{"id":2474,"date":"2010-10-27T06:49:57","date_gmt":"2010-10-27T09:49:57","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.opovo.com.br\/sincronicidade\/?p=2474"},"modified":"2010-10-27T06:49:57","modified_gmt":"2010-10-27T09:49:57","slug":"quando-o-proprio-homem-se-faz-oracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/2010\/10\/27\/quando-o-proprio-homem-se-faz-oracao\/","title":{"rendered":"Quando o pr\u00f3prio homem se faz ora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em><span style=\"color: #800080\">Muitas vezes, com os l\u00e1bios im\u00f3veis, ruminava (cf. Ct 7,9) interiormente e, arrastando para o interior as realidades exteriores, elevava o esp\u00edrito \u00e0s superiores. Assim, totalmente transformado n\u00e3o s\u00f3 em orante, mas em ora\u00e7\u00e3o, dirigia toda a aten\u00e7\u00e3o e todo o afeto a uma \u00fanica coisa que pedia ao Senhor (cf. Sl 26,4). \u2013 De quanta suavidade cr\u00eas que ele estava repleto nestas coisas? Ele o soube (cf. J\u00f3 28,23), eu, pelo contr\u00e1rio, apenas admiro. Ao que faz a experi\u00eancia \u00e9 dado conhecer, aos que n\u00e3o experimentam n\u00e3o se concede.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"color: #800080\">Frei Tom\u00e1s de Celano<\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"color: #800080\"><em>[Frei Tom\u00e1s de Celano.<\/em> <strong>Segunda vida de S\u00e3o Francisco<\/strong><em>. Em:<\/em> <strong>Fontes Franciscanas e Clarianas<\/strong><em>. Apresenta\u00e7\u00e3o Sergio M. Dal Moro; tradu\u00e7\u00e3o Celso M\u00e1rcio Teixeira&#8230; [et. al.]. 2\u00aa. ed. \u2013 Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2008, p. 361.]<\/em>\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p>O frade franciscano Tom\u00e1s de Celano, que conheceu S\u00e3o Francisco em vida e com ele conviveu, na segunda biografia do <em>poverello de Assis<\/em> por ele escrita, discorre poeticamente ao longo de sete cap\u00edtulos (Cap. LXI a LXVII) sobre a pr\u00e1tica da ora\u00e7\u00e3o por seu mestre. No in\u00edcio do primeiro cap\u00edtulo em que trata do assunto, escreve: \u201cFrancisco, <em>o homem de Deus <\/em>(cf. 1Sm 2,27), <em>corporalmente distante do Senhor<\/em> (cf. 2Cor 5,5), lutava para manter <em>o esp\u00edrito presente<\/em> (cf. 1Cor 5,3) no c\u00e9u; e, j\u00e1 feito concidad\u00e3o dos anjos, somente a parede da carne o separava. Toda a sua <em>alma tinha sede do<\/em> (cf. Sl 62,2) seu Cristo, ele lhe dedicava n\u00e3o s\u00f3 todo o cora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m todo o corpo\u201d (p. 360).<\/p>\n<p>Lendo o relato de Celano, tem-se uma id\u00e9ia do grau de interioriza\u00e7\u00e3o de que S\u00e3o Francisco era capaz quando se postava em ora\u00e7\u00e3o, a ponto de se tornar alheio ao que acontecia exteriormente. Um aspecto, por\u00e9m, que eu gostaria de destacar aqui dentre os muitos que sobressaem na biografia do santo diz respeito ao poder transformador da ora\u00e7\u00e3o. Na verdade, para usar um voc\u00e1bulo mais adequado \u00e0 id\u00e9ia que quero desenvolver, eu preferiria falar n\u00e3o do aspecto transformador, mas transmutador, da ora\u00e7\u00e3o. Penso que transmuta\u00e7\u00e3o expressa melhor a transforma\u00e7\u00e3o radical que a ora\u00e7\u00e3o pode operar em algu\u00e9m. Transmutar, penso, \u00e9 mais que transformar, \u00e9 tornar outro.