche, \u00e9 verdade, proclamou a morte dos Deuses, esperando que Foucault proclamasse a morte do homem (o que \u00e9 l\u00f3gico, j\u00e1 que o homem s\u00f3 se constitui como homem atrav\u00e9s de sua rela\u00e7\u00e3o com os Deuses). Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o cristianismo e, em certa medida, o Isl\u00e3 entraram em crise. \u00c9 verdade, enfim, que os soci\u00f3logos n\u00e3o cansam de nos repisar, de umas d\u00e9cadas para c\u00e1, o seu processo de \u201cseculariza\u00e7\u00e3o\u201d (sem perceber, ali\u00e1s, que estavam assim apenas retomando Hubert Spencer e os seus processos de diferencia\u00e7\u00e3o social: o religioso tende a se purificar de toda contamina\u00e7\u00e3o com aquilo que n\u00e3o \u00e9 ele pr\u00f3prio). <\/span><\/em><\/p>\n<p><em><\/em><em><span style=\"color: #800080\">Mas ser\u00e1 que a morte dos Deuses institu\u00eddos acarretaria o desaparecimento da experi\u00eancia instituinte do Sagrado em busca de novas formas nas quais se encarnar? Ser\u00e1 que a crise das organiza\u00e7\u00f5es religiosas n\u00e3o adviria de uma n\u00e3o-adequa\u00e7\u00e3o, cruelmente vivenciada, entre as exig\u00eancias da experi\u00eancia religiosa pessoal e os quadros institucionais nos quais quiseram mold\u00e1-la \u2013 com vistas, muitas vezes, a retirar-lhe o seu poder explosivo, considerado perigoso para a ordem social? Finalmente, ser\u00e1 que n\u00e3o estar\u00edamos hoje assistindo entre os jovens a uma nova busca apaixonada pelo sagrado, como se os nossos contempor\u00e2neos, depois de um razoavelmente longo per\u00edodo de desenvolvimento do ate\u00edsmo, ou apenas de uma entrega \u00e0 indiferen\u00e7a, estivessem outra vez se dando conta da exist\u00eancia, dentro de si, de um vazio espiritual a ser preenchido e constatassem, a partir dessa sensa\u00e7\u00e3o de vazio, que uma personalidade que n\u00e3o se enra\u00edza numa esp\u00e9cie de entusiasmo sagrado n\u00e3o passa, afinal, de uma personalidade castrada daquilo que constitui uma dimens\u00e3o antropol\u00f3gica universal e constante para todo homem que vivencie a dimens\u00e3o religosa?<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Roger Bastide<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Bastide, Roger.<\/em><strong> O sagrado selvagem<\/strong><em>. Em:<\/em> <strong>O sagrado selvagem e outros ensaios<\/strong><em>. Tradu\u00e7\u00e3o Doroth\u00e9e de Bruchard; revis\u00e3o t\u00e9cnica Reginaldo Prandi. \u2013 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 250.]<\/em><\/span><\/p>\n<p>Em 13 de dezembro de 1973, Roger Bastide\u00a0 proferiu uma confer\u00eancia nas Recontres Internationales de Gen\u00e8ve \u00e0 qual deu um t\u00edtulo que pode parecer intrigante (e, por que n\u00e3o dizer, instigante), \u201cO sagrado selvagem\u201d. No in\u00edcio de sua fala o grande soci\u00f3logo e antrop\u00f3logo franc\u00eas se refere \u00e0 t\u00e3o decantada morte de Deus apregoada por Nietzsche. At\u00e9 a\u00ed, nada de novo. A surpresa, no entanto, fica por conta da constata\u00e7\u00e3o do autor de que, mesmo considerando-se que a tal morte de Deus expresse uma verdade sobre o homem contempor\u00e2neo, nem por isso feneceu nesse mesmo homem o anseio pela experi\u00eancia do sagrado. Isso porque tal anseio estaria profundamente arraigado no ser humano, constituindo mesmo uma dimens\u00e3o antropol\u00f3gica universal,<\/p>\n<p>Lendo o inspirado texto de Bastide, n\u00e3o posso deixar de reparar na veem\u00eancia com que as pessoas t\u00eam buscado se reaproximar do sagrado, o que pode ser facilmente constatado pela prolifera\u00e7\u00e3o de publica\u00e7\u00f5es versando sobre esoterismo, mitologia, religi\u00f5es orientais, xamanismo e tantas outras formas de manifesta\u00e7\u00e3o do sagrado. Pode-se afirmar que uma verdadeira mar\u00e9 de misticismo vem grassando nos mais diversos pa\u00edses nas \u00faltimas quatro ou cinco d\u00e9cadas.