<\/p>\n<p>No caso de S\u00e3o Francisco, pela pr\u00e1tica cont\u00ednua e intensa da ora\u00e7\u00e3o ele se torna radicalmente outro. Essa transmuta\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, demanda um grande empenho, tarefa que poucas pessoas conseguem levar a efeito. Quando se fala em orar, de um modo geral a id\u00e9ia que se tem \u00e9 de algu\u00e9m murmurando preces. A ora\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, tem muitos n\u00edveis, sendo o ato de murmurar preces apenas um deles, provavelmente o mais superficial. Diversos santos e m\u00edsticos que escreveram sobre o tema, como, por exemplo, o carmelita S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, doutor da Igreja, s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que um dos efeitos da pr\u00e1tica intensa da ora\u00e7\u00e3o \u00e9 a transforma\u00e7\u00e3o do orante em contemplativo. Na verdade, a contempla\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma forma de ora\u00e7\u00e3o, mas j\u00e1 num n\u00edvel muito mais profundo do que aquele que se contenta com o murmurar preces.<\/p>\n<p>Atingido o n\u00edvel da contempla\u00e7\u00e3o, opera-se, ent\u00e3o, a grande transmuta\u00e7\u00e3o na pessoa do orante. Isso se d\u00e1 pela transforma\u00e7\u00e3o n\u00e3o mais apenas do esp\u00edrito ou da mente, pois estes j\u00e1 atingiram o n\u00edvel de quietude e comunh\u00e3o necess\u00e1rios,\u00a0 mas da pr\u00f3pria materialidade da carne, num est\u00e1gio em que o pr\u00f3prio corpo se faz ora\u00e7\u00e3o. Essa etapa constitui a ep\u00edtome da ora\u00e7\u00e3o, est\u00e1gio esse atingido apenas pelos grandes iluminados, como S\u00e3o Francisco de Assis. \u00c9 o que leva Tom\u00e1s de Celano a se referir ao seu biografado como algu\u00e9m \u201ctotalmente transformado n\u00e3o s\u00f3 em orante, mas em ora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Mas isso, como o dir\u00e1 tamb\u00e9m o bi\u00f3grafo do santo, s\u00f3 \u00e9 dado conhecer aos eleitos &#8211; aqueles que aceitaram o desafio de percorrer a longa, dif\u00edcil e trabalhosa jornada rumo \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o m\u00edstica com o Mestre, no caso, Cristo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas vezes, com os l\u00e1bios im\u00f3veis, ruminava (cf. Ct 7,9) interiormente e, arrastando para o interior as realidades exteriores, elevava o esp\u00edrito \u00e0s superiores. Assim, totalmente transformado n\u00e3o s\u00f3 em orante, mas em ora\u00e7\u00e3o, dirigia toda a aten\u00e7\u00e3o e todo o afeto a uma \u00fanica coisa que pedia ao Senhor (cf. Sl 26,4). \u2013 De quanta suavidade cr\u00eas que ele estava repleto nestas coisas? Ele o soube (cf. J\u00f3 28,23), eu, pelo contr\u00e1rio, apenas admiro. Ao que faz a experi\u00eancia \u00e9 dado conhecer, aos que n\u00e3o experimentam n\u00e3o se concede.<br \/>\nFrei Tom\u00e1s de Celano<br \/>\n[Frei Tom\u00e1s de Celano. Segunda vida de S\u00e3o Francisco. Em: Fontes Franciscanas e Clarianas. Apresenta\u00e7\u00e3o Sergio M. Dal Moro; tradu\u00e7\u00e3o Celso M\u00e1rcio Teixeira&#8230; [et. al.]. 2\u00aa. ed. \u2013 Petr\u00f3polis, RJ: Vozes, 2008, p. 361.]   <\/p>\n","protected":false},"author":50,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[26],"tags":[],"class_list":["post-2474","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-35-seja-vos-feito-segundo-a-vossa-fe"],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/users\/50"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2474"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2474\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs.opovo.com.br\/sincronicidade\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}