<\/p>\n<p>Note-se que a confer\u00eancia de Bastide data do in\u00edcio dos anos setenta. J\u00e1 naquela \u00e9poca esse incremento da busca por tudo o que pudesse servir como aproxima\u00e7\u00e3o do sagrado se fazia notar. Quasee quatro d\u00e9cadas depois, tal anseio s\u00f3 tem aumentado, e como tem aumentado! Causa estupefa\u00e7\u00e3o a variedade de novidades oferecidas, tratadas como mercadorias por este que se tornou para n\u00e3o poucas pessoas um mercado altamente rent\u00e1vel e lucrativo. A\u00a0 comercializa\u00e7\u00e3o do sagrado \u00e9 um fato, e os workshops de fim de semana se sucedem, compondo um alucinante cat\u00e1logo de gurus e mestres nem sempre os mais id\u00f4neos, oferecendo a pre\u00e7os m\u00f3dicos a possibilidade de atingir a transcend\u00eancia sem maiores esfor\u00e7os.<\/p>\n<p>N\u00e3o resta d\u00favida de que a resposta para a indaga\u00e7\u00e3o de Roger Bastide se n\u00e3o estar\u00edamos assistindo a uma nova busca apaixonada pelo sagrado \u00e9 positiva, e hoje com muito mais convic\u00e7\u00e3o se pode afirm\u00e1-lo do que h\u00e1 37 anos, quando o antrop\u00f3logo formulou a quest\u00e3o. Um aspecto, por\u00e9m, dessa busca, me entristece: refiro-me ao risco de tornar superficial e rasteiro algo de tanta magnitude quanto o sagrado. Esse risco deve ser creditado \u00e0\u00a0 forma superficial com que tantas dimens\u00f5es s\u00e9rias da experi\u00eancia humana s\u00e3o tratadas na nossa p\u00f3s-modernidade, numa sociedade em que se quer os fins mas se recusa os meios, esquecendo-se, no caso da experi\u00eancia do sagrado, que, nesse caso, se trata sobretudo de um processo que demanda tempo e investimento integral do indiv\u00edduo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nietzsche, \u00e9 verdade, proclamou a morte dos Deuses, esperando que Foucault proclamasse a morte do homem (o que \u00e9 l\u00f3gico, j\u00e1 que o homem s\u00f3 se constitui como homem atrav\u00e9s de sua rela\u00e7\u00e3o com os Deuses). Tamb\u00e9m \u00e9 verdade que o cristianismo e, em certa medida, o Isl\u00e3 entraram em crise. \u00c9 verdade, enfim, que os soci\u00f3logos n\u00e3o cansam de nos repisar, de umas d\u00e9cadas para c\u00e1, o seu processo de \u201cseculariza\u00e7\u00e3o\u201d (sem perceber, ali\u00e1s, que estavam assim apenas retomando Hubert Spencer e os seus processos de diferencia\u00e7\u00e3o social: o religioso tende a se purificar de toda contamina\u00e7\u00e3o com aquilo que n\u00e3o \u00e9 ele pr\u00f3prio).<br \/>\nMas ser\u00e1 que a morte dos Deuses institu\u00eddos acarretaria o desaparecimento da experi\u00eancia instituinte do Sagrado em busca de novas formas nas quais se encarnar? Ser\u00e1 que a crise das organiza\u00e7\u00f5es religiosas n\u00e3o adviria de uma n\u00e3o-adequa\u00e7\u00e3o, cruelmente vivenciada, entre as exig\u00eancias da experi\u00eancia religiosa pessoal e os quadros institucionais nos quais quiseram mold\u00e1-la \u2013 com vistas, muitas vezes, a retirar-lhe o seu poder explosivo, considerado perigoso para a ordem social? Finalmente, ser\u00e1 que n\u00e3o estar\u00edamos hoje assistindo entre os jovens a uma nova busca apaixonada pelo sagrado, como se os nossos contempor\u00e2neos, depois de um razoavelmente longo per\u00edodo de desenvolvimento do ate\u00edsmo, ou apenas de uma entrega \u00e0 indiferen\u00e7a, estivessem outra vez se dando conta da exist\u00eancia, dentro de si, de um vazio espiritual a ser preenchido e constatassem, a partir dessa sensa\u00e7\u00e3o de vazio, que uma personalidade que n\u00e3o se enra\u00edza numa esp\u00e9cie de entusiasmo sagrado n\u00e3o passa, afinal, de uma personalidade castrada daquilo que constitui uma dimens\u00e3o antropol\u00f3gica universal e constante para todo homem que vivencie a dimens\u00e3o religosa?<br \/>\nRoger Bastide<br \/>\n[Bastide, Roger. O sagrado selvagem. Em: O sagrado selvagem e outros ensaios. Tradu\u00e7\u00e3o Doroth\u00e9e de Bruchard; revis\u00e3o t\u00e9cnica Reginaldo Prandi. \u2013 S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 250.] <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[18],"tags":[],"class_list":["post-2469","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-09-arcano-ix-caminhos-do-sagrado"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2469","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2469"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2469\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2469"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2469"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2469"